De Chanel e Miu Miu a Mugler, Jean Paul Gaultier, Lacoste e Sacai, a temporada de Paris equilibra códigos históricos, proporções renovadas e novas leituras de feminilidade e gênero.
A Paris Fashion Week 2027 continua mostrando que revisitar o passado não significa necessariamente olhar para trás. Entre referências de arquivo, silhuetas familiares e códigos imediatamente reconhecíveis, algumas das principais maisons da temporada encontraram maneiras diferentes de reorganizar a própria história.
Miu Miu recuperou referências vintage, college e surfwear. Jean Paul Gaultier passou pelo filtro irreverente de Duran Lantink. Mugler voltou às formas dramáticas associadas a Thierry Mugler, enquanto Sacai reduziu parte da desconstrução que marcou sua trajetória recente.
Na Chanel, Matthieu Blazy seguiu construindo sua leitura da maison com uma coleção apresentada no Grand Palais, equilibrando símbolos históricos da casa com uma atitude mais leve e jovem.
Mais do que uma única estética dominante, Paris apresentou diferentes maneiras de manipular proporções, gênero, memória e identidade.
Paris Fashion Week 2027: Miu Miu volta às origens
Na Miu Miu, Miuccia Prada encontrou novamente inspiração em diferentes décadas e subculturas para construir uma coleção que parece familiar sem se tornar nostálgica.
Referências aos anos 1960 aparecem ao lado de elementos do surfwear, do universo college e do guarda-roupa preppy. Saias pregueadas, xadrezes, croppeds esportivos, bordados e sobreposições entram em um styling propositalmente desalinhado, quase como se as peças tivessem sido escolhidas de forma espontânea.
É justamente essa aparente falta de organização que organiza a coleção.
A Miu Miu transforma peças reconhecíveis em combinações menos previsíveis, aproximando códigos tradicionalmente femininos de elementos esportivos e masculinos.
A presença de looks femininos e masculinos reforça esse movimento. Em vez de estabelecer fronteiras rígidas entre os dois universos, Miuccia Prada trabalha com uma linguagem mais fluida, em que peças, referências e proporções circulam naturalmente entre diferentes identidades.
Jean Paul Gaultier encontra o olhar de Duran Lantink
Na Jean Paul Gaultier, Duran Lantink encontrou um terreno particularmente adequado ao seu próprio vocabulário.
O designer revisita alguns dos códigos mais reconhecíveis da maison sem tratá-los como peças intocáveis de arquivo. O icônico sutiã de cone reaparece cercado por alfaiataria em couro, babados, volumes e uma estética romântica construída principalmente em branco.
Lingerie aparente e decotes deslocados alteram a percepção de peças clássicas e acrescentam o tipo de tensão visual que acompanha tanto o trabalho de Lantink quanto a história de Gaultier.
O encontro funciona porque ambos compartilham certa resistência à ideia de conformidade.
Masculino e feminino deixam de funcionar como categorias fixas. Sensualidade, humor e desconstrução convivem dentro da mesma coleção, enquanto proporções e detalhes familiares são reorganizados de maneira menos previsível.
Na Paris Fashion Week 2027, Jean Paul Gaultier continua demonstrando como um arquivo reconhecível pode servir como ponto de partida, e não como limite.
Lacoste troca o clube por uma cidade mais áspera
Pelagia Kolotouros continua ampliando a linguagem da Lacoste para além da associação imediata com quadras e clubes esportivos.
A coleção apresentada em Paris trabalha uma estética mais urbana, baseada em modelagens amplas, sobreposições e uma paleta predominantemente terrosa.
O contraste entre peças ajustadas e volumes oversized altera as proporções do sportswear clássico da marca. Há uma sensação de movimento constante, mas sem depender exclusivamente dos códigos tradicionais do vestuário esportivo.
Tecidos plastificados, superfícies com efeito molhado e acabamentos propositalmente sujos adicionam uma camada mais áspera à coleção.
