
As coleções de formatura da Central Saint Martins revelam uma nova geração de designers que transforma experiências pessoais, política e imaginação em moda autoral.
Poucas instituições carregam tanto peso dentro da indústria quanto a Central Saint Martins. A escola londrina responsável por formar nomes como Alexander McQueen, John Galliano, Phoebe Philo e Grace Wales Bonner voltou a atrair os olhares da indústria com a apresentação da turma de graduação de 2026.
O desfile da Central Saint Martins 2026 aconteceu em Peckham Levels, no sul de Londres, substituindo temporariamente o tradicional campus de Granary Square. A mudança trouxe novos desafios para os estudantes, mas também ampliou a escala do evento e permitiu que mais profissionais da indústria acompanhassem de perto a próxima geração de talentos.
Ao contrário das tendências comerciais que costumam dominar as passarelas internacionais, a Central Saint Martins 2026 reforçou algo que sempre diferenciou a escola: a liberdade criativa. Entre narrativas sobre identidade de gênero, deslocamento geográfico, esportes, ficção científica e memórias pessoais, os estudantes apresentaram coleções profundamente autorais.
O que tornou a Central Saint Martins 2026 tão relevante
Historicamente, os desfiles de graduação da escola funcionam como uma prévia do que poderá influenciar a moda nos próximos anos.

A edição deste ano apresentou cerca de 40 designers e aproximadamente 240 looks, criando uma visão ampla dos temas que estão mobilizando os criativos mais jovens da indústria atualmente.
Um aspecto chamou atenção de forma especial: a diminuição do foco em grandes efeitos cenográficos e o aumento da atenção à construção das peças. Com limitações estruturais do novo espaço, muitos alunos precisaram concentrar esforços em modelagem, pesquisa e execução técnica.
O resultado foi uma edição mais madura e conceitualmente sólida.
As coleções que mais se destacaram
Cassie Ambroz e a discussão sobre identidade trans
Entre os nomes mais comentados da Central Saint Martins 2026 está Cassie Ambroz, estudante de Fashion Knit.
Sua coleção explorou fragilidade, desconforto e força dentro da experiência trans feminina contemporânea. Em vez de buscar validação externa, o trabalho propôs um espaço de reflexão sobre identidade e pertencimento.
Alvis Chong e a experiência queer entre Hong Kong e Londres
O designer Alvis Chong apresentou uma coleção inspirada em sua própria trajetória.
Nascido em Hong Kong e formado em Menswear, Chong utilizou a moda para representar o conflito entre adaptação social e autenticidade pessoal. O projeto abordou a experiência de crescer queer em ambientes conservadores e o processo de descoberta vivido após sua mudança para Londres.

Polina Kadilnikova e a memória da Ucrânia
Uma das coleções mais emocionais da Central Saint Martins 2026 veio da designer ucraniana Polina Kadilnikova.
Seu trabalho refletiu sobre a perda da casa, da memória coletiva e das consequências da guerra para milhões de pessoas deslocadas. A coleção utilizou referências visuais ligadas aos territórios ocupados da Ucrânia e buscou manter viva a discussão sobre o conflito ainda em curso.
Eleonore Foskett transforma ginástica rítmica em moda
Misturando esporte e nostalgia, Eleonore Foskett revisitou sua infância ligada à ginástica rítmica.
O resultado foi uma coleção que combinou referências esportivas, performance e feminilidade contemporânea, criando uma das propostas mais visuais do desfile.
Fantasia, humor e surrealismo continuam vivos
Embora muitas coleções tenham abordado temas sociais e políticos, a fantasia permaneceu como um elemento importante.
O desfile apresentou desde figuras inspiradas em personagens coloridos e exagerados até performances envolvendo conchas gigantes que transportavam modelos pela passarela. Houve também experimentações inusitadas com materiais, incluindo roupas cobertas por espuma produzida nos bastidores momentos antes do desfile.
Essa mistura entre técnica e absurdo continua sendo uma das principais assinaturas da escola.

Curiosidade: A Central Saint Martins é considerada uma das escolas de moda mais influentes do mundo. Entre seus ex-alunos estão alguns dos nomes que redefiniram o luxo contemporâneo nas últimas décadas, incluindo Alexander McQueen, John Galliano, Phoebe Philo e Grace Wales Bonner.
Central Saint Martins 2026 aponta para um futuro mais pessoal
Se existe uma mensagem clara deixada pela Central Saint Martins 2026, ela está relacionada à autenticidade.
Ao invés de perseguir tendências passageiras ou fórmulas virais, muitos estudantes optaram por investigar suas próprias histórias. Questões sobre identidade, origem, pertencimento e memória apareceram repetidamente ao longo das coleções.
Esse movimento sugere uma possível mudança de direção para a próxima geração da moda: menos preocupação com algoritmos e mais interesse em construir narrativas genuínas.
Também chama atenção a diversidade de referências utilizadas. Esportes, videogames, cultura digital, artesanato tradicional, história da moda e acontecimentos geopolíticos coexistiram em um mesmo desfile, refletindo uma geração acostumada a navegar simultaneamente entre diferentes universos culturais.
A Central Saint Martins 2026 confirmou mais uma vez seu papel como um dos principais laboratórios criativos da indústria da moda.
Em um momento em que muitas marcas buscam previsibilidade e segurança comercial, os estudantes apresentaram exatamente o oposto: risco, experimentação e visão autoral. O resultado foi um desfile que não apenas revelou novos talentos, mas também ofereceu pistas sobre os temas que poderão influenciar a moda global nos próximos anos.
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