A marca brasileira uniu forças com a label parisiense para transformar referências culturais do país em dois pares produzidos artesanalmente em Portugal.


P. Andrade e Philéo criam tênis feitos à mão que traduzem, no chão, a mesma ideia que move toda a coleção “Sagrado”. A marca brasileira, fundada por Pedro Andrade e Paula Kim, se juntou à label parisiense de sapatos Philéo para desenvolver dois modelos exclusivos, apresentados dentro do desfile de Primavera/Verão 2027 na Paris Fashion Week. A parceria não é só um detalhe de styling, é a prova de que o projeto da P. Andrade sabe atravessar o Atlântico sem perder a origem.
São duas silhuetas, e cada uma carrega uma proposta própria. A primeira, batizada de “Cascade”, é uma releitura macia e tátil que cruza o sapato de ciclismo com a sapatilha, feita à mão em Portugal com camurça felpuda. A segunda é uma versão mule, também produzida no norte português, dessa vez em ráfia, material que aproxima o calçado de um artesanato mais rústico e natural. Fotografados por Denny Sachtleben, os dois pares mostram como a colaboração buscou textura e feitura manual em vez de puro apelo visual.
Para entender o peso dessa parceria, vale lembrar de onde vem a coleção “Sagrado”. A P. Andrade foi a primeira marca brasileira a entrar no calendário oficial masculino da Paris Fashion Week, em 2025, e voltou para a segunda temporada seguida com um desfile de cerca de 30 looks, apresentado em 28 de junho no Le Salon des Miroirs. Em vez de recorrer à imagem óbvia do Carnaval, Andrade e Kim mergulharam em subculturas festivas brasileiras pouco conhecidas fora do país, como os bate-bolas do Rio de Janeiro, o papangu e a La Ursa. É pesquisa de campo virando roupa, e agora virando calçado também.


A escolha da Philéo como parceira faz sentido dentro dessa lógica. Criada em Paris em 2019 pelo jovem designer Philéo Landowski, a marca construiu reputação reinterpretando formas clássicas, como sapatilhas, derbies e mules, com pegada sustentável e produção ancorada em Portugal. É um nome que já colaborou com casas como Comme des Garçons, Salomon e adidas, o que dá à P. Andrade um selo de credibilidade no universo específico do design de calçado. Quando as duas se encontram, o resultado une a narrativa cultural brasileira ao savoir-faire europeu de fabricação.
No fim, essa colaboração diz mais sobre o momento da P. Andrade do que sobre um par de sapatos. A coleção “Sagrado” apareceu ao lado de parcerias com Nike, Levi’s e Havaianas, num desfile que consolidou a marca como uma das vozes mais interessantes na conversa sobre identidade nacional dentro do luxo global. Ao fazer P. Andrade e Philéo criarem tênis feitos à mão a partir de referências tão brasileiras, os designers provam que dá para levar o país inteiro para dentro de um sapato, sem precisar explicar demais nem apelar para o estereótipo.
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