London Fashion Week: Roksanda e McQueen movimentam último dia de desfiles

Roksanda Ilinčić transforma pintura e arte têxtil em volumes monumentais, enquanto Seán McGirr leva a McQueen de volta a Londres com alfaiataria, rave e referências históricas da casa.

London Fashion Week: Roksanda e McQueen movimentam último dia de desfiles
Vogue Runway

A London Fashion Week 2027 chegou ao fim com dois desfiles que ajudam a entender a variedade da moda britânica atual. Roksanda apresentou volumes, pintura e referências à arte têxtil no terraço do National Theatre. Um dia antes, McQueen voltou oficialmente ao calendário londrino pela primeira vez desde 2001, agora sob a direção criativa de Seán McGirr.

As duas marcas têm relações muito diferentes com a cidade.

Roksanda Ilinčić construiu sua carreira em Londres depois de deixar Belgrado, onde estudou arquitetura e artes aplicadas, para cursar moda na Central Saint Martins sob orientação de Louise Wilson. A arte continua funcionando como uma das principais fontes de pesquisa de suas coleções.

A McQueen nasceu em Londres. Lee Alexander McQueen estudou na Central Saint Martins, trabalhou anteriormente em Savile Row e apresentou alguns dos desfiles mais conhecidos de sua carreira na cidade antes de transferir seu calendário principal para Paris.

Na Spring 2027, essas trajetórias voltaram a aparecer diretamente nas roupas.

Roksanda Spring 2027 começa pela arte têxtil

Roksanda Ilinčić costuma procurar artistas mulheres para iniciar o desenvolvimento de suas coleções. Desta vez, parte da pesquisa veio do trabalho da artista têxtil suíça Françoise Grossen, conhecida por grandes esculturas produzidas com cordas, fibras e técnicas de trançado.

Grossen ganhou destaque principalmente a partir das décadas de 1960 e 1970, quando artistas começaram a tirar a fibra do território tradicional da tapeçaria e tratá-la como escultura.

Na roupa, essa referência aparece em cordas grossas, fios suspensos e tranças.

Alguns saem de bolsas oversized como grandes franjas. Em outros looks, cordas coloridas atravessam as costas de jaquetas de alfaiataria e funcionam quase como cintos.

A coleção mantém uma característica recorrente da Roksanda: a roupa precisa funcionar em movimento.

Capas, vestidos longos, mangas amplas e saias estruturadas modificam a silhueta conforme a modelo caminha. O cenário ajudou a mostrar essa construção. O desfile aconteceu ao ar livre, no jardim localizado sobre o National Theatre, edifício brutalista às margens do Tâmisa.

O que significa arquitetura brutalista?

O National Theatre foi projetado pelo arquiteto Denys Lasdun e é um dos exemplos mais conhecidos do brutalismo britânico.

O termo descreve uma corrente arquitetônica muito presente entre as décadas de 1950 e 1970, marcada pelo concreto aparente, grandes volumes geométricos e exposição da estrutura do edifício.

Para uma designer conhecida por trabalhar volume e forma, o espaço criou uma relação bastante direta com as roupas.

Roksanda também transforma as próprias pinturas em vestidos

Outra referência veio da própria designer.

Antes de estudar moda, Roksanda teve formação em artes aplicadas em Belgrado e continua pintando. Durante o verão de 2026, voltou com maior frequência à prática e produziu uma série de rostos femininos.

Essas pinturas foram transferidas para grandes lenços de seda.

Em alguns looks, os scarves deixam a função tradicional de acessório e passam a formar vestidos e túnicas. As imagens aparecem ampliadas sobre o corpo e podem mudar de posição conforme a peça é amarrada.

A ideia também acrescenta versatilidade às roupas: uma mesma superfície de seda pode ser drapeada e reorganizada de diferentes maneiras.

Pinceladas maiores aparecem em outras estampas da coleção.

Peplum ganha escala arquitetônica

Entre os volumes, aparecem saias com peplum arqueado.

Peplum é o nome dado ao volume ou babado estruturado colocado na região da cintura ou do quadril. Sua presença na moda atravessa diferentes períodos históricos e costuma ser usada para alterar a proporção entre cintura e quadril.

Na Roksanda, ele cresce e passa a funcionar quase como uma estrutura.

A coleção também traz vestidos construídos com novelos, tufos e fios soltos, além de drapeados realizados em material sintético com aparência de crocodilo.

São elementos conhecidos do trabalho de Ilinčić: cor, volume e superfície tratados dentro de uma linguagem próxima à escultura.

McQueen volta para Londres

A McQueen Spring 2027 teve outro peso dentro do calendário.

A apresentação marcou o retorno oficial da casa à London Fashion Week depois de aproximadamente 25 anos. A última participação no calendário londrino havia acontecido em 2001, ainda durante a direção de Lee Alexander McQueen.

Desde então, Paris havia se tornado a principal cidade dos desfiles da marca.

Seán McGirr escolheu o Undercroft da capela de Lincoln’s Inn para o retorno. O espaço do século XVII tem piso de pedra e uma cobertura gótica formada por nervuras em desenhos estrelados.

