De Sacai a Louis Vuitton, a reta final da temporada revela uma moda mais construída, artesanal e próxima da vida real, sem abandonar experimentação e fantasia.
A Paris Fashion Week 2027 encerrou mais uma temporada colocando em evidência uma mudança interessante de direção. Depois de anos em que complexidade, excesso e desconstrução dominaram parte das passarelas, algumas das coleções mais relevantes desta reta final apontam para roupas mais resolvidas, funcionais e próximas do corpo — sem necessariamente se tornarem previsíveis.
Sacai reduz sua conhecida desconstrução. Gabriela Hearst equilibra alfaiataria e artesanato. Zimmermann transforma borboletas em construção têxtil. Kiko Kostadinov aposta em utilitarismo e experimentação visual. Chanel revisita sua própria história sem nostalgia e Louis Vuitton imagina um futurismo mais cotidiano.
São abordagens diferentes que ajudam a explicar uma mesma temporada: a vontade de seguir experimentando, mas com um pouco menos de ruído.
Paris Fashion Week 2027 entre construção e leveza
Sacai reduz o excesso sem perder Chitose Abe



Chitose Abe retorna à passarela feminina da Sacai depois de uma temporada de pausa e parece interessada em editar a própria linguagem. A desconstrução continua presente, mas aparece de maneira mais controlada, deixando espaço para uma coleção construída com maior clareza.
A inspiração militar atravessa uniformes revisitados, bolsos, detalhes metálicos e dragonas carregadas de franjas e tassels. Jaquetas de couro ganham cortes que se transformam em franjas móveis, enquanto saias partem de estruturas semelhantes para assumir novas versões ao longo do desfile.
A própria Vogue destacou que a coleção foi construída sobre alfaiataria, couro e elementos decorativos, incluindo estampas que reproduzem penas, paetês, contas, grandes cristais e tricôs. Parte delas apareceu coberta por tule e materiais transparentes, criando camadas entre superfície e imagem.
É uma Sacai menos obcecada em desmontar completamente uma peça para reconstruí-la como outra coisa. Abe continua encontrando maneiras simples de causar impacto, mas agora parece confiar mais na silhueta.
Gabriela Hearst entre escritório e trabalho manual



Gabriela Hearst trabalha com duas mulheres que convivem naturalmente na mesma coleção. Uma surge mais urbana e poderosa, com calças sequinhas, blazers e códigos próximos do guarda-roupa corporativo. A outra é relaxada, artesanal e conectada às técnicas manuais que há tempos fazem parte do universo da designer.
Quando esse segundo lado assume protagonismo, aparecem vestidos de crochê, tricôs trabalhados, patchworks, rendas e superfícies delicadas. O artesanal não funciona como decoração adicional, mas como parte da própria construção da roupa.
Há ainda um contexto mais amplo. Para a Primavera 2027, Hearst pesquisou cerca de um século da história das mulheres afegãs e voltou seu olhar também para as tradições têxteis e de joalheria do país.
O resultado consegue equilibrar força e sensibilidade sem transformar esses polos em opostos.
A dimensão artesanal da coleção vai além do efeito visual. Segundo levantamento publicado pela Vogue após o Fashion Month, uma das peças de Gabriela Hearst reuniu 1.239 pequenos espelhos, reforçando o peso do trabalho manual na temporada. Vogue
Artesanato, transformação e novas proporções
Zimmermann transforma borboletas em roupa



Para a Zimmermann Primavera/Verão 2027, Nicky Zimmermann partiu de uma visita ao Australian Museum e das ilustrações científicas do século 19 produzidas pelas irmãs Harriet e Helena Scott. O encontro com a coleção histórica de borboletas do museu acabou expandindo a pesquisa e levou a designer às ideias de movimento, fragilidade e transformação.
Batizada de Kaleidoscope, a coleção leva essa pesquisa para o tecido sem cair simplesmente em estampas literais.
Borboletas surgem em aplicações tridimensionais, rendas, bordados e superfícies que mudam de acordo com o movimento. Blusas cropped recebem cascatas de asas; vestidos transparentes descem em babados; jeans brancos ganham aplicações laterais; bolsas são praticamente revestidas pelas formas dos insetos.
É um território familiar para Zimmermann — feminilidade, movimento, cor e romantismo — tratado desta vez com uma execução mais experimental. Segundo a própria Nicky Zimmermann, desenvolver novas maneiras de criar movimento e textura tornou a coleção tecnicamente mais complexa do que trabalhos anteriores da marca.
Kiko Kostadinov aposta em utilitarismo e geometria



