Do Wet Dress de Dimitra Petsa à despedida de Glenn Martens da Diesel, quatro coleções mostram caminhos bem diferentes para a primavera 2027.

Entre Londres e Milão, a Fashion Week Spring 2027 mostra marcas trabalhando a partir de repertórios muito diferentes.
Dimitra Petsa continua desenvolvendo a técnica que colocou a Di Petsa no mapa, mas começa a ampliar sua linguagem com estampas e referências à maternidade. Daniel Lee aproxima a Burberry do universo gráfico de Celia Birtwell e relaxa parte da rigidez das últimas temporadas.
Em Milão, Miuccia Prada e Raf Simons dedicam praticamente toda a coleção feminina à saia, enquanto Glenn Martens encerra seis anos de Diesel com os tratamentos têxteis e as desconstruções que passaram a definir sua passagem pela marca.
Di Petsa: o Wet Dress continua, mas Holy Milk amplia o repertório



Dimitra Petsa construiu uma assinatura visual muito reconhecível em poucos anos.
Seu Wet Dress parece permanentemente molhado, mesmo quando o tecido está completamente seco. A técnica de drapeado foi desenvolvida por Petsa durante seus estudos na Central Saint Martins e acabou se tornando o principal código da marca.
Na Spring 2027, batizada de Holy Milk, esse repertório permanece presente.
Vestidos drapeados acompanham o corpo, recortes deixam pele aparente e transparências continuam fazendo parte da construção. Há versões longas e outras extremamente curtas, sempre com tecido manipulado de maneira próxima ao corpo.
A novidade aparece principalmente nas superfícies.
Três vestidos de mesh receberam impressões digitais inspiradas em afrescos florais minoicos, acompanhadas por pedras de quartzo posicionadas sobre o busto e grandes aberturas transparentes nos quadris.
O que é a referência minoica?
A civilização minoica se desenvolveu principalmente na ilha de Creta durante a Idade do Bronze. Seus palácios e afrescos preservaram imagens de flores, animais, rituais e figuras humanas com formas bastante fluidas.
Essa iconografia aparece há algum tempo no trabalho de Dimitra Petsa, designer grega que frequentemente conecta roupa, mitologia, água, corpo e feminilidade.
Em Holy Milk, a referência ganhou uma aparência mais gráfica através da impressão digital.
Outro grupo de vestidos trouxe degradês semelhantes a um pôr do sol. O ombré, nome dado à passagem gradual entre cores, cria profundidade mesmo em construções relativamente simples.
Maternidade entra na pesquisa de Dimitra Petsa
A coleção também nasceu da observação de amigas grávidas da designer.
Petsa relacionou a transformação física da gravidez à ideia de mudança de identidade. Esse tema apareceu diretamente na apresentação, inclusive com a participação de Leigh-Anne Pinnock, grávida durante o desfile.
O leite, elemento que dá nome a Holy Milk, entrou na performance e ampliou um repertório que a designer já trabalha há várias temporadas: fluidos, água, nascimento e corpo.
Por trás da sensualidade evidente das roupas existe bastante trabalho manual.
Drapeados são fixados ponto a ponto, superfícies recebem pintura e tingimento e alguns tecidos são manipulados para criar irregularidades específicas.
Essa combinação ajuda a entender por que o Wet Dress não é simplesmente um “vestido com efeito molhado”. O resultado depende da maneira como o tecido é construído, torcido e preso ao corpo.
Burberry: Daniel Lee encontra Celia Birtwell



A Burberry Spring 2027 trouxe uma participação que muda bastante a leitura da coleção: Celia Birtwell.
Designer têxtil britânica, Birtwell teve papel importante na moda de Londres durante os anos 1960 e 1970, especialmente por meio da parceria profissional com Ossie Clark. Seus desenhos florais e estampas ajudaram a formar parte da linguagem visual daquele período.
Daniel Lee levou esse arquivo para a Burberry.
Flores atravessaram o tradicional xadrez da casa, apareceram em bordados e chegaram a pequenos elementos tridimensionais aplicados às roupas. Rostos desenhados por Birtwell também entraram nas estampas.
O encontro faz sentido dentro de uma marca que Lee vem aproximando de diferentes referências da cultura britânica.
O trench deixa de carregar tudo sozinho
Nas últimas temporadas, Daniel Lee dedicou muita atenção ao trench coat, peça diretamente ligada à história da Burberry.
A origem do casaco está na roupa funcional desenvolvida para enfrentar chuva e vento, e sua construção em gabardine se tornou um dos pilares comerciais e históricos da casa.
Na Spring 2027, o guarda-roupa se abre um pouco mais.
Parkas, jaquetas esportivas, denim, shorts, camisas, vestidos leves e peças técnicas dividem espaço com os casacos tradicionais.
As superfícies também aparecem propositalmente menos perfeitas. Tecidos amassados, acabamentos lavados e elementos com aspecto gasto diminuem aquela aparência muito polida normalmente associada à Burberry.
O denim surge em rosa lavado, preto e tons próximos ao bege característico do trench.
Flores, parkas e uma Burberry mais relaxada
A influência dos anos 1970 aparece principalmente através das estampas de Celia Birtwell e de alguns acessórios.
Clogs com tiras, grandes óculos e bucket hats entram em uma coleção que trabalha uma roupa bastante informal.
As estampas são usadas em sobreposição, às vezes junto do próprio Burberry Check. O conhecido xadrez deixa de funcionar somente como identificação da marca e passa a servir de base para desenhos florais.
Há também chiffon, babados e bordados, principalmente nos looks mais leves.
O esporte permanece presente através de parkas, jaquetas técnicas e calçados próximos do universo outdoor.
A Spring 2027 amplia o que Daniel Lee vem construindo na Burberry desde 2023: referências britânicas reconhecíveis, sportswear, roupa para clima instável e elementos do arquivo tratados com liberdade.
NOTA DA REDAÇÃO
Celia Birtwell é uma figura importante do design têxtil britânico. Nos anos 1960 e 1970, seus desenhos apareceram com frequência nas roupas criadas por Ossie Clark e ajudaram a definir parte da imagem da moda londrina daquele período. A colaboração com Daniel Lee coloca esse repertório diretamente dentro da Burberry.
Prada coloca a saia no centro da coleção



