Ex-diretor criativo da Gucci comandará as coleções femininas e masculinas da marca chinesa, em um momento de aproximação entre o luxo europeu e a indústria de moda asiática.

Depois de pouco mais de um ano afastado do comando criativo de uma grande marca de moda, Sabato De Sarno já tem um novo destino. O designer italiano foi anunciado como diretor criativo da Icicle, marca chinesa baseada entre Xangai e Paris conhecida pela estética minimalista e pela produção verticalmente integrada.
A partir do novo cargo, De Sarno será responsável pela direção criativa das coleções femininas e masculinas de ready-to-wear, além de acessórios e óculos. Sua primeira coleção para a Icicle está prevista para a temporada Fall/Winter 2027.
A notícia representa um novo capítulo na trajetória do designer depois de sua passagem pela Gucci, mas também chama atenção por outro motivo. A escolha acompanha um movimento crescente da indústria: profissionais com experiência nas principais casas europeias estão assumindo projetos junto a empresas asiáticas que buscam ampliar influência, alcance global e relevância criativa.
Sabato De Sarno assume o comando criativo da Icicle
Fundada em Xangai em 1997 por Ye Shouzeng e Shawna Tao, a Icicle construiu sua identidade ao redor de uma proposta de moda duradoura, materiais e uma relação próxima com a natureza.
A empresa mantém uma estrutura criativa dividida entre Paris e Xangai e, segundo informações divulgadas pela marca à Vogue Business, opera mais de 200 lojas ao redor do mundo, incluindo flagships em cidades como Pequim, Xangai e Paris.
Com Sabato De Sarno, a companhia passa a integrar um profissional com experiência direta em algumas das casas mais importantes do sistema de luxo europeu.
O italiano comandou a direção criativa da Gucci entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2025. Antes disso, permaneceu por mais de uma década na Valentino, onde chegou ao cargo de fashion director e supervisionou coleções masculinas e femininas. Também trabalhou na Dolce & Gabbana antes de ingressar na Valentino, em 2009.
Sua chegada, porém, não significa uma ruptura completa com a estrutura que já existia dentro da Icicle. Bénédicte Laloux, responsável por desenvolver a identidade criativa do womenswear e do estúdio parisiense da marca desde 2013, continuará como design director da coleção feminina de desfile, agora trabalhando sob a direção criativa de De Sarno.
Um novo caminho depois da Gucci
Desde sua saída da Gucci, Sabato De Sarno vinha explorando territórios criativos fora do calendário tradicional das grandes maisons.
Em abril de 2026, durante o Salone del Mobile de Milão, ele assumiu o papel de curador da exposição “Insieme”, realizada na Piscina Cozzi em colaboração com a edição italiana da Vanity Fair.
O projeto reuniu objetos de design produzidos por 12 empresas artesanais italianas, incluindo a fabricante de tecidos e interiores Rubelli e a tradicional vidraria veneziana Venini. A fachada recebeu ainda uma instalação criada em parceria com o artista francês JR, formada por retratos dos 79 artesãos envolvidos.
Na época, ao ser questionado sobre seu próximo movimento profissional, De Sarno explicou que não procurava necessariamente uma empresa grande ou pequena, mas um lugar que considerasse adequado à sua visão.
A escolha pela Icicle agora ajuda a contextualizar essa declaração.
A conexão entre Paris, Xangai e o mercado de luxo
A Icicle faz parte do ICCF Group, companhia que também controla a francesa Carven. Sua estrutura dividida entre Europa e China coloca a marca em uma posição pouco convencional dentro da indústria.
Enquanto muitas empresas chinesas construíram inicialmente sua expansão internacional por meio de distribuição e varejo, a Icicle desenvolveu também uma presença criativa em Paris, aproximando dois dos centros mais relevantes para o mercado contemporâneo de moda.
Segundo Ye Shouzeng, CEO e cofundador da empresa, a chegada de De Sarno faz parte da estratégia de reunir talentos internacionais com as raízes culturais e a capacidade industrial construídas pela companhia na China.
