Entre experimentação, movimento e uma feminilidade mais precisa, Loewe, Issey Miyake e Givenchy mostram três maneiras de atualizar códigos conhecidos sem perder personalidade.
Paris começa a mostrar quem realmente está encontrando uma voz
Depois de tantas mudanças de comando, estreias e reposicionamentos, a Paris Fashion Week 2027 chega a um momento mais interessante: já é possível olhar para algumas das novas fases da moda sem depender apenas da curiosidade provocada por um novo nome na direção criativa.
Loewe, Issey Miyake e Givenchy ocupam posições bastante diferentes dentro desse cenário. Jack McCollough e Lazaro Hernandez ainda estão construindo o vocabulário que deve definir sua Loewe. Satoshi Kondo trabalha em uma casa cuja experimentação faz parte da própria estrutura, o que lhe permite avançar sem precisar anunciar rupturas. Sarah Burton, por sua vez, parece cada vez mais confortável na Givenchy e começa a deixar uma imagem feminina muito própria.
Há também algo em comum entre as três coleções. Nenhuma depende de uma grande tendência para funcionar. O interesse está na roupa: na superfície que parece uma coisa e é outra, no tecido que muda com o movimento, no corte que altera a postura do corpo. Paris continua produzindo espetáculo, mas alguns dos melhores momentos desta temporada aparecem justamente quando o olhar desacelera.
Loewe começa a transformar ideias em um guarda-roupa
Jack McCollough e Lazaro Hernandez assumiram uma tarefa particularmente delicada. Jonathan Anderson deixou a Loewe depois de mais de uma década transformando uma tradicional casa espanhola de couro em uma das marcas culturalmente mais relevantes da moda contemporânea. Sua passagem foi tão marcante que tentar reproduzi-la seria imediatamente percebido; rejeitá-la por completo também seria uma solução fácil demais.
A dupla vem escolhendo um caminho mais gradual. Na Spring 2027, essa nova Loewe começa a parecer menos um conjunto de experimentos e mais um guarda-roupa que poderia existir de verdade.
O masculino é especialmente casual, com uma inclinação esportiva que conversa naturalmente com o trabalho que McCollough e Hernandez desenvolveram durante anos nos Estados Unidos. No feminino, a imagem fica mais rica: saias desconstruídas, volumes macios, florais trabalhados na superfície e proporções mais delicadas criam uma energia jovem sem transformar a coleção em algo excessivamente doce.



Essa convivência entre roupa fácil e construção sofisticada começa a se tornar um dos pontos mais convincentes da fase atual.
À distância, algumas peças parecem absolutamente comuns. É chegando mais perto que a Loewe revela o trabalho. Superfícies aparentemente simples recebem tratamentos elaborados, materiais imitam outros materiais e técnicas artesanais aparecem onde normalmente esperaríamos uma solução industrial.
É um tipo de luxo que faz sentido para a maison.
A Loewe nasceu em Madri no século XIX e construiu sua reputação através do couro e da habilidade artesanal. Mesmo quando a marca se tornou muito mais conceitual, o material continuou sendo parte fundamental de sua identidade. McCollough e Hernandez parecem interessados em preservar essa relação, mas colocando sobre ela uma dose maior de casualidade.
É justamente aí que a dupla começa a se afastar da sensação de continuidade direta da fase anterior.
Não há necessidade de produzir um objeto surrealista em cada look para provar que estamos vendo Loewe. Uma saia estranhamente construída, uma textura inesperada ou uma jaqueta aparentemente simples podem carregar a mesma informação de maneira muito mais discreta.
Ainda existem muitas ideias circulando ao mesmo tempo e nem todas parecem pertencer exatamente à mesma personagem. Mas isso talvez seja inevitável para uma dupla que ainda está definindo quais partes de seu próprio repertório funcionam dentro de uma maison com uma história tão específica.
O mais importante é que começa a existir uma personalidade.
Uma feminilidade mais divertida também aparece na Loewe
A parte feminina é onde essa personalidade parece avançar mais rapidamente. Saias ganham protagonismo, acompanhando um movimento que já atravessou Nova York, Londres e Milão nesta temporada, mas a Loewe evita simplesmente repetir a imagem comportada da saia midi que voltou a aparecer em várias passarelas.