A dupla trabalha uma paleta mais obscura, interrompida por pontos de vermelho, e coloca a geometria no centro da construção. Mangas e barras mais quadradas encontram uma alfaiataria solta — não exatamente oversized, mas deliberadamente relaxada.
Maxibolsos com zíperes avançam sobre calças, jaquetas e macacões, reforçando a característica utilitária das peças. Recortes mais rígidos dividem espaço com listras coloridas e desconstruídas, capazes de aproximar alguns looks de uma linguagem quase pop.
No desfile, a pesquisa das Fanning também partiu do trabalho da artista italiana Nanda Vigo e de suas explorações com luz e percepção. Obras e elementos inspirados na artista foram incorporados ao espaço da apresentação.
O resultado tem um certo desalinho proposital, modelagens funcionais e ecos discretos dos anos 1980. Nas transparências finais, as superfícies parecem envolver as roupas e alterar a percepção das peças, acrescentando uma dimensão quase futurista.
Chanel e Louis Vuitton olham para o futuro
Matthieu Blazy deixa a história da Chanel mais leve



Um ano após sua estreia na maison, Matthieu Blazy parece ainda mais confortável em manipular os códigos da Chanel sem transformá-los em peças de museu.
A coleção começa de forma simbólica: um vestido branco leve e transparente surge acompanhado pela 2.55 original que pertenceu a Gabrielle Chanel. Em vez de reconstruir cronologicamente o arquivo, Blazy trata a história como um guarda-roupa em que épocas diferentes podem coexistir.
Cinturas baixas, bouclé, tricôs, tweeds, corseteria, tules e referências masculinas passam pela coleção. Há vestidos próximos da lingerie, saias que dialogam com os anos 1920, jaquetas bordadas e peças que misturam décadas sem parecer um exercício literal de arquivo.
Acima da passarela no Grand Palais, uma revoada de pássaros iluminados reforçava uma das principais ideias da coleção: movimento e liberdade. A referência veio das aves migratórias observadas por Blazy na Calábria e funcionou como metáfora para a própria trajetória de Gabrielle Chanel.
O interessante é como tudo isso permanece surpreendentemente usável. O patrimônio da maison está presente, mas não pesa sobre a roupa.
Louis Vuitton troca a ficção científica pelo corpo



Nicolas Ghesquière fez praticamente o movimento oposto ao cenário de seu desfile.
Enquanto carros futuristas pairavam sobre a Cour Carrée do Louvre em uma instalação com atmosfera digna de ficção científica, a coleção da Louis Vuitton estava concentrada em algo muito mais terreno: o corpo. O próprio conceito foi descrito como uma abordagem “ergonômica” e body-first, colocando movimento e uso no centro da roupa.
Anos 1990, fitness, romantismo, esportivo e minimalismo atravessam a coleção sem formar blocos isolados. Estampas pixeladas convivem com cortes retos, xadrezes, babados orgânicos e relevos geométricos. A alfaiataria é mais descontraída e divide espaço com jaquetas curtas e peças de aparência cotidiana.
É uma Louis Vuitton menos opulenta e talvez também menos interessada em provar capacidade técnica a cada look.
Depois de temporadas em que Ghesquière levou seu futurismo a construções cada vez mais complexas, o designer reduz o volume. O futuro continua ali, mas agora parece uma possibilidade de guarda-roupa, e não um figurino trazido de outro planeta.
Menos espetáculo pela roupa, mais clareza nas ideias
O que aproxima esses seis momentos da Paris Fashion Week 2027 não é uma tendência visual única. É uma mudança de atitude.
Sacai reorganiza sua própria desconstrução. Gabriela Hearst faz artesanato e alfaiataria ocuparem o mesmo espaço. Zimmermann transforma romantismo em pesquisa de superfície. Kiko Kostadinov trabalha função e percepção. Chanel deixa seu enorme arquivo respirar. Louis Vuitton reduz a escala de seu futurismo para aproximá-lo do cotidiano.
Talvez seja justamente aí que esta reta final de Paris fique mais interessante: continuar inventando já não parece exigir que cada roupa grite para ser percebida.
Fotos: Vogue Runway
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