O activewear permanece como ponto de partida, mas aparece menos literal e mais conectado a uma estética urbana contemporânea.
É uma Lacoste que continua reconhecível, mas cada vez menos dependente da nostalgia.
Mugler 2027 amplifica o legado de Thierry Mugler
Miguel Castro Freitas mergulha diretamente no DNA da Mugler.
Em vez de suavizar os elementos mais reconhecíveis da maison, o designer amplia essa linguagem com uma coleção maximalista, sensual e futurista.
Ombros e quadris marcados voltam a estruturar a silhueta. Recortes, geometrias e diferentes texturas retomam a construção corporal que transformou Thierry Mugler em uma das figuras mais reconhecíveis da moda do século 20.
Mas a coleção não depende apenas de referências históricas.
Elementos inspirados em insetos, formas robóticas e detalhes quase extraterrestres deslocam esses códigos para um território mais futurista. O corpo continua sendo o centro da narrativa, mas é tratado como uma superfície que pode ser redesenhada.
O resultado coloca Mugler entre as coleções visualmente mais intensas desta seleção da Paris Fashion Week 2027.
Sacai reduz a desconstrução sem perder identidade
Chitose Abe apresentou uma Sacai mais madura e construída.
A desconstrução, ferramenta central no vocabulário da designer, continua presente, mas perde parte do protagonismo em favor de peças com leitura mais direta.
Referências militares entram na coleção acompanhadas por franjas e bordados. O contraste entre esses elementos e detalhes mais festivos impede que a proposta se torne excessivamente rígida.
Mangas volumosas e transparências alteram as proporções, enquanto estampas simulando superfícies de paetês, cristais e crochês criam profundidade visual sem depender exclusivamente de construções complexas.
É uma mudança de intensidade, não de identidade.
A Sacai continua trabalhando sobreposições, contrastes e encontros improváveis, mas demonstra que sua linguagem pode existir mesmo quando a engenharia das roupas se torna menos explícita.
Chanel de Matthieu Blazy encontra leveza no Grand Palais
Entre os momentos mais observados da temporada, Matthieu Blazy apresentou sua Chanel no Grand Palais com uma abordagem que equilibra elegância e juventude.
A coleção trabalha diferentes volumes.
Vestidos fluidos de cintura baixa aparecem ao lado de saias volumosas em tule, criando uma alternância entre movimento e estrutura.
O tradicional conjunto de saia e jaqueta — um dos códigos mais reconhecíveis da Chanel — também permanece presente, mas recebe uma interpretação mais leve e atual.
Essa relação entre permanência e transformação parece definir a proposta.
Blazy não precisa eliminar os símbolos históricos da Chanel para atualizar sua imagem. O interesse está justamente na maneira como essas peças atravessam novas proporções e uma atitude menos rígida.
Dentro da Paris Fashion Week 2027, a coleção sugere uma Chanel que reconhece o peso da própria história enquanto busca uma relação mais espontânea com uma nova geração.
Paris transforma arquivo em matéria-prima
A Paris Fashion Week 2027 mostra uma temporada em que conhecer a própria história parece tão importante quanto tentar escapar dela.
Miu Miu transforma referências vintage e preppy em uma composição deliberadamente espontânea. Jean Paul Gaultier entrega seus códigos provocadores ao olhar de Duran Lantink. Lacoste segue aproximando sportswear e cidade. Mugler intensifica suas silhuetas escultóricas, enquanto Sacai trabalha uma linguagem mais construída.
Na Chanel, Matthieu Blazy encontra espaço entre tradição e leveza.
São propostas diferentes, mas atravessadas por uma mesma questão: como tornar reconhecível aquilo que já conhecemos sem simplesmente repeti-lo?
Paris responde não com uma única tendência, mas com várias possibilidades.
Acompanhe as novidades da Paris Fashion Week e os principais movimentos da temporada na Hypnotique.
Fotos: Vogue Runway
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