Há irregularidade, volume, textura e uma certa despreocupação na maneira de vestir.
Florais tridimensionais acrescentam superfície sem cair em romantismo óbvio, enquanto peças macias e quase felpudas colocam uma sensação tátil dentro da coleção. A roupa parece pedir proximidade.
Essa abordagem também suaviza a imagem intelectual que muitas vezes acompanha a maison. A nova Loewe continua interessada em arte, técnica e objetos, mas começa a demonstrar que também pode ser engraçada, atraente e simplesmente gostosa de vestir.
Para McCollough e Hernandez, talvez esse seja o caminho mais promissor: encontrar uma Loewe que preserve a inteligência do produto sem precisar explicar a inteligência do produto o tempo inteiro.
Na Issey Miyake, o espaço também faz parte da roupa
Se a Loewe trabalha muito aquilo que acontece na superfície, Satoshi Kondo olha para o espaço existente entre tecido e corpo.
A Issey Miyake sempre tratou roupa como algo que precisa funcionar em movimento. A construção não termina quando a peça sai do atelier; ela continua quando alguém veste, anda, senta, dobra o braço ou deixa o tecido reagir ao ar.
Na Spring 2027, Kondo aprofunda essa relação através da ideia japonesa de ma, o intervalo existente entre duas coisas. Não se trata apenas de “vazio”. Esse espaço também participa da composição.
Aplicado à roupa, o conceito fica bastante concreto.
Silhuetas arredondadas deixam ar entre tecido e pele. Casacos e vestidos se afastam do corpo, drapeados mudam conforme o movimento e algumas formas parecem existir apenas enquanto alguém está dentro delas. Há volume, mas ele dificilmente parece pesado.
A abertura do desfile tornou isso particularmente claro, com performers manipulando uma grande superfície de tecido. A forma nunca permanecia estática; ela inflava, cedia, se espalhava e voltava a ganhar volume conforme os corpos se movimentavam.
Era quase uma versão ampliada daquilo que aconteceria depois nas roupas.
O interessante é que Satoshi Kondo consegue levar uma pesquisa bastante conceitual para peças que continuam parecendo possíveis de usar. Essa relação entre invenção e praticidade acompanha a Issey Miyake há décadas e talvez seja uma das razões pelas quais sua experimentação envelhece tão bem.
O plissado deixa de ser obrigação
Uma das decisões mais inteligentes é justamente não transformar o famoso plissado da Issey Miyake em protagonista de toda coleção.
Ele aparece, mas de maneira mais controlada.
Isso permite lembrar que a contribuição de Issey Miyake para a moda nunca esteve resumida a uma única técnica. O interesse sempre passou por tecnologia, movimento, facilidade de vestir e pela possibilidade de criar novas relações entre tecido e corpo.
Quando o plissado aparece, ele mantém sua função estrutural. A superfície consegue se expandir e retrair, criando volume sem impedir movimento.
Em outros momentos, Kondo encontra caminhos completamente diferentes.
Drapeados, alfaiataria desconstruída, volumes arredondados e tecidos propositalmente amassados constroem uma silhueta que nunca parece excessivamente controlada. Cores vibrantes entram ao lado de tons mais tranquilos e impedem que a pesquisa técnica torne o resultado frio.
Existe leveza até nas ideias mais complexas.
Roupa que guarda memória de um corpo
A experimentação avança também sobre a própria construção tridimensional.
Em colaboração com a Wacoal, conhecida principalmente por seu trabalho com lingerie, técnicas usadas normalmente para moldar bojos foram aplicadas em outras partes das roupas. O resultado são formas que parecem conservar a memória de um corpo mesmo antes de alguém entrar nelas.
A ideia é particularmente bonita dentro dessa coleção porque inverte uma relação que normalmente damos como certa. Esperamos que o corpo modele o tecido. Aqui, às vezes é o tecido que já imagina o corpo que irá receber.
Isso poderia facilmente virar apenas exercício técnico. Kondo evita esse problema porque tudo permanece conectado ao vestir.
A peça pode manter uma forma própria, mas ainda precisa permitir movimento. Pode ocupar espaço, mas não pode aprisionar quem está dentro dela.
