Maria Grazia Chiuri estreia na alta-costura da Fendi

Em Roma, a estilista trocou o exagero das peles de Lagerfeld por leveza e alfaiataria, e provou que couture pode sussurrar em vez de gritar.

Maria Grazia Chiuri estreia na alta-costura da Fendi apostando no gesto oposto do que a casa acostumou o público a esperar. Em vez do exagero e das peles suntuosas que marcaram a era Karl Lagerfeld, a estilista apresentou, em Roma, uma coleção construída sobre leveza, sedas fluidas e alfaiataria inspirada no quimono. Foi sua primeira coleção de couture à frente da maison italiana, e a escolha do lugar não foi casual: o desfile aconteceu na Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea, um de seus museus favoritos, na cidade que ela mesma trata como fonte de inspiração.

A palavra que dominou a conversa sobre a coleção foi uma quase estranha ao universo da alta-costura: vestível. As roupas privilegiaram a facilidade em vez do espetáculo, com cinturas baixas, alfaiataria alongada e sedas que pareciam líquidas escorrendo pelo corpo. Em vez de recorrer à construção rígida para criar drama, Chiuri deixou o tecido, a proporção e o trabalho manual fazerem o serviço. É uma abordagem coerente com tudo que ela defende há anos: roupas que trabalham a favor do corpo, e não o contrário. O look de abertura, um cafetã preto e branco semitransparente, deu o tom logo de cara.

O que sustenta a estreia de Chiuri na alta-costura da Fendi, porém, é a espessura de referências por trás de cada peça. A estilista buscou inspiração na Secessão de Viena e na figura de Emilie Flöge, a designer austríaca cujo legado costuma ser reduzido ao papel de musa de Gustav Klimt. Ela também revisitou o motivo “Labyrinth”, do arquivo de Lagerfeld, traduzindo-o em grafismos preto e branco que soam contemporâneos em vez de nostálgicos. E fez questão de partir do material, não da forma, num aceno à origem da Fendi como peleteria. Toda a pele usada foi reaproveitada dos arquivos da casa, aparecendo apenas em acabamentos e peças ultraleves, num gesto claro de resistência ao consumo excessivo.

Vale registrar que a recepção não foi unânime, e ignorar isso seria contar meia história. Para parte da crítica, a contenção da paleta, dominada por preto, marfim e pergaminho, revelou uma elegância silenciosa e um domínio técnico admirável, aquilo que a expressão “haute couture” originalmente significa: alta manufatura, não espetáculo. Para outra parte, incluindo o New York Times, faltou algo definitivo, um traço que tornasse aquelas roupas imediatamente reconhecíveis como Fendi num mercado cheio de marcas que fazem o parecido por menos. A ausência das icônicas “Fun Fur” pesou como símbolo, mesmo que fizesse sentido dentro da proposta sustentável.

No fim, a estreia funcionou mais como um prólogo do que como uma declaração definitiva, e talvez seja exatamente isso que Chiuri quis. Sob o lema “menos eu, mais nós”, uma homenagem às cinco irmãs Fendi e à ideia de moda como autoria coletiva, ela preferiu recalibrar a casa a impor um espetáculo. Numa semana de couture em que muitos estilistas competiram na base do exagero, a elegância discreta dela soou como um lembrete. Maria Grazia Chiuri estreia na alta-costura da Fendi provando que uma coleção não precisa gritar para deixar marca, mas o próximo capítulo vai exigir que ela suba um pouco o volume para definir de vez o que é a Fendi sob seu comando.

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