Freddie Mercury ganha exposição no V&A em Londres

Freddie Mercury ganha exposição no V&A em Londres
Getty Images / Peter Still / Redferns

“Splendid Things” reúne figurinos históricos do cantor e mostra como moda, performance e construção de imagem ajudaram a criar um dos maiores ícones da cultura pop.

Poucos artistas entenderam tão bem a força da imagem quanto Freddie Mercury. Quatro décadas depois de algumas de suas performances mais lembradas, roupas, acessórios e gestos continuam imediatamente associados ao vocalista do Queen. Agora, uma nova exposição de Freddie Mercury no Victoria and Albert Museum, em Londres, transforma esse repertório visual em objeto de análise.

Com abertura marcada para 24 de outubro de 2026, Freddie Mercury | Splendid Things apresenta oito looks que atravessam diferentes momentos da carreira do cantor, desde os primeiros anos do Queen até sua trajetória solo. O percurso será gratuito e distribuído por seis pontos das galerias permanentes do V&A South Kensington.

O projeto foi desenvolvido em colaboração com Mary Austin, amiga próxima e ex-noiva de Mercury, que emprestou sete dos looks apresentados. A proposta vai além de reunir memorabilia: coloca as roupas do artista em diálogo com moda, artes decorativas e performance para mostrar como o figurino foi fundamental na construção de sua presença pública.

Exposição de Freddie Mercury revela a força do figurino

Antes de estádios lotados e videoclipes exibidos mundialmente, Freddie Mercury já utilizava a roupa como extensão da performance.

Silhuetas justas, peças abertas no peito, macacões, capas, elementos militares, couro e referências aristocráticas formaram um vocabulário visual que mudava junto com sua música.

Na exposição de Freddie Mercury, essa evolução aparece de forma cronológica. Um dos primeiros conjuntos apresentados é um look monocromático usado em uma apresentação no Imperial College, em Londres. A mesma imagem posteriormente esteve ligada à identidade visual do álbum de estreia do Queen, lançado em 1973.

A roupa naquele período já mostrava uma característica que acompanharia Mercury durante toda a carreira: a capacidade de transformar peças relativamente simples em ferramentas de palco.

Não era apenas uma questão de extravagância. Movimento, proporção e leitura à distância tinham importância especial para um artista que, poucos anos depois, precisaria ocupar visualmente arenas com dezenas de milhares de pessoas.

Do glam rock às grandes arenas

Durante os anos 1970, essa experimentação ganhou proporções cada vez maiores.

Entre as peças destacadas está o macacão conhecido como Mercury Wing, criado por Wendy de Smet e usado durante a turnê de A Night at the Opera, de 1975 e 1976. O figurino também aparece associado ao universo visual de “Bohemian Rhapsody”.

As mangas amplas criavam desenhos diferentes conforme Mercury movimentava os braços. O efeito revela uma característica importante de seus figurinos: muitas roupas eram pensadas não apenas para serem observadas, mas para mudar durante a performance.

Esse princípio ainda está presente na moda de palco contemporânea. Silhuetas exageradas, superfícies que respondem à iluminação e peças capazes de ampliar movimentos continuam sendo ferramentas utilizadas por artistas em turnês, festivais e videoclipes.

Mercury ajudou a transformar esse tipo de construção visual em parte central da experiência de um show de rock.

Getty Images

Os figurinos que contam diferentes fases de Freddie Mercury

A seleção do V&A também acompanha as mudanças na imagem do cantor.

Se os anos 1970 foram marcados por referências glam e experimentações com formas fluidas, a década seguinte consolidou uma estética mais direta. Regatas, jeans, jaquetas militares e acessórios gráficos passaram a fazer parte de uma identidade imediatamente reconhecível.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa transformação aparece na etapa dedicada à Magic Tour.

A mostra inclui a coroa e a capa criadas pela figurinista Diana Moseley para a última apresentação de Mercury com o Queen durante a turnê, realizada em Knebworth, em 1986.

O conjunto resume uma característica recorrente do artista: referências históricas eram frequentemente utilizadas com humor e teatralidade.

Mercury não precisava literalmente se vestir como um rei para demonstrar domínio do palco. A coroa tornava a ideia explícita e transformava o encerramento de um show em uma cena quase teatral.

Do palco ao guarda-roupa pessoal

A exposição não se concentra apenas nas peças de grandes apresentações.

Itens mais discretos do guarda-roupa pessoal também entram no percurso, permitindo observar outra dimensão do estilo de Mercury. Entre eles está o terno usado no videoclipe de “Made in Heaven”, faixa lançada originalmente em sua carreira solo.

Essa combinação entre figurinos espetaculares e roupas menos ostensivas ajuda a mostrar como sua imagem não permaneceu presa a uma única estética.