A Issey Miyake continua encontrando novidade justamente nessa negociação.
Sarah Burton já sabe quem é sua mulher Givenchy
Na Givenchy, o processo parece estar em estágio mais avançado.
Sarah Burton assumiu a maison com um repertório pessoal muito estabelecido depois de décadas trabalhando construção, alfaiataria e eveningwear. Nas primeiras coleções, era possível perceber a designer procurando quais partes desse conhecimento pertenciam realmente à Givenchy.
Na Spring 2027, essa dúvida praticamente desaparece.
A mulher começa a ficar muito clara: elegante sem parecer excessivamente formal, forte sem precisar usar roupa como armadura e sensual de uma maneira que depende muito mais de corte do que de exposição gratuita.
Reset



Couro e elementos biker entram nesse guarda-roupa ao lado de alfaiataria desconstruída, vestidos próximos ao corpo e franjas que acrescentam movimento. Há peças bastante rigorosas, mas Burton nunca deixa o rigor endurecer a coleção.
Esse equilíbrio é uma de suas maiores habilidades.
Uma jaqueta pode ter ombros muito precisos e ainda acompanhar naturalmente o corpo. Um vestido pode ser extremamente sensual sem depender de transparência integral. Uma camisa branca familiar muda completamente quando uma manga é deslocada ou quando a construção abandona a simetria esperada.
Burton não precisa transformar uma peça em outra coisa para mostrar que trabalhou sobre ela.
Às vezes, alguns centímetros bastam.
A alfaiataria deixa de ser apenas símbolo de poder
A discussão sobre alfaiataria feminina passou muitos anos presa à ideia de power dressing. Ombros fortes, paletós largos e referências ao guarda-roupa masculino eram quase automaticamente associados a uma mulher poderosa.
Burton trabalha com outra lógica.
Sua mulher não precisa vestir uma versão masculina do terno para transmitir segurança. A estrutura pode acompanhar quadril, cintura e movimento sem perder autoridade.
Na Givenchy Spring 2027, alguns painéis frontais avançam e se cruzam na parte inferior da roupa, criando linhas que sugerem o gesto de pernas cruzadas. Cós se prolongam pelas laterais e mangas abandonam sua posição convencional.
O corpo feminino entra na própria engenharia das peças.
Esse tipo de construção também ajuda Burton a escapar de uma sensualidade previsível. A coleção tem couro, decotes, vestidos ajustados e referências biker, mas o interesse raramente está apenas na quantidade de pele à mostra.
A forma como a roupa direciona o olhar importa muito mais.
O cotidiano começa a entrar melhor na Givenchy
Outro acerto está na presença de peças comuns.
Jeans, regatas e camisas brancas circulam ao lado de vestidos sofisticados e tailoring, ampliando aquilo que imaginamos quando pensamos numa mulher Givenchy.
É uma mudança importante para uma maison historicamente ligada a uma ideia muito específica de elegância parisiense.
Hubert de Givenchy construiu parte de sua reputação vestindo mulheres como Audrey Hepburn, e essa associação com refinamento permanece fortíssima no imaginário da marca. Burton não tenta competir com essa imagem nem reproduzi-la.
Ela atualiza a elegância através da maneira como as mulheres realmente constroem seus guarda-roupas hoje.
Um blazer precisa funcionar com uma saia bem construída, mas também com jeans. Uma camisa pode servir de base para uma roupa extremamente precisa ou ser usada quase aberta sobre o corpo. O eveningwear pode carregar técnica de atelier sem parecer destinado apenas ao tapete vermelho.
É uma Givenchy muito mais habitável.
Quando Calder encontra Sarah Burton
Nos vestidos mais elaborados, Burton mostra que continua sabendo trabalhar espetáculo quando existe motivo.
Estruturas curvas de metal sustentam jersey ao redor do corpo, criando linhas que parecem desenhadas no espaço. A pesquisa conversa com o trabalho de Alexander Calder, especialmente com sua maneira de transformar fios e estruturas leves em formas que dependem de equilíbrio e movimento.
A referência funciona porque não aparece como ilustração.
Burton não imprime Calder num vestido. Ela observa como ele construía espaço.
