London Fashion Week 2027 reúne romance, glamour e estreia

Simone Rocha, Erdem, Richard Quinn e a primeira Mulberry de Christopher Kane mostram quatro caminhos bem diferentes para a moda britânica nesta temporada.

A London Fashion Week 2027 chegou ao fim de semana com alguns dos nomes que melhor representam a moda britânica atual. Simone Rocha abriu o domingo no Old Bailey, Erdem Moralioglu apresentou sua nova coleção poucas horas depois, Richard Quinn havia colocado seu repertório de vestidos de noite na passarela no sábado e Christopher Kane voltou oficialmente ao calendário com sua aguardada estreia na Mulberry.

São marcas com histórias e escalas diferentes, mas todas trabalham sobre linguagens já bastante reconhecíveis. Nesta temporada, o interesse está justamente em observar como esses códigos continuam sendo desenvolvidos.

Romantismo, alfaiataria, vestidos de ocasião, couro e referências históricas aparecem com pesos diferentes ao longo das quatro coleções.

Simone Rocha encontra novas formas para seu romantismo

Simone Rocha abriu o domingo da London Fashion Week 2027 voltando ao Old Bailey, tribunal criminal de Londres onde já havia apresentado outras coleções.

A designer partiu de The Betrayal of Christ, pintura de Caravaggio que permaneceu desaparecida durante cerca de dois séculos antes de ser redescoberta em Dublin em 1990. A obra ajudou Rocha a olhar para seu próprio repertório de uma maneira menos direta.

Essa referência não transformou o desfile em exercício de figurino histórico. Ela aparece na intensidade das superfícies, nas flores, nos volumes e na forma como algumas peças envolvem o corpo.

A paleta permaneceu relativamente enxuta. Tons claros, preto e vermelho conduziram boa parte da coleção, acompanhados por rosas de veludo azul, rendas, transparências e cetins de seda.

As formas arredondadas tiveram presença forte.

Casacos e vestidos ganharam volumes inflados, com destaque para o bubble shape, silhueta criada quando a barra é recolhida ou estruturada para formar um volume arredondado. O resultado lembra um balão e tem ligação direta com experiências de volume que aparecem na moda desde meados do século XX.

Em outros looks, golas grandes envolviam cabeça e pescoço. A imagem lembra as formas concêntricas das matrioskas russas, com diferentes camadas surgindo ao redor do rosto.

Flores de tecido foram aplicadas em decotes e barras. Boás construídos em tecido criaram o efeito visual das plumas sem necessariamente recorrer às penas tradicionais.

Laços, brilho e lingerie aparente continuam presentes. Esses elementos fazem parte do vocabulário de Rocha há anos e ajudam a explicar por que sua moda é facilmente identificável mesmo quando ela muda proporção, material ou referência.

Peças de aparência mais utilitária e construções ligadas ao guarda-roupa masculino entram em alguns momentos para organizar todo esse volume.

Erdem leva príncipe de Gales para vestidos de gala

Erdem Moralioglu seguiu algumas horas depois com outra leitura da roupa romântica.

O designer completou 20 anos de marca em 2026 e mantém um trabalho muito ligado a pesquisa histórica, personagens reais, arquivos e técnicas ornamentais. Flores, brocados, renda e bordados aparecem regularmente em suas coleções, mas a Spring 2027 deu atenção especial à alfaiataria.

O príncipe de Gales aparece em casacos e peças estruturadas.

O nome identifica um padrão de xadrez tradicionalmente associado à alfaiataria britânica, construído pela combinação de pequenos quadriculados e linhas maiores. O desenho ganhou esse nome por sua associação histórica com o vestuário masculino britânico.

Erdem utilizou esse material em peças de construção firme, algumas inspiradas em casacas e blazers alongados.

Em vários momentos, o próprio blazer vira vestido.

Corpos ajustados recebem saias amplas, enquanto bordados florais atravessam peças que inicialmente parecem pertencer ao guarda-roupa masculino. Bodies justos e superfícies brilhantes também aparecem ao longo da coleção.

Uma referência discreta aos anos 1920 surge em silhuetas mais longas e estreitas, decotes em V e drapeados posicionados de maneira irregular.

As plumas são usadas com cuidado. Algumas ficam escondidas sob as barras; outras contornam golas, capas e cintura.

Essa construção é bastante característica de Erdem. O trabalho histórico está presente, mas passa pela roupa antes de chegar à passarela. O resultado não depende de reproduzir literalmente uma década ou personagem.

O que significa drapeado?

O drapeado é construído pela disposição do tecido diretamente sobre o corpo ou molde para criar dobras, quedas e volumes.

