A marca mais democrática do denim entrou pela primeira vez na sala mais exclusiva da moda, e escolheu a pessoa certa para abrir a porta.



A Levi’s reinventa o jeans na alta-costura e faz isso da forma mais improvável possível: pegando a peça mais democrática do guarda-roupa mundial e levando-a para a sala mais fechada da moda. Durante a Semana de Alta-Costura de Paris, na segunda-feira, a marca apresentou uma cápsula desenvolvida ao lado da estilista Christelle Kocher, marcando a primeira vez que a Levi’s leva uma coleção dedicada ao calendário couture. Para uma empresa fundada em 1852 e conhecida por vender calças ao preço de um jantar, é um salto de posicionamento e tanto.
A escolha de Kocher explica boa parte do resultado. Ela é diretora artística da Maison Lemarié, o ateliê de plumas e bordados ligado à Chanel, e comanda a própria marca, a Koché. No meio da moda, é reconhecida como uma espécie de arma secreta, responsável por bordados e apliques de altíssima complexidade. Sua filosofia de trabalho, batizada de “couture-à-porter”, é justamente a ponte que faltava entre o denim de rua e o savoir-faire francês. Não à toa, ela passou um tempo no laboratório de inovação da Levi’s, em São Francisco, estudando gramaturas e tratamentos do tecido antes de desenhar qualquer peça.
O que ela entregou são dez looks construídos inteiramente em torno do denim, mas irreconhecíveis à primeira vista. Ícones da Levi’s como o jeans 501 e a jaqueta Type II reaparecem cobertos de plumas, bordados e detalhes esculturais. Há vestidos pretos drapeados, bustiês florais feitos de denim plissado e capas tridimensionais moldadas em jeans e musseline, tingidas, franjadas e bordadas com penas e miçangas.



A peça de maior destaque é um vestido inteiro de plumas com capa combinando, que mistura denim, renda e resina numa superfície inspirada em escamas de peixe. Algumas dessas criações exigiram mais de 300 horas de trabalho manual, o tipo de número que separa a alta-costura de qualquer outra categoria.
Colocar o jeans na alta-costura não é ideia inédita, e vale o contexto. Há trinta anos, Jean Paul Gaultier causou escândalo ao mandar jeans feitos à mão para a passarela, e mais recentemente Balenciaga, Mugler e Valentino trouxeram o denim de volta ao couture. A diferença aqui é a origem da marca. Quando uma grife de luxo usa jeans, ela empresta prestígio ao tecido. Quando a própria Levi’s faz isso, ela reivindica esse prestígio para dentro de casa, o que é um movimento bem mais ambicioso.
No fim, a conta dessa coleção não se fecha na venda. Denim de alta-costura costuma custar entre 10 e 30 mil dólares, e a Levi’s sugeriu que as peças talvez fiquem disponíveis apenas sob encomenda especial. O objetivo real é outro: mostrar que o tecido mais universal do planeta cabe no vocabulário mais exclusivo da moda sem perder a identidade. Ao reinventar o jeans na alta-costura, a Levi’s prova que herança e ousadia não brigam, desde que se saiba exatamente com quem colaborar.
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