A casa francesa compra a camiseira mais antiga do país e fecha um círculo que Coco Chanel começou a desenhar há mais de um século.

A Chanel adquire a Charvet e passa a controlar a camiseira mais antiga da França. O anúncio saiu nesta quinta-feira e encerra 188 anos de propriedade independente da casa fundada em 1838, instalada na Place Vendôme desde o fim do século XIX. Os valores ficaram em segredo, o que costuma acontecer quando uma compra vale mais pelo que representa do que pelo tamanho do cheque. No papel, é uma marca de luxo comprando um fabricante de camisas. Na prática, a Chanel está fazendo o que aprendeu a fazer melhor do que quase todo mundo no setor: garantir que o trabalho manual que sustenta o luxo francês continue existindo depois que a geração atual sair de cena.
A relação entre as duas casas não começou numa mesa de fusões. Ela começou com Boy Capel, o grande amor de Gabrielle Chanel e uma das figuras mais decisivas da história da marca. Capel era cliente fiel da Charvet muito antes de a Chanel existir como a conhecemos hoje, e Coco, que morou no Ritz por mais de três décadas, conhecia bem aquele endereço a poucos metros de casa. Fundada em 1838 por Joseph-Christophe Charvet, a maison foi a primeira do mundo a se especializar só em camisas e, ao longo de quase dois séculos, vestiu Marcel Proust, Winston Churchill, John F. Kennedy, Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld. É o tipo de clientela que não se conquista com campanha, se conquista com décadas de constância e um acervo que hoje passa dos seis mil tecidos.
O que transformou uma admiração antiga em negócio fechado foi Matthieu Blazy. Ao assumir a direção criativa da Chanel, vindo da Bottega Veneta, ele reacendeu o vínculo encomendando à Charvet três camisas de algodão oversized para sua estreia, em outubro de 2025. Com a corrente característica da Chanel na barra, as peças viraram alguns dos itens mais desejados do verão 2026 e apareceram em Nicole Kidman, Jessie Buckley e Jacob Elordi. Foi ali que a conversa mudou de patamar. Anne-Marie e Jean-Claude Colban, irmãos que comandam a Charvet e já passaram dos 70, procuravam uma forma de garantir a continuidade da empresa, e a Chanel chegou com a resposta que eles queriam ouvir: preservar a independência criativa da casa e proteger o ateliê de Saint-Gaultier, no centro da França, onde toda a produção está concentrada.

Bruno Pavlovsky, presidente das atividades de moda da Chanel, foi direto ao explicar o encaixe. A Chanel é uma casa majoritariamente feminina que vem ganhando clientes homens, e a Charvet é o oposto, dominada pela clientela masculina e crescendo entre mulheres. Uma preenche o espaço que falta na outra. Junto com a marca, a Chanel leva também o edifício de seis andares na praça, reforçando sua presença no endereço mais simbólico de Paris. E tem o timing: a compra sai às vésperas da segunda alta-costura de Blazy, num momento em que a Chanel voltou a crescer com força depois de um período difícil para todo o setor, empurrada justamente pelas primeiras coleções dele.
A Chanel promete não abrir lojas Charvet pelo mundo nem inflar o negócio. Quer manter a única boutique da Place Vendôme funcionando como sempre funcionou, com o serviço sob medida que construiu a reputação da casa. É uma promessa que combina com o discurso da marca, e o mercado vai cobrar caso ela não seja cumprida. No fim, a Chanel adquire a Charvet e fecha um círculo que Gabrielle começou a desenhar quando Boy Capel entrava naquela loja para comprar camisas. Levou mais de um século, mas a história voltou para exatamente onde tinha começado.
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