Na sua coleção à frente da Gucci, Demna apresenta “Primavera” como a consolidação de uma nova fase criativa, mais refinada, precisa e culturalmente ancorada. Se sua estreia na casa funcionou como uma declaração de intenções, estabelecendo os primeiros códigos de sua Gucci, agora o designer aprofunda o discurso e constrói uma narrativa mais estruturada sobre herança, identidade e futuro.
O ponto de partida foi Florença. Demna mergulhou nos arquivos históricos da marca e buscou referências na Uffizi Gallery, onde obras de Sandro Botticelli, especialmente Primavera, ecoam diretamente no imaginário da coleção. A relação entre Gucci e a cultura italiana não aparece como mero pano de fundo estético, mas como fundamento conceitual: proporção, escultura, dramaticidade e ideal de beleza renascentista atravessam as silhuetas.
Apresentado no monumental Palazzo delle Scintille durante a Milan Fashion Week, o desfile foi um dos mais aguardados da temporada. Em um cenário de atmosfera quase museológica, Demna sinaliza uma Gucci mais sofisticada e lapidada, sem abrir mão da intensidade e da tensão criativa que sempre marcaram seu trabalho.



Um diálogo com os diretores criativos do passado
“Primavera” também funciona como um exercício de continuidade histórica. A sensualidade afiada e o glamour provocativo da era Tom Ford reaparecem em vestidos de festa e cortes mais próximos ao corpo. O maximalismo intelectual e nostálgico de Alessandro Michele é sutilmente reorganizado, agora com maior disciplina formal. E o refinamento elegante que marcou o período de Frida Giannini encontra eco na nova busca por precisão e acabamento.
Demna não apaga esses capítulos, ele os reconfigura. O monograma volta com força, reafirmando o poder do símbolo. Bolsas icônicas, florais exuberantes e peças em pele reforçam a ideia de Gucci como lifestyle completo, capaz de transitar entre o excesso e a contenção, entre o glamour e o cotidiano.
Silhuetas fluidas, peças seamless e fusões entre categorias atualizam o vocabulário da maison. A alfaiataria surge leve e etérea, enquanto volumes estratégicos e bordados dialogam com referências renascentistas. Há uma busca por equilíbrio entre herança e contemporaneidade, tradição e ruptura coexistem sem conflito.
Ícones como a Gucci Bamboo 1947 retornam com proporções mais enxutas e acabamento renovado, evidenciando um olhar pragmático para o produto. Mais do que conceito, há foco em construção, materialidade e desejo real.
Na plateia, a presença de Alessandro Michele reforçou o simbolismo do momento, uma passagem de bastão observada com respeito. O encerramento ficou por conta de Kate Moss.



Gucci como cultura
Mais do que uma coleção, “Primavera” estabelece as bases de uma narrativa ambiciosa: uma Gucci que equilibra produto e emoção, passado e futuro, disciplina e provocação. Ao dialogar com seus antecessores e, ao mesmo tempo, afirmar sua própria assinatura, Demna posiciona a marca não apenas como casa de moda, mas como força cultural em constante transformação.
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