Milan Fashion Week 2027: Roberto Cavalli e Gucci levam excesso e ironia a Milão

Fausto Puglisi recupera o lado mais hedonista da Roberto Cavalli, enquanto Demna transforma a Gucci em uma boutique habitada por personagens da própria história da maison.

A Milan Fashion Week 2027 colocou lado a lado duas casas italianas com relações muito diferentes com o excesso.

Na Roberto Cavalli, Fausto Puglisi mergulhou novamente em animal prints, bordados, jeans de cintura baixa, transparências e uma sensualidade direta que remete aos anos mais expansivos da marca.

Na Gucci, Demna montou literalmente uma boutique dentro do centro de convenções de Milão e usou a coleção para reunir diferentes personagens ligados ao imaginário da casa: a amazona, a senhora milanesa, o estudante preppy, a mulher da noite e o homem elegante que poderia ter saído dos anos 1980 ou 1990.

Em comum, as duas apresentações olharam para arquivos muito conhecidos sem tentar reconstruí-los como retrospectiva.

Roberto Cavalli Spring 2027 recupera o espírito glamazon

A palavra glamazon aparece com frequência quando se fala de Roberto Cavalli.

O termo junta glamour e Amazon, e passou a ser usado para descrever uma mulher muito segura, sensual e visualmente poderosa. Durante os anos 1990 e 2000, esse imaginário ficou diretamente ligado às roupas de Cavalli: vestidos colados ao corpo, animal print, transparência, couro trabalhado e muito brilho.

Fausto Puglisi voltou diretamente a esse repertório na Spring 2027.

A coleção concentra minissaias, hot pants, tops frente única, camisoles com renda, biker shorts e jeans de cintura extremamente baixa.

Em alguns looks, tiras de lingerie ficam propositalmente visíveis acima do cós.

O corpo aparece como parte da construção da roupa, algo bastante coerente com uma maison que nunca tratou sensualidade de maneira discreta.

Animal print volta ao centro da Cavalli

Roberto Cavalli começou sua carreira experimentando técnicas de impressão sobre couro no início dos anos 1970.

Esse interesse por superfície acabou se transformando em um dos códigos mais importantes de sua marca.

Leopardo, zebra, tigre e outros desenhos animais atravessaram décadas de coleções e ajudaram a criar uma identidade facilmente reconhecível.

Na Spring 2027, Fausto Puglisi leva essas estampas novamente para o primeiro plano.

Animal prints aparecem ao lado de padrões psicodélicos, bordados, veludo devorê e aplicações brilhantes.

O que é veludo devorê?

O devorê é uma técnica que remove seletivamente parte das fibras de um tecido para criar desenhos transparentes sobre uma base mais densa.

Em veludos, o processo produz áreas opacas e translúcidas dentro da mesma superfície.

Roberto Cavalli utilizou bastante esse tipo de acabamento ao longo de sua história, especialmente em vestidos que combinavam textura e transparência.

Puglisi recupera esse material dentro da coleção atual ao lado de franjas, bordados e tecidos fluidos.

O arquivo Cavalli também está vivendo outro momento

Existe um contexto maior em torno dessa escolha.

Peças vintage de Roberto Cavalli e da linha Just Cavalli voltaram a circular com força no mercado de segunda mão, especialmente modelos dos anos 1990 e início dos 2000.

Pouco antes do desfile, uma seleção rara de couros estampados dos anos 1970 também apareceu em uma exposição e venda organizada pela loja vintage Reracked, nos Estados Unidos.

Puglisi acompanha essa redescoberta do arquivo.

Sua coleção reúne vários elementos imediatamente ligados ao antigo Cavalli, mas evita reconstruir um único período específico.

Há referências que vão de Courtney Love a Beverly Hills, 90210, além de arte renascentista italiana e obras contemporâneas.

O resultado visual é bastante direto: roupa feita para festa.

Cores voltam depois de uma temporada mais escura

A coleção anterior da Roberto Cavalli havia trabalhado principalmente com preto.

Na Spring 2027, a cor retorna em grande escala.

Roxos, vermelhos, laranjas, verdes e combinações psicodélicas aparecem em uma semana de moda onde várias marcas preferiram paletas mais neutras.

Isso também aproxima Puglisi do Cavalli que ganhou enorme popularidade entre o final dos anos 1990 e os anos 2000.

A cor nunca funcionou apenas como detalhe na casa.

Ela costuma aparecer junto de estampa, textura e brilho, criando superfícies bastante densas visualmente.

Gucci Spring 2027 transforma a passarela em boutique

Um dia depois, a Gucci Spring 2027 começou antes mesmo da primeira modelo entrar.

O interior do centro de convenções foi reconstruído como uma loja completa da Gucci.

Sofás baixos de veludo, mobiliário e exposição de produtos formavam uma versão do novo conceito de varejo que Demna desenvolveu para a marca.

A encenação fazia sentido para o estágio atual de seu trabalho.

Demna assumiu a direção artística da Gucci em 2025 e passou o primeiro ano testando diferentes leituras da casa antes de chegar à Spring 2027.

Houve La Famiglia, depois um desfile concentrado em sensualidade e corpo, seguido pelo projeto GucciCore em Nova York.

Agora, essas experiências aparecem reunidas.

Afinal, o que é Gucci para Demna?

Essa parece ser a pergunta principal da coleção.

