São 4.000 peças e uma parceria com o museu que guarda o original em Viena para traduzir o dourado de Klimt em tijolinho.

A LEGO recria “O Beijo”, de Gustav Klimt, e entrega talvez o desafio mais difícil que a linha LEGO Art já enfrentou. O novo set, de número 31221, usa 4.000 peças para reconstruir uma das pinturas mais famosas do mundo, e chega em 4 de agosto de 2026 por £269,99. O modelo mede 60 cm por 54 cm, bem longe dos quase dois metros quadrados do original, mas compensa a escala com uma densidade de detalhe que a marca vinha guardando para uma ocasião dessas. Depois de já ter passado por Leonardo da Vinci, Claude Monet, Keith Haring e Robert Indiana, a linha finalmente encarou o ouro.
E é justamente o ouro que explica a dificuldade. Pintado entre 1907 e 1908, no auge da Viena da era dourada, “O Beijo” é o trabalho mais reconhecível de Klimt (1862-1918) e uma das principais atrações do Österreichische Galerie Belvedere, onde o original está pendurado. A obra vive de superfície: ornamento, textura, folha de ouro, padrões que mudam conforme a luz. Traduzir isso em plástico moldado não é questão de encaixar cores certas, é questão de recriar relevo. Se o set errasse a mão, viraria pôster de tijolinho.
A solução veio da técnica. A equipe de design, liderada pelo master model designer Milan Madge, construiu uma superfície multicamadas, com uma dispersão densa de peças de um e dois studs, combinando partes lisas e texturizadas para imitar o comportamento do original. Além de elementos LEGO especialmente decorados, há reaproveitamentos criativos, como o chicote enrolado que aparece desde os buquês da linha Botanicals até vários sets de Indiana Jones. Segundo Madge, combinar elementos dourados com peças decoradas sob medida permitiu recriar os tons e as texturas distintivas da obra numa experiência de montagem que celebra sua beleza.

O que separa esse projeto de um simples produto licenciado é o rigor por trás dele. Quando a LEGO recria uma obra desse porte, ela precisa de mais do que uma boa foto de referência, e o desenvolvimento aconteceu em colaboração estreita com o próprio Museu Belvedere, em Viena. Stephanie Auer, curadora de arte dos séculos 19 e 20 da instituição, descreveu o processo como uma experiência única na vida e contou que teve discussões extensas com Madge sobre o simbolismo de Klimt, sua ornamentação e suas técnicas artísticas, e sobre como tudo isso poderia ser representado com peças de LEGO. Ou seja, é curadoria de museu aplicada a brinquedo.
No fim, a montagem vira uma espécie de aula prática. Construir “O Beijo” peça por peça oferece uma leitura vívida da composição e da estrutura de textura da pintura original, algo que olhar a obra de longe num museu não entrega. E, como o set já vem com fixadores para pendurar, ele nasce pronto para a parede. Ao recriar “O Beijo”, a LEGO faz o que vem fazendo de melhor nos últimos anos: transformar o ato de montar numa forma de olhar com mais atenção. Para uma pintura que atravessou mais de um século sendo reproduzida em pôster, ímã e caneca, virar 4.000 peças é uma homenagem bem mais interessante.









