Julie Kegels transforma peso em construção, Matières Fécales leva 99 modelos à République, Jonathan Anderson aprofunda sua Dior, Glenn Martens trabalha estrutura e fluidez na Margiela e Anthony Vaccarello cobre a Saint Laurent de ouro.
A Paris Fashion Week 2027 começou com uma programação que rapidamente colocou conceitos bastante diferentes em circulação.
Julie Kegels abriu oficialmente o calendário poucas semanas depois de vencer o LVMH Prize. Matières Fécales encerrou o primeiro dia ocupando a Place de la République com 99 modelos.
Na sequência, Jonathan Anderson apresentou mais uma etapa de sua construção da Dior, Glenn Martens voltou ao ready-to-wear da Maison Margiela com uma pesquisa sobre estrutura e fluidez, e Anthony Vaccarello marcou dez anos à frente da Saint Laurent com uma coleção quase inteiramente dourada.
São cinco propostas muito diferentes, mas todas partem de uma questão parecida: como continuar desenvolvendo uma identidade sem depender apenas de novidade visual.
Julie Kegels transforma a gravidade em roupa



Julie Kegels abriu a Paris Fashion Week com Apple of the Day, sua coleção Spring 2027.
A apresentação aconteceu poucas semanas depois de um momento importante para a designer belga: em setembro, ela venceu o LVMH Prize for Young Fashion Designers, recebendo também um ano de mentoria com especialistas do grupo.
A coleção nasceu de algo bem menos grandioso.
Kegels tem o hábito de comer uma maçã antes de dormir.
A partir desse ritual, chegou à conhecida história da maçã associada a Isaac Newton e começou a pensar sobre gravidade, peso e queda.
O conceito ganhou ainda outra camada depois da vitória no LVMH Prize.
Com mais atenção, oportunidades e responsabilidades chegando ao mesmo tempo, a designer começou a questionar a maneira como a palavra “peso” costuma carregar uma conotação negativa.
Para ela, aquilo que tem peso também pode ter valor.
Apple of the Day faz as roupas cederem ao chão
Kegels levou a gravidade para a construção das próprias peças.
Saias parecem deslizar em direção ao quadril. Mangas caem dos ombros. Jeans e calças recebem cavalo extremamente baixo e algumas peças parecem estar prestes a escapar completamente do corpo.
Em determinados vestidos, pequenos pesos foram inseridos nas barras para acentuar a queda do tecido.
Essa intervenção é quase invisível para quem olha rapidamente, mas modifica diretamente a maneira como a roupa se movimenta.
Materiais leves também participam do experimento.
Superorganza recebe pigmentos, resíduos de paetês e pequenas esferas no interior, fazendo com que elementos normalmente associados à leveza adquiram massa.
A coleção trabalha justamente nessa diferença entre aparência e comportamento.
Um tecido pode parecer delicado, mas cair de forma pesada.
Uma malha grossa pode parecer deslocada ou instável sobre o corpo.
Cair também tem outros significados
Kegels não utilizou a queda apenas como fenômeno físico.
Falling, em inglês, aparece em expressões como falling in love, apaixonar-se, mas também pode significar fracassar, ceder ou perder o equilíbrio.
Essa multiplicidade ajudou a designer a construir uma coleção em que roupas parecem estar sempre no meio de algum movimento.
Nada está completamente no lugar.
Quem é Julie Kegels?
A designer belga se formou na Royal Academy of Fine Arts, em Antuérpia, escola que ocupa uma posição importante na história recente da moda belga.
Kegels lançou sua marca em 2024 e rapidamente ganhou atenção por um guarda-roupa feminino que trabalha proporções deslocadas, sensualidade e uma construção que frequentemente parece ligeiramente fora do lugar.
A vitória no LVMH Prize 2026 colocou seu nome num grupo que já revelou designers importantes da geração recente.
Apple of the Day chega justamente no momento em que sua estrutura de marca começa a crescer junto com a atenção internacional.