O metal sustenta o tecido e cria distância entre roupa e corpo, deixando partes da silhueta quase suspensas.
Curiosamente, essa solução aproxima Givenchy da mesma discussão que aparece na Issey Miyake, embora os resultados sejam completamente diferentes.
Kondo deixa o tecido encontrar sua forma através do espaço. Burton desenha esse espaço com precisão.
É aí que colocar essas três coleções lado a lado começa a ficar especialmente interessante.
Três marcas pensando o corpo sem chegar à mesma resposta
A Paris Fashion Week 2027 está cheia de discussões sobre feminilidade, sensualidade e a volta de silhuetas mais próximas do corpo. Loewe, Issey Miyake e Givenchy mostram que essa conversa pode ir muito além de cintura fina ou comprimento de saia.
Na Loewe, o corpo encontra superfícies que alteram a percepção da roupa. Existe humor, textura e um certo prazer na imperfeição.
Na Issey Miyake, ele é quase um parceiro de projeto. A roupa precisa de movimento para terminar de existir.
Na Givenchy, o corpo é observado através da engenharia. Sarah Burton entende onde cortar, onde deslocar e onde deixar tecido suficiente para que uma silhueta familiar ganhe outra postura.
Nenhuma dessas abordagens tenta definir uma única imagem de mulher.
E talvez seja justamente por isso que funcionem tão bem nesta temporada.
A diferença está cada vez mais nos detalhes
A quantidade de mudanças recentes nas grandes maisons criou uma espécie de ansiedade coletiva por imagens imediatamente reconhecíveis. Um novo diretor criativo assumia e, já na primeira temporada, esperava-se descobrir a bolsa, a silhueta, a cor e a campanha que resumiriam toda a nova fase.
As coleções mais interessantes começam a desafiar essa pressa.
Jack McCollough e Lazaro Hernandez ainda não encerraram a definição de sua Loewe, e isso pode ser positivo. Algumas linguagens precisam de tempo.
Satoshi Kondo tem esse tempo na Issey Miyake e consegue utilizá-lo para aprofundar princípios da casa em vez de substituí-los.
Sarah Burton já atravessou a fase inicial na Givenchy e começa a colher o benefício dessa continuidade. Sua coleção não precisa mais gritar “nova Givenchy”. Ela simplesmente parece Givenchy sob Sarah Burton.
Esse talvez seja um dos melhores sinais possíveis para qualquer direção criativa.
Moda boa também precisa funcionar quando o desfile termina
Existe outra razão para essas três coleções chamarem atenção.
É relativamente fácil produzir um look memorável numa passarela. Mais difícil é fazer com que uma ideia continue interessante quando as luzes apagam e a roupa entra numa loja ou num guarda-roupa.
Loewe entende isso ao colocar trabalho artesanal dentro de peças aparentemente casuais. Issey Miyake construiu praticamente toda sua história pensando movimento e facilidade de uso. Sarah Burton começa a organizar a Givenchy em torno de roupas que conseguem circular entre trabalho, noite e situações menos formais.
Isso não significa transformar luxo em básico.
Significa lembrar que moda também existe sobre pessoas.
Depois de alguns anos em que imagem digital, viralização e espetáculo ocuparam uma parte enorme da discussão, olhar novamente para esse aspecto parece especialmente atual.
Paris Fashion Week 2027 mostra uma nova fase de maturidade
Loewe, Issey Miyake e Givenchy representam momentos bastante diferentes de suas histórias, e talvez seja justamente isso que torne o encontro interessante.
McCollough e Hernandez estão montando as primeiras peças de um quebra-cabeça e começam a descobrir como sua experiência americana pode conviver com a tradição artesanal espanhola da Loewe.
Satoshi Kondo já trabalha com segurança suficiente para mexer nos códigos da Issey Miyake sem depender do elemento mais reconhecível da casa em cada look.
Sarah Burton parece ter finalmente encontrado uma mulher Givenchy que pertence à maison e, ao mesmo tempo, carrega sua assinatura.
Nenhuma das três coleções precisa anunciar revolução.
Elas fazem algo bem mais difícil: avançam alguns centímetros na direção certa.
Em moda, esses centímetros podem mudar completamente uma silhueta.
E, às vezes, uma marca inteira.
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