Hermès anuncia estreia na alta-costura

Depois de quase dois séculos apostando no couro, a maison finalmente entra no clube mais fechado da moda, e o timing não é acaso.

A Hermès anuncia estreia na alta-costura e fecha uma das lacunas mais curiosas do luxo francês. A maison, conhecida mundialmente pela bolsa Birkin e pelos lenços de seda, confirmou nesta quinta-feira que apresentará sua primeira coleção sob medida durante a Semana de Alta-Costura de Paris, em janeiro de 2027. A informação foi revelada com exclusividade pela WWD e depois confirmada pela própria marca à AFP. Para uma casa fundada em 1837 que construiu um império sem nunca pisar nesse território, é um passo histórico, e um daqueles que só se dá quando se tem certeza absoluta de que dá para acertar.

A responsável pela empreitada é Nadège Vanhée, diretora artística das coleções femininas da Hermès desde 2014. Será a estreia dela na alta-costura depois de mais de uma década moldando o guarda-roupa feminino da marca, e as expectativas são altíssimas. Ao longo desses anos, Vanhée construiu reputação com roupas que equilibram precisão técnica e leveza, explorando materiais nobres como couro, seda e cashmere. A alta-costura oferece uma tela muito mais ampla do que o prêt-à-porter, e é justamente essa liberdade que deve permitir a ela levar o savoir-faire da casa ao seu ponto máximo de execução.

O projeto não nasceu do dia para a noite. A Hermès revelou a intenção de entrar na categoria no ano passado e, desde então, montou um ateliê dedicado e reforçou a equipe criativa, incluindo a contratação da estilista Léa Peckre, ex-diretora de design do prêt-à-porter feminino da Céline. Falando na apresentação de resultados da empresa, o presidente Axel Dumas resumiu a motivação de forma simples: o que interessa à Hermès na alta-costura é o savoir-faire, e a casa entendeu que já tinha um nível de qualidade altíssimo para topar o desafio. Ele contou ter visto o trabalho das equipes e se declarou orgulhoso e animado com o resultado.

Vale entender o peso do clube em que a Hermès está entrando. Apenas 13 casas detêm o selo juridicamente protegido de “haute couture”, entre elas nomes como Dior, Chanel, Givenchy e Schiaparelli. Na estreia, a Hermès entrará como membro convidado, mesmo status que a Balenciaga teve, antes de eventualmente pleitear a chancela oficial. O desfile integrará o calendário da Semana de Alta-Costura de Primavera/Verão 2027, que acontece entre 25 e 28 de janeiro, e não virá sozinho: Grace Wales Bonner também fará sua estreia como diretora criativa da linha masculina no mesmo período, garantindo que a Hermès abra 2027 com força total.

Quando a Hermès anuncia estreia na alta-costura, o contexto por trás da decisão é tão relevante quanto o gesto em si. A marca, antes praticamente imune às turbulências do mercado, começou a sentir o impacto da desaceleração prolongada do consumo de luxo, e suas ações caíram mais de 25% desde o início do ano. A alta-costura não é sobre volume de vendas, é o laboratório supremo do artesanato francês e uma forma de reforçar prestígio junto à clientela mais rica do mundo. Para uma casa que fez do couro sua fortuna, provar que essa excelência também se traduz no exercício mais exigente da moda é menos uma diversificação e mais uma declaração de identidade.

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