Matières Fécales leva os 99% para a République



Se Julie Kegels abriu a semana observando peso e gravidade, Matières Fécales terminou o primeiro dia falando diretamente sobre poder.
Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran apresentaram The Ninety-Nine Percent na Place de la République, espaço historicamente associado a manifestações, protestos e mobilizações populares em Paris.
A escolha do local fazia parte do conceito.
Na temporada anterior, a dupla havia apresentado The One Percent, coleção construída em torno do universo de riqueza extrema e da pequena parcela da população que concentra grande parte do poder econômico.
Agora, eles inverteram o ponto de vista.
99 modelos para The Ninety-Nine Percent
O número apareceu de maneira bastante literal.
A dupla colocou 99 modelos racializados na apresentação, reforçando a discussão sobre quem recebe espaço e visibilidade dentro da moda de luxo.
O elenco atravessou diferentes idades, corpos e origens.
A primeira parte do desfile trabalhou branco, estruturas que lembravam vestes religiosas, drapeados, véus e superfícies desgastadas.
Aos poucos, novas cores entram na coleção.
O verde-oliva aproxima determinados looks do uniforme militar, enquanto alfaiataria, corseteria, punk e referências fetichistas atravessam outras partes.
A linguagem visual continua reconhecível para quem acompanha a Matières Fécales.
Silhuetas extremamente alongadas, saltos escultóricos, maquiagem transformadora e roupas que mudam a proporção do corpo permanecem centrais.
Couture também entra na discussão sobre acesso
A coleção também utiliza técnicas e materiais ligados a tradições que normalmente ficam fora da narrativa dominante da alta moda parisiense.
Tecidos de sari produzidos em Varanasi, na Índia, foram transformados em volumes associados à couture dos anos 1950.
Algodão tecido manualmente em Burkina Faso entrou em peças de noite estruturadas por corsets.
Um dos looks chegou a utilizar cerca de 300 metros de tule.
A escolha amplia o argumento do desfile.
A dupla não fala apenas sobre quem veste luxo, mas também sobre quais técnicas, culturas e produtores recebem legitimidade dentro desse sistema.
Dior encontra leveza depois de um ano de Jonathan Anderson


Na Dior, Jonathan Anderson chega à Spring 2027 depois de aproximadamente um ano construindo diferentes partes da maison.
Nesse período, apresentou masculino, alta-costura, Cruise e ready-to-wear, criando conexões entre coleções que inicialmente poderiam parecer independentes.
A Spring 2027 ajuda a organizar melhor esse vocabulário.
Tecidos leves, xadrezes e algumas soluções de alfaiataria recuperam ideias desenvolvidas no masculino.
Plissados, flores tridimensionais e trabalhos mais elaborados continuam pesquisas apresentadas na alta-costura.
Já tecidos mais rústicos, superfícies desfiadas e determinadas construções de blazer fazem ligação com a Resort 2027.
A coleção feminina reúne essas experiências dentro de uma proposta mais leve.
O que significa flou na moda?
Uma palavra importante para entender a coleção é flou.
Nas casas tradicionais de couture francesas, os ateliers costumam ser divididos entre áreas especializadas.
O tailleur trabalha roupas estruturadas, como casacos e alfaiataria.
O flou está ligado a vestidos, tecidos leves, drapeados e construções mais fluidas.
Jonathan Anderson brinca justamente com essa separação.
Peças que normalmente pertenceriam ao universo da alfaiataria recebem tecidos e movimentos associados ao flou.
Blazers perdem peso.
Camisas ficam quase transparentes.
Saias são construídas em chiffon, plissados finos e várias camadas.
A pergunta que orientou parte do processo foi simples: até onde uma roupa pode ficar leve?
Wénwán e a beleza da irregularidade
O convite do desfile também carregava uma pista.
Os convidados receberam um par de wénwán, nozes utilizadas tradicionalmente na China como objetos manipulados pelas mãos.
Com o tempo e o uso, sua superfície desenvolve uma patina própria.
Jonathan Anderson se interessou pela maneira como algo natural e irregular pode ganhar valor justamente através de suas imperfeições.