Para Sabato De Sarno, o interesse também passa pela forma como a companhia aborda toda a cadeia de desenvolvimento de um produto.
O designer afirmou à Vogue Business que sempre teve interesse pelo design além da peça final, incluindo a origem das matérias-primas e o trabalho artesanal responsável por transformá-las. Ele também destacou a relação entre pessoas e natureza presente na filosofia da Icicle.
A nomeação também cria uma conexão indireta entre Sabato De Sarno e seu antigo grupo. Em 2026, a Kering, proprietária da Gucci, realizou um investimento minoritário na Icicle. O CEO da Kering, Luca de Meo, explicou em abril que o investimento também faz parte do objetivo do grupo de aprofundar sua compreensão do ecossistema chinês.
Designers europeus estão olhando cada vez mais para a Ásia
A mudança de Sabato De Sarno não acontece isoladamente.
Nos últimos meses, uma série de designers ligados a grandes marcas europeias passou a trabalhar com empresas asiáticas, indicando uma transformação interessante na circulação internacional de talentos dentro da moda.
Francesco Risso, conhecido por seu trabalho na Marni, colaborou com a GU, marca de casualwear controlada pela Fast Retailing. Kim Jones, que comandou projetos para Dior Men e Fendi, iniciou uma colaboração com a Areal, pertencente ao grupo chinês Bosideng.
Kris Van Assche passou a trabalhar com a gigante chinesa de sportswear Anta, enquanto Daniel Fletcher se aproximou da Mithridate. Clare Waight Keller, ex-Givenchy e Chloé, também construiu uma parceria importante com a japonesa Uniqlo.
Esse fluxo ajuda a alterar uma lógica histórica da indústria em que marcas asiáticas buscavam principalmente Paris, Milão e Londres como referências externas de legitimidade.
Agora, empresas chinesas, japonesas e de outros mercados asiáticos aparecem também como destinos profissionais capazes de oferecer escala industrial, investimento, infraestrutura e espaço criativo a designers já estabelecidos.
A Ásia deixa de ser apenas mercado consumidor
Durante décadas, China, Japão, Coreia do Sul e outros mercados asiáticos foram observados pelas grandes companhias europeias principalmente pela perspectiva do consumo.
O cenário atual é mais complexo.
Grupos locais construíram redes próprias de varejo, capacidade de produção e públicos cada vez mais familiarizados com moda, design e luxo. Com isso, a região também ganha peso como centro de criação, colaboração e desenvolvimento de marcas.
A contratação de Sabato De Sarno pela Icicle é particularmente simbólica porque envolve um designer que, até recentemente, ocupava a cadeira criativa de uma das maiores maisons italianas.
Em vez de assumir imediatamente outra tradicional casa europeia, ele escolheu uma empresa chinesa que pretende fortalecer sua identidade internacional mantendo uma estrutura criativa entre Xangai e Paris.
O primeiro teste público dessa relação acontecerá apenas em 2027, quando sua coleção de estreia chegar às passarelas.
Um novo eixo criativo para a moda
A chegada de Sabato De Sarno à Icicle pode ser lida tanto como uma nova fase pessoal do designer quanto como um sinal das mudanças estruturais da indústria.
Grandes nomes da moda europeia continuam circulando entre maisons históricas, mas esse circuito já não termina necessariamente em Paris ou Milão. Marcas asiáticas passaram a disputar talento, repertório e visibilidade global com muito mais força.
Para a Icicle, a contratação oferece experiência internacional e um nome conhecido dentro do mercado de luxo. Para De Sarno, representa a oportunidade de trabalhar dentro de uma estrutura diferente daquela das grandes maisons tradicionais.
A primeira coleção em 2027 mostrará como essas duas perspectivas vão se encontrar — e até que ponto a relação entre designers europeus e empresas asiáticas poderá redesenhar parte do mapa criativo da moda nos próximos anos.
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