Filha de Bill Gates responde a acusações contra sua startup

Phoebe Gates alega que um bug no código causou o problema, mas uma investigação da Bloomberg aponta prática conhecida como “cookie stuffing”.

Filha de Bill Gates responde a acusações contra sua startup
Foto: Reprodução

A filha de Bill Gates respondeu publicamente às acusações contra sua startup, e a explicação dela é bem mais técnica do que os críticos gostariam. Phoebe Gates, de 23 anos, viu sua empresa de compras com inteligência artificial, a Phia, virar centro de uma polêmica depois que uma investigação da Bloomberg apontou que sua extensão de navegador estaria reivindicando comissões sobre vendas online que não ajudou a gerar. Em nota, um porta-voz da companhia afirmou que a equipe foi avisada nas últimas 24 horas de que um lançamento recente do código estava causando atribuições incorretas em um subconjunto de usuários, e que trabalhou durante a noite para identificar, mitigar e resolver o problema.

A prática apontada tem nome no mercado e não é elogio: “cookie stuffing”. Segundo a apuração, quando um usuário chegava a um varejista online, mesmo por conta própria ou por meio de outro programa de afiliados, a Phia abriria uma nova aba em segundo plano e sobrescreveria os códigos de referência de terceiros, injetando o seu próprio. Na prática, isso permitiria à empresa levar o crédito e possivelmente a comissão de uma compra que não gerou, tirando o dinheiro de publishers e influenciadores. A Bloomberg baseou o relatório em testes realizados em mais de 50 sites, ao longo de uma semana no fim de junho.

O peso das acusações contra a startup aumenta pela origem das evidências. Além do próprio veículo, participaram das análises o pesquisador independente Ben Edelman, que estuda marketing de afiliados há décadas, e a Capital One Shopping, que opera uma extensão concorrente. Edelman foi categórico ao afirmar que a exigência mais fundamental do marketing de afiliados é que a comissão só seja paga se o usuário clicar, e que as regras não permitem cliques falsos, simulados ou imaginários. Ele disse ter revisado o código publicamente disponível da Phia e concluído que o plugin foi desenhado para reivindicar comissões mesmo sem clique do usuário nos links da empresa.

A versão da Phia é outra, e ela merece ser registrada com clareza. A empresa afirma que o código problemático foi introduzido em dezembro, que passa por auditorias regulares de seus parceiros de rede de afiliados e que sempre manteve conformidade. Um ponto joga a favor dessa narrativa: a Bloomberg retestou a extensão depois que a companhia confirmou a correção e constatou que a atribuição indevida havia de fato cessado. Ainda assim, houve consequência imediata. A Phia foi suspensa da Impact.com, uma das principais plataformas de afiliados e influenciadores do mercado. Há precedente pesado no setor, já que a Honey, da PayPal, é alvo de uma ação coletiva em andamento por acusação semelhante.

O timing é o que torna o episódio especialmente delicado para ela. Fundada em 2025 ao lado de Sophia Kianni, colega de quarto em Stanford, a Phia levantou mais de US$ 43 milhões e chegou a uma avaliação em torno de US$ 185 milhões, com investidores como Notable Capital, Kleiner Perkins, Khosla Ventures e nomes como Hailey Bieber, Karlie Kloss, Sydney Sweeney e Sheryl Sandberg. O app já passou de 1,2 milhão de downloads em 12 meses, operando com menos de dez funcionários em tempo integral. Ou seja, é uma empresa pequena carregando expectativa gigante.

E é aí que a história ganha ironia. Phoebe sempre fez questão de dizer que queria construir algo sozinha, e chegou a afirmar num podcast que tem um “chip no ombro” para criar algo geracional sem qualquer ligação com seu privilégio ou seu sobrenome, tendo recusado dinheiro dos pais para bancar o negócio. Quando a filha de Bill Gates responde a acusações contra sua startup, porém, o sobrenome volta a ser exatamente o que ela tentou evitar: a manchete. A empresa diz que o problema está resolvido, e os testes independentes confirmam. Resta saber se a confiança do mercado de afiliados se recupera na mesma velocidade que o código.

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