Shein compra Everlane e, talvez, a última ilusão de sustentabilidade da moda

A venda da Everlane para a Shein talvez seja uma das notícias mais simbólicas da moda nos últimos anos. Não pela aquisição em si. Mas pelo o que ela representa.

Durante anos, a Everlane vendeu mais do que roupa. Vendeu consciência, a ideia de que era possível consumir moda sem culpa. Transparência radical. Produção ética. Preço justo. Menos excesso. Menos desperdício. Quase um antídoto ao fast fashion.

E agora, ela acaba nas mãos da maior máquina de ultra fast fashion do planeta.

A pergunta é porque a Shein comprou a Everlane. Será que para aprender, ou para absorver a última camada de credibilidade que faltava?

Existe um detalhe importante nessa história. A Europa está apertando o cerco com a nova regulamentação do “Digital Product Passport”, ligada às regras de transparência e rastreabilidade da União Europeia, e vai obrigar marcas a mostrarem origem, composição, cadeia produtiva, impacto ambiental e ciclo de vida dos produtos, ou seja, aquilo que a Everlane chamava de “radical transparency” está prestes a deixar de ser diferencial de marketing para virar obrigação regulatória.

A compra pode ser estratégica em vários níveis, comprar know-how, reputação, narrativa, ou até um atalho para um mercado que vai exigir mais transparência.

Mas no fim, sabemos que muitas vezes, a sustentabilidade de muitas marcas é apenas uma história bem contada.

Um branding sofisticado para o consumidor que queria sentir que estava salvando o planeta enquanto comprava camiseta básica por 90 dólares. Quando chega a pressão financeira de verdade, dívida, investidor, desaceleração ou margem apertada, a ideologia muitas vezes vira ativo negociável.

Ainda tem gente que acredita que propósito sozinho sustentaria marcas. Mas o mercado mostrou que propósito sem escala, sem margem e sem operação forte vira um discurso frágil. A Everlane não foi comprada no auge. Foi comprada cansada. Endividada. Valendo cerca de US$ 100 milhões, muito abaixo do que já representou.

Enquanto isso, a Shein continua fazendo o que sempre soube fazer muito bem, ler comportamento, entender desejo e dominar algoritmo.

Hoje, até a crítica ao sistema pode virar aquisição estratégica, e o mais chocante não seja a Shein comprar a Everlane. Talvez seja possível perceber que o mercado nunca ligou tanto assim para coerência de uma marca.

Para entender o peso desse negócio, vale voltar no tempo. A Everlane nasceu em San Francisco em 2010, e estreou comercialmente em novembro de 2011, com uma camiseta básica vendida a US$ 15 e o custo real de produção, US$ 6,70, exibido ao lado do preço de venda. Tudo aberto: matéria-prima, mão de obra, frete, margem. Era uma provocação direta à lógica do varejo tradicional e ao mark-up de cinco a dez vezes que dominava o setor.

A fundação tinha dois nomes principais. Michael Preysman, ex-private equity formado em engenharia e economia em Carnegie Mellon, e Jesse Farmer, desenvolvedor responsável por montar a estrutura tecnológica do negócio. A Everlane, naquele momento, representava o que de mais novo existia em direct-to-consumer: mistura de aspiração millennial, propósito declarado e velocidade digital.

A engrenagem funcionou rápido. Em 2015, a marca rodava cerca de US$ 50 milhões em receita, e no ano seguinte projetava ultrapassar os US$ 100 milhões. Pouco depois, era avaliada em mais de US$ 250 milhões e havia virado a queridinha dos veículos especializados, das listas de tendência e dos investidores de tecnologia. Lerer Hippeau, Maveron, 14W, Kleiner Perkins, SV Angel e Betaworks passaram pela tabela de capital em algum momento.

O salto seguinte veio em 2020, quando a L Catterton, fundo de private equity ligado à LVMH e à família Arnault, injetou US$ 85 milhões na marca em uma rodada que avaliou a Everlane em US$ 550 milhões. A projeção era chegar a uma receita anual de US$ 550 milhões até 2025. Não chegou. Em 2023, a receita girava em torno de US$ 200 milhões, e seguiu desacelerando até cerca de US$ 170 milhões no início de 2026. O modelo direto ao consumidor inverteu de sinal: o custo de aquisição de cliente disparou, e o prêmio digital que sustentava toda a categoria começou a vazar.

Os tropeços também foram morais. Em 2020, a Everlane demitiu centenas de funcionários do varejo e do atendimento depois de uma tentativa de sindicalização. Houve denúncias de racismo interno e acusações de greenwashing, em uma marca que tinha trademark sobre a expressão “radical transparency”. Em 2021, Preysman deixou o comando, dando lugar a Alfred Chang, atual CEO. A L Catterton, que já tinha minoria, virou acionista majoritária em 2024. A partir dali, a operação começou a ser administrada como um caso clássico de saída de fundo: uma marca cansada, com narrativa de propósito e métricas que pediam socorro. É contra esse pano de fundo que, em maio de 2026, a Shein compra Everlane.

Shein compra Everlane e, talvez, a última ilusão de sustentabilidade da moda
Foto: Reprodução

A operação foi formalmente aprovada pelo conselho da Everlane no sábado, 17 de maio, e divulgada nos dias seguintes pela imprensa especializada, primeiro pelo Puck News e depois confirmada por Bloomberg e Reuters. Quando a Shein compra Everlane, o acordo avalia a marca em cerca de US$ 100 milhões. Esse valor precisa ser lido em paralelo aos US$ 550 milhões da avaliação de 2020. Em seis anos, a L Catterton vê os US$ 85 milhões aplicados saírem por uma fração do que entrou. Para o fundo, o negócio é um caso evidente de write-down.

Há outro número que pesa: aproximadamente US$ 90 milhões em dívidas no balanço da Everlane. Esse passivo está dividido em dois instrumentos. Um empréstimo de US$ 25 milhões da Gordon Brothers, casa especializada em reestruturação de varejistas em dificuldade, e uma linha rotativa de crédito de US$ 65 milhões da CIT Northbridge, lastreada em ativos. É a estrutura financeira clássica de quem está tentando segurar o caixa enquanto procura uma porta de saída.

A repartição entre acionistas também conta uma história. A comunicação oficial enviada aos shareholders deixou claro que detentores de ações ordinárias não recebem nada. Sobre os preferenciais, ainda não há definição pública: o pagamento pode vir em dinheiro, em ações da Shein ou em coisa nenhuma. Tanto a Shein quanto a L Catterton se recusaram a comentar.

Quanto à integração das duas operações, o detalhamento ainda não foi tornado público. O que se sabe até aqui é que a Shein passa a ser proprietária da marca e da estrutura, com Alfred Chang em uma posição que ainda não foi confirmada para o pós-fechamento. Não há, até este momento, plano divulgado para reposicionamento de catálogo, mudança na cadeia produtiva da Everlane ou cruzamento operacional entre as duas plataformas. Essa parte da história ainda vai ser escrita, e provavelmente vai dizer mais sobre a Shein do que sobre a Everlane.

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