Freddie Mercury podia recorrer ao glam rock, ao couro, à alfaiataria ou a referências esportivas sem abandonar uma identidade reconhecível.

O elemento constante era o modo como essas roupas eram utilizadas.

Quando a roupa se transforma em performance

O V&A decidiu não apresentar os figurinos simplesmente alinhados em vitrines.

A cenografia é assinada por Tom Piper, designer conhecido por trabalhos com a Royal Shakespeare Company. Som, iluminação e estruturas expositivas foram incorporados para contextualizar cada fase da trajetória do músico.

Manequins desenvolvidos especialmente para o projeto assumem posições inspiradas na movimentação do cantor.

A escolha é significativa porque separar completamente as roupas do corpo de Mercury eliminaria parte importante de sua função.

Um macacão com mangas amplas só revela toda a sua construção durante o movimento. Uma capa ganha outra dimensão ao atravessar um palco. Mesmo uma regata branca pode adquirir força quando combinada com postura, iluminação e interação com o público.

A exposição coloca justamente essa relação entre objeto e performance no centro da discussão.

O V&A possui uma longa tradição de investigar a conexão entre moda e cultura popular. Ao inserir figurinos de Freddie Mercury entre seus acervos de moda, design, artes decorativas e performance, o museu ajuda a deslocar a roupa de palco da categoria de simples memorabilia para tratá-la como parte da história do design e da construção de imagem de um artista.

“Splendid Things” e o gosto de Freddie Mercury pelo excesso

O nome da exposição também ajuda a explicar a personalidade visual do cantor.

“Splendid Things” deriva de uma declaração feita por Mercury em 1978, na qual afirmou gostar de estar cercado por “coisas esplêndidas” e imaginou uma vida vitoriana em meio a uma profusão de objetos requintados.

A frase oferece uma chave interessante para compreender sua estética.

O maximalismo de Mercury não acontecia por acaso. Objetos, roupas, interiores e referências históricas faziam parte de um universo visual cuidadosamente construído.

Essa lógica também explica por que seu estilo continua sendo revisitado décadas depois.

A moda atual está novamente interessada em teatralidade, individualidade e roupas criadas para produzir imagens marcantes. Arquivos de artistas e bandas tornaram-se referências recorrentes para designers, editoriais, videoclipes e figurinos contemporâneos.

No caso de Mercury, porém, a influência ultrapassa peças específicas.

Sua contribuição está também na ideia de que um artista pode construir personagens diferentes sem perder identidade. Cada fase alterava a superfície, mas preservava a presença.

O legado de Freddie Mercury entre moda e cultura pop

A realização da exposição de Freddie Mercury coincide com o ano em que o artista completaria 80 anos. Nascido em 5 de setembro de 1946, Mercury permanece como uma das figuras mais reconhecidas da história da música. O V&A apresenta a mostra justamente como uma celebração desse aniversário simbólico.

A permanência de sua imagem ajuda a demonstrar como música e moda se tornaram linguagens inseparáveis na cultura pop.

Antes das redes sociais transformarem cada apresentação em milhares de imagens compartilhadas instantaneamente, artistas como Mercury já compreendiam que uma silhueta poderia permanecer na memória tanto quanto uma música.

A coroa, o macacão alado ou a combinação aparentemente simples de regata branca e jeans funcionam hoje quase como símbolos gráficos.

São imagens capazes de identificar imediatamente uma pessoa, uma época e uma atitude.

Serviço

Exposição: Freddie Mercury | Splendid Things

Local: Victoria and Albert Museum — V&A South Kensington

Endereço: Cromwell Road, London SW7 2RL, Reino Unido

Abertura: 24 de outubro de 2026

Período: até 17 de janeiro de 2027

Entrada: gratuita

Horários do V&A South Kensington: diariamente, das 10h às 17h45; às sextas-feiras, das 10h às 22h

Formato: percurso por seis pontos das galerias permanentes do museu

Destaques: oito looks da carreira de Freddie Mercury, incluindo sete peças emprestadas por Mary Austin

Mais informações: site oficial do Victoria and Albert Museum

Freddie Mercury continua influenciando a imagem do pop

Observar os figurinos isoladamente revela técnicas, materiais e referências. Colocá-los novamente em contexto mostra algo maior: Freddie Mercury compreendeu muito cedo que a imagem de um músico também poderia funcionar como linguagem.

A exposição de Freddie Mercury no V&A parte dessa relação para reconstruir décadas de transformações visuais sem separar moda, música e performance.

Dos macacões fluidos dos anos 1970 à teatralidade da coroa usada na Magic Tour, cada mudança acompanhou uma nova maneira de ocupar o palco.

É justamente essa capacidade de transformar roupas em símbolos que mantém seu legado visual tão presente. Em 2026, as peças chegam ao museu não apenas como lembranças de um astro do rock, mas como documentos de uma das identidades mais influentes da cultura pop.

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