Gucci tem uma história longa e muito fragmentada.

A casa nasceu em Florença em 1921 como fabricante de artigos de couro e bagagem. Ao longo do século XX, incorporou códigos ligados ao universo equestre, ao jet set e ao luxo italiano.

Nos anos 1990, Tom Ford transformou a marca em um símbolo de sensualidade internacional.

Décadas depois, Alessandro Michele construiu outro Gucci, maximalista, romântico e profundamente ligado à cultura pop.

Demna recebe todas essas camadas ao mesmo tempo.

Por isso, a Spring 2027 funciona quase como uma sequência de personagens.

Há riding jackets e botas que remetem à tradição equestre. Trench coats bem cortados lembram uma elegância burguesa italiana.

Vestidos longos e ajustados recuperam a sensualidade dos anos Tom Ford.

E há ainda um grupo de looks preppy tratado de maneira bem menos comportada.

O preppy da Gucci aparece distorcido

Preppy é um estilo ligado originalmente ao vestuário de escolas preparatórias e universidades americanas.

Polos, camisas, blazers, kilts, loafers e suéteres fazem parte desse repertório.

Demna usa vários desses elementos, mas altera proporção e styling.

Bomber jackets aparecem com polos de gola levantada. Kilts de tartan recebem grandes ferragens Horsebit. Jeans muito baixos são presos por vários cintos.

Correntes se acumulam no pescoço.

O resultado mantém códigos reconhecíveis do preppy, mas elimina aquela aparência limpa normalmente associada ao estilo.

O Horsebit vem da história equestre da Gucci

O Horsebit é uma ferragem inspirada no freio utilizado em cavalos.

A Gucci começou a incorporá-lo em seus produtos durante os anos 1950, quando referências ao mundo equestre passaram a ocupar uma posição central na identidade da marca.

O Horsebit loafer, apresentado em 1953, acabou se tornando um dos produtos mais conhecidos da casa.

Na Spring 2027, a ferragem cresce de escala e aparece aplicada também sobre kilts e outros acessórios.

A alfaiataria fica mais próxima do corpo

A silhueta também marca uma mudança importante no trabalho de Demna.

Durante boa parte de sua passagem pela Balenciaga, o designer ficou conhecido por volumes exagerados, ombros enormes e roupas deliberadamente oversized.

Na Gucci, algumas dessas proporções começam a encolher.

Blazers recebem ombros pontudos, mas ficam ajustados ao torso. Cinturas são marcadas e casacos acompanham o corpo de maneira mais precisa.

Existe uma estrutura forte, porém construída com outra relação de escala.

Essa mudança aparece também no menswear.

Calças mais curtas, loafers usados sem meias e um guarda-roupa de aparência aristocrática entram em um território que o próprio Demna já admitiu considerar distante de sua zona de conforto.

Tom Ford aparece sem precisar entrar literalmente no arquivo

Um dos pontos mais reconhecíveis da história recente da Gucci são os anos de Tom Ford.

Entre 1994 e 2004, o designer construiu uma imagem marcada por veludo, cetim, vestidos recortados, calças baixas e uma sexualidade muito direta.

Na Spring 2027, alguns vestidos longos de jersey recuperam essa atmosfera.

O look final leva essa pesquisa para uma solução técnica interessante.

Um vestido drapeado sobre um ombro é mantido no lugar por um pequeno peso metálico em forma de gota.

A peça depende de engenharia e equilíbrio para sustentar o drapeado.

É um detalhe quase invisível, mas que mostra quanto trabalho existe por trás de uma roupa aparentemente simples.

João Hilbert estreia internacionalmente na Gucci

O casting também teve participação brasileira.

João Hilbert, de 18 anos, integrou o desfile da Gucci em Milão, marcando sua estreia em uma passarela internacional.

O modelo, filho de Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert, já havia participado de trabalhos e desfiles no Brasil e faz parte da agência WAY Model.

Na Gucci, apareceu em um look preto da coleção masculina.

Sua presença coloca mais um nome brasileiro dentro do circuito internacional desta temporada.

Duas casas que entendem excesso de formas diferentes

Roberto Cavalli e Gucci nunca tiveram uma relação tímida com imagem.

Na Cavalli, o excesso vem principalmente da superfície: estampas animais, cor, brilho, transparência e pele.

Na Gucci, ele aparece na quantidade de referências que uma única casa acumulou ao longo de mais de cem anos.

Fausto Puglisi trabalha diretamente sobre um repertório que o público reconhece.

Demna ainda está organizando o próprio vocabulário dentro da Gucci e usa a Spring 2027 para testar várias possibilidades ao mesmo tempo.

As duas coleções também chegam num momento em que a moda começa a reabrir espaço para cor, salto, sensualidade e roupas mais evidentemente construídas para serem vistas.

Milão volta a permitir um pouco mais de excesso

A Milan Fashion Week 2027 vem apresentando uma temporada menos uniforme do que as anteriores.

Na Roberto Cavalli, isso significa recuperar sem medo uma linguagem associada a festa, cor e sensualidade.

Na Gucci, significa aceitar que a identidade da marca não cabe dentro de um único personagem.

Fausto Puglisi e Demna trabalham com arquivos muito diferentes, mas chegam a uma conclusão parecida: algumas casas funcionam melhor quando suas características mais reconhecíveis não precisam ser reduzidas.

Fotos: Vogue Runway

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