Na coleção de Erdem, essas dobras ajudam a quebrar a rigidez da alfaiataria e aparecem principalmente em vestidos e peças de noite.

Richard Quinn continua apostando no eveningwear

Richard Quinn apresentou sua coleção Spring 2027 no sábado, em uma passarela cercada por espelhos e lustres.

O cenário já indicava o caminho da coleção.

O designer concentrou o desfile em 42 vestidos de alto nível de execução, mantendo o foco em roupas para festas, casamentos, red carpets e grandes ocasiões.

O termo eveningwear descreve justamente esse segmento de roupas destinadas a eventos noturnos e ocasiões formais. Vestidos longos, bordados, tecidos luxuosos e construções mais elaboradas fazem parte dessa categoria.

Quinn trabalha esse território desde o início da marca.

Sua estética reúne silhuetas que lembram técnicas de couture, estampas florais desenvolvidas em seu próprio estúdio, bordados, volumes e acabamento com plumas de avestruz.

Para Spring 2027, ele citou o hyper-glamour dos anos 1980 como referência.

O período aparece em ombros, volumes, brilho e na escala dos vestidos. Algumas silhuetas são mais limpas do que nas primeiras coleções do designer, reflexo de um negócio que hoje atende clientes reais de casamento e eventos internacionais.

Essa evolução comercial também é importante para entender o desfile. Quinn mantém atelier, salão de couture e operação de impressão de tecidos em Peckham, no sul de Londres.

Helena Christensen encerrou a apresentação.

Christopher Kane estreia na Mulberry

A apresentação da Mulberry era uma das mais aguardadas desta edição da London Fashion Week 2027.

Christopher Kane foi nomeado diretor criativo do ready-to-wear feminino da marca em março e voltou à passarela depois do encerramento de sua própria etiqueta, em 2023.

Para entender a coleção, é preciso lembrar o que é a Mulberry.

Fundada por Roger Saul em Somerset, em 1971, a marca britânica construiu sua história principalmente sobre couro e acessórios. Bolsas como Bayswater, Alexa e Roxanne passaram a fazer parte da cultura de moda britânica, especialmente durante os anos 2000.

Kane começou justamente por esse arquivo.

Um vestido branco curto foi construído com faixas horizontais de couro recortadas no formato da aba da Bayswater, bolsa lançada em 2003 e reconhecida pelo formato estruturado e fecho postman’s lock.

É uma maneira inteligente de utilizar um código da marca sem simplesmente colocar um logotipo na roupa.

Outras referências vieram da infância de Christopher e de sua irmã Tammy Kane, colaboradora de longa data do designer.

Uniformes escolares da Escócia, cardigãs, pequenas saias e fotografias de rua dos anos 1960, 1970 e 1980 aparecem no desenvolvimento da coleção.

O arquivo de Roger Saul também forneceu peças diretamente. Um raincoat dos anos 1980 foi recuperado praticamente sem alterações.

De onde vêm os machados da coleção?

Kane também pesquisou a própria origem do nome Mulberry.

Roger Saul escolheu o nome depois de observar amoreiras durante o trajeto de trem para a escola. O designer transformou essa história em uma sequência de referências a poda e jardinagem.

Machados aparecem em camisetas e até no formato de saltos espelhados.

Uma nova bolsa, chamada The Chop, trabalha a mesma referência.

A ideia de cortar uma árvore para estimular seu crescimento deu a Kane uma imagem bastante direta para sua estreia dentro da marca.

Couro permanece no centro da coleção, acompanhado por knitwear, outerwear e vestidos mais ajustados — território bastante conhecido por quem acompanhou a carreira de Christopher Kane desde sua estreia em 2006.

A apresentação também marcou o retorno da Mulberry ao formato de desfile depois de seis anos fora das passarelas.

Quatro assinaturas diferentes em Londres

As quatro coleções mostram uma London Fashion Week 2027 sustentada por designers que conhecem bem o território que ocupam.

Simone Rocha trabalha volume, flores e feminilidade a partir de uma referência pictórica inesperada. Erdem continua aprofundando seu interesse por alfaiataria, história e ornamentação. Richard Quinn mantém o vestido de ocasião como centro de seu negócio. Christopher Kane chega à Mulberry usando o arquivo da casa como matéria-prima para construir ready-to-wear.

Nenhuma dessas coleções depende de uma tendência isolada para fazer sentido.

São trabalhos construídos sobre anos de pesquisa, códigos visuais e relações específicas com a moda britânica — exatamente o tipo de consistência que continua fazendo de Londres uma etapa particular dentro do calendário internacional.

Fotos: Vogue Runway

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