Essa ideia aparece em flores, volumes assimétricos, estampas que lembram aquarela e superfícies que não parecem completamente uniformes.
O cenário reforçava a pesquisa.
As modelos atravessaram uma passarela construída sobre a água nos Jardins das Tulherias, cercada por árvores e névoa.
O desfile foi dedicado a Mathilde Favier
A apresentação teve também uma dimensão pessoal para a maison.
A Dior dedicou o desfile a Mathilde Favier, diretora de relações públicas da Dior Couture, que morreu em agosto de 2026, aos 57 anos, em um acidente de carro.
Favier trabalhou durante anos na maison e mantinha uma relação próxima com designers, clientes, celebridades e equipes internas.
Jonathan Anderson publicou uma homenagem após sua morte, descrevendo-a como uma figura que representava o espírito da couture.
É importante fazer uma distinção editorial.
A coleção já estava em desenvolvimento quando Mathilde Favier morreu.
Portanto, a Spring 2027 não foi criada originalmente a partir de sua morte ou de sua história.
A apresentação foi dedicada a ela, e alguns aspectos da coleção ganharam naturalmente outra carga emocional depois do ocorrido.
Isso é diferente de afirmar que todo o conceito nasceu como homenagem.
Maison Margiela: flores aparecem, mas não são o conceito principal



Flores estavam por toda parte no desfile da Maison Margiela.
Elas apareceram no convite em formato de buquê, nas estampas, no cenário e em diferentes superfícies das roupas.
Mas reduzir a Maison Margiela Spring 2027 a uma coleção floral esconderia o principal estudo desenvolvido por Glenn Martens.
O conceito oficial foi chamado de Hard and Soft.
Martens investigou justamente a divisão entre construção rígida e construção fluida dentro da tradição dos ateliers parisienses.
De um lado está novamente o tailoring, responsável por estrutura, casacos e peças de construção mais firme.
Do outro, o flou, ligado a vestidos e drapeados.
A coleção mistura os dois sistemas.
Quando o rígido sustenta o fluido
Casacos recebem formas esculturais.
Jaquetas ganham elementos internos rígidos, quase como corsets.
Em algumas peças, uma base dura permite que tecidos leves caiam ao redor do corpo de maneiras pouco convencionais.
Corsets aparecem incorporados a camisetas de seda, tricôs e vestidos.
Em outros momentos, surgem completamente por fora da roupa.
Um dos exemplos mais fortes utiliza talheres achatados para construir uma espécie de estrutura metálica sobre um vestido branco fluido.
É uma aplicação muito Margiela de um princípio simples: pegar um objeto reconhecível, deslocar sua função e obrigar o olhar a interpretá-lo novamente.
Por que flores fazem sentido na Margiela?
A flor é provavelmente um dos símbolos mais previsíveis da primavera.
Glenn Martens escolhe justamente algo familiar para poder interferir nele.
Estampas florais aparecem sobre superfícies rígidas, peças estruturadas e roupas que passam por distorções de proporção.
A delicadeza do motivo entra em contato com materiais e construções que não são necessariamente delicados.
É aí que a flor passa a fazer sentido dentro do conceito Hard and Soft.
Romantismo e desconstrução aparecem juntos sem que um anule o outro.
Glenn Martens assume Margiela em tempo integral
Esta também é uma coleção importante dentro da trajetória recente de Glenn Martens.
O designer deixou a Diesel após seis anos para concentrar seu trabalho integralmente na Maison Margiela.
Martens assumiu a direção criativa da casa depois da saída de John Galliano e estreou inicialmente na linha de alta-costura antes de avançar sobre o ready-to-wear.
Sua chegada não apagou a história de desconstrução estabelecida por Martin Margiela.
O que começa a ficar mais claro é a maneira como Martens utiliza esse repertório através de suas próprias obsessões: técnica têxtil, ilusão, estrutura e transformação física da roupa.
Saint Laurent cobre Paris de ouro
Anthony Vaccarello apresentou a Saint Laurent Spring 2027 exatamente dez anos depois de assumir a direção criativa da maison.