Londres também entrou diretamente na pesquisa da coleção.

McGirr chegou à cidade vindo da Irlanda aos 17 anos e estudou na Central Saint Martins. Para a Spring 2027, trabalhou com duas referências que fizeram parte de sua experiência na capital: pintura renascentista e cultura rave.

Piero della Francesca encontra a cultura rave

Uma das imagens usadas por McGirr foi O Batismo de Cristo, pintura de Piero della Francesca produzida no século XV.

O designer conheceu a obra quando era estudante em Londres e voltou a ela durante o desenvolvimento da coleção. A construção das figuras, a luz e o caráter religioso aparecem como referência para formas que lembram asas e para os tratamentos metálicos aplicados às roupas.

Outro ponto de partida veio das noites de rave britânicas.

O cabelo com duas pontas altas fazia referência à aparência de Keith Flint, vocalista do The Prodigy, cuja imagem se tornou inseparável da cultura eletrônica britânica dos anos 1990.

Malhas esportivas, couro perfurado, mesh e shorts com acabamento colorido também aproximaram alguns looks desse universo.

A coleção circula entre esses dois repertórios ao longo do desfile.

A alfaiataria recupera nomes importantes de Londres

A alfaiataria ocupa uma posição histórica dentro da McQueen.

Antes de estudar na Central Saint Martins, Lee McQueen trabalhou em casas de Savile Row, rua londrina conhecida pela tradição de ternos feitos sob medida.

Para Spring 2027, Seán McGirr trabalhou com a Huntsman, alfaiataria histórica de Savile Row que também havia colaborado com o fundador da marca.

As referências passam ainda por Tommy Nutter, alfaiate que abriu sua própria casa na rua em 1969 e ficou conhecido por alterar as proporções tradicionais do terno masculino.

Nutter trabalhava com lapelas largas, cinturas marcadas e ombros definidos e vestiu nomes como Mick Jagger, Elton John e membros dos Beatles.

Na McQueen, essa construção aparece em ternos muito ajustados e ombros fechados que criam uma forma semelhante a asas dobradas.

Colarinhos grossos de couro interrompem a precisão do tailoring e aproximam as peças da estética noturna usada como outra referência da coleção.

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Shaun Leane também retorna ao universo McQueen

Outro nome ligado à história da casa voltou a participar da coleção.

O joalheiro britânico Shaun Leane colaborou com Lee McQueen durante muitos anos e criou algumas das peças de passarela mais conhecidas da marca.

Sua joalheria frequentemente ocupava grandes áreas do corpo e ficava entre acessório, armadura e escultura.

Para Spring 2027, Leane desenvolveu harnesses usados sobre vestidos e estruturas de corset.

A coleção também inclui um vestido formado por caveiras metálicas bordadas e conectadas manualmente. Folhas de metal aparecem espalhadas sobre vestidos e alfaiataria como aplicações tridimensionais.

São técnicas que ajudam a localizar a coleção dentro da história material da McQueen sem reproduzir literalmente peças antigas.

Jacquard também recebe interferências

Alguns vestidos utilizam jacquard, técnica em que o desenho é criado durante a própria tecelagem do tecido.

Isso permite produzir padrões complexos sem recorrer a uma estampa colocada posteriormente sobre a superfície.

Na coleção, esses desenhos foram sobrepostos, sombreados e alterados. O efeito deixa partes do padrão menos nítidas e modifica o acabamento tradicionalmente ornamental do material.

Duas marcas e duas relações com a arte

Roksanda e McQueen trabalham referências artísticas de maneiras bastante distintas na London Fashion Week 2027.

Em Roksanda, a pesquisa está ligada diretamente à construção. Cordas, trançados e pintura passam para tecidos, bolsas e silhuetas.

Na McQueen, referências históricas aparecem junto a códigos específicos da cultura britânica. Savile Row, pintura renascentista, joalheria, rave e sportswear fazem parte da mesma coleção.

Também existe uma diferença importante na história das duas casas.

Roksanda continua sob a direção de sua fundadora e desenvolve há duas décadas um repertório pessoal ligado a arte, arquitetura, cor e escultura.

McQueen vive outro momento. Seán McGirr assumiu a direção criativa em 2023 e trabalha sobre um arquivo construído por Lee McQueen e pelos designers que vieram depois dele.

A volta a Londres coloca essa relação com a origem da marca de maneira particularmente clara.

Londres aparece de maneiras diferentes na passarela

Roksanda e McQueen encerram a London Fashion Week 2027 reforçando duas características antigas da cidade: formação artística e experimentação.

Na Roksanda, isso aparece na relação entre pintura, escultura e roupa que acompanha Ilinčić desde sua formação.

Para a McQueen, Londres envolve também história. Savile Row, Saint Martins, colaboradores antigos e a cultura noturna da cidade aparecem dentro de uma coleção apresentada novamente no lugar onde a maison começou.

São dois desfiles com linguagens muito próprias e uma ligação clara com a cidade que os recebeu.

Fotos: Vogue Runway

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