E escolheu uma cor difícil de ignorar.
O dourado dominou vestidos, casacos, saias, jaquetas, renda, animal print, brocados e alfaiataria.
O cenário acompanhava a mesma lógica.
A apresentação aconteceu diante da Torre Eiffel, com grandes lustres suspensos sobre a passarela e iluminação dourada ocupando todo o espaço.
O resultado tinha uma escala quase cinematográfica.
Ouro não é novidade dentro de Saint Laurent



Embora a quantidade seja incomum, dourado faz parte da história da maison.
Yves Saint Laurent utilizou tecidos metálicos, brocados, bordados e joias em diferentes momentos de sua carreira.
Vaccarello também já havia trabalhado superfícies douradas em coleções anteriores.
Na Spring 2027, a cor deixa de ser detalhe e passa a organizar praticamente todo o desfile.
A variação vem das texturas.
Há ouro brilhante, envelhecido, fosco, amassado e bordado.
Jacquards produzem desenhos densos.
Rendas recebem tratamento metálico.
Animal prints também passam pela mesma paleta.
Essa variação impede que 59 looks pareçam simplesmente repetidos na mesma cor.
O salão de Yves Saint Laurent também aparece no cenário
Os lustres tinham outra referência histórica.
A cenografia recuperava o Salon Impérial do Hôtel InterContinental de Paris, espaço onde Yves Saint Laurent apresentou suas coleções de alta-costura durante décadas.
Essa lembrança aparece num momento particularmente simbólico para Vaccarello.
Ele chegou à Saint Laurent em 2016, depois de Hedi Slimane, e ao longo de dez anos construiu uma linguagem muito consistente baseada em alfaiataria afiada, ombros fortes, transparência, pernas expostas, couro e uma ideia bastante controlada de sensualidade.
Na Spring 2027, vários desses códigos reaparecem cobertos de ouro.
Uma coleção que também levantou rumores
O encerramento deu ao desfile um clima particularmente emocional.
Charlotte Gainsbourg, colaboradora e amiga de longa data da maison, apareceu numa performance surpresa.
Vaccarello também enviou aos convidados flores pretas acompanhadas por uma mensagem explicando que preferia não dar entrevistas porque a coleção era pessoal e carregada de emoção.
O conjunto desses elementos alimentou especulações de que o desfile poderia marcar sua despedida.
Até o fechamento desta matéria, porém, Saint Laurent e Kering não haviam confirmado oficialmente a saída de Anthony Vaccarello.
Por isso, a Spring 2027 deve ser tratada factualmente como a coleção que celebra seus dez anos na maison, e não como um desfile de despedida.
Cinco coleções e cinco maneiras de trabalhar ideia
Os primeiros dias da Paris Fashion Week 2027 mostram que conceito não precisa significar uma história complicada.
Julie Kegels parte de uma maçã e chega à gravidade.
Matières Fécales utiliza um número para discutir representação.
Jonathan Anderson estuda a leveza através da construção tradicional da Dior.
Glenn Martens coloca duas técnicas de atelier em confronto dentro da Margiela.
Anthony Vaccarello escolhe uma cor e investiga quantas versões dela cabem dentro da Saint Laurent.
O que aproxima esses trabalhos é a capacidade de transformar uma ideia em roupa sem depender apenas de um texto para explicá-la.
Paris começa discutindo peso e leveza
A Paris Fashion Week 2027 começou falando de duas ideias aparentemente simples: peso e leveza.
Julie Kegels literalmente puxa suas roupas em direção ao chão.
Jonathan Anderson tenta descobrir quanto peso pode retirar de uma construção Dior.
Na Maison Margiela, Glenn Martens coloca uma estrutura rígida por baixo do tecido para permitir que ele se movimente de outra forma.
Matières Fécales leva o peso para uma discussão social, enquanto Saint Laurent trabalha o oposto visual: superfícies que capturam luz em praticamente todos os looks.
São abordagens bastante diferentes para uma semana que ainda está apenas começando.
Fotos: Vogue Runway
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