Em Milão, Miuccia Prada e Raf Simons construíram a Spring 2027 praticamente inteira em torno de uma única peça: a saia.
A escolha tem uma história importante dentro da Prada.
Em 2004, a marca criou a exposição Waist Down — Skirts by Miuccia Prada, dedicada exclusivamente às saias desenvolvidas por Miuccia entre 1988 e aquele período. A mostra começou em Tóquio e posteriormente circulou por outras cidades.
Miuccia também já descreveu a saia como uma peça básica de seu próprio guarda-roupa, quase equivalente a uma camiseta pela facilidade de combinação.
Duas décadas depois, o assunto retorna à passarela.
Evasê, pregas, transparências e crinolina
As possibilidades são muitas.
Há saias evasê — abertas gradualmente a partir da cintura —, retas, pregueadas, minis, modelos na altura do joelho e versões construídas apenas como grandes painéis transpassados.
Algumas são presas por faixas largas de Velcro bordadas com cristais.
Outras recebem pequenos laços, fitas ou uma camada de crinolina, estrutura normalmente utilizada para sustentar volume sob uma saia.
Aqui, a crinolina permanece visível e envolve a peça quase como uma embalagem transparente.
Estampas abstratas lembram grandes pinceladas. Florais e xadrezes aparecem sob camadas de nylon preto brilhante.
Os materiais também brincam com aparência e realidade. Um tecido com visual de couro é, na verdade, algodão revestido. Superfícies de aspecto tecnológico e látex criam transparências que deixam a lingerie aparente.
Tops ficam mínimos
Se a saia ocupa grande parte da silhueta, a parte de cima frequentemente é reduzida ao essencial.
Pequenos sutiãs substituem blusas em vários looks.
Essa combinação também possui precedente dentro do universo Prada. Nos anos 1990, a Miu Miu já havia explorado bralettes usados com saias, algo que ajuda a colocar a proposta atual dentro de uma história maior da marca.
Camisas e tricôs também aparecem, mas a relação entre uma saia muito construída e um top extremamente pequeno é uma das imagens mais claras da coleção.
O efeito pode lembrar guarda-roupas dos anos 1950 em alguns momentos, principalmente pelas saias mais comportadas, mas materiais técnicos, lingerie e styling quebram rapidamente essa leitura.
Por que a saia é tão Prada?
Miuccia Prada costuma trabalhar peças reconhecíveis do guarda-roupa cotidiano e deslocá-las através do material, da proporção ou da combinação.
A saia oferece um campo particularmente amplo para isso.
Ela pode carregar uma estampa, mudar completamente a proporção do corpo ou funcionar como uma superfície para aplicações.
Na Spring 2027, essa função fica muito clara. Cada saia recebe praticamente uma solução própria.
O resultado também recupera algo bastante característico da Prada: roupas familiares que parecem ligeiramente estranhas quando colocadas juntas.
Diesel: Glenn Martens encerra seis anos na marca



A Diesel Spring 2027 teve significado especial antes mesmo do primeiro look entrar na passarela.
Foi a última coleção de Glenn Martens como diretor criativo.
O estilista belga chegou à Diesel em 2020 e passou seis anos ampliando consideravelmente o repertório da marca. O denim continuou no centro, mas recebeu tratamentos, cortes e tecnologias que permitiram transformar sua aparência repetidas vezes.
Desgaste, trompe-l’œil, peças híbridas, transparências e experimentação têxtil passaram a fazer parte desse vocabulário.
Na despedida, Martens voltou justamente a essas técnicas.
Denim que parece couro e roupa que parece se desfazer
Alguns tecidos da Spring 2027 exigem olhar mais de uma vez.
O denim foi revestido e posteriormente trabalhado a laser até adquirir aparência de couro.
Em outras peças, recortes semelhantes a flores de orquídea parecem corroer malhas e polos.
Superfícies metalizadas receberam impressão com efeito craquelado. Conforme essa primeira camada se abre, aparecem imagens que simulam outras roupas por baixo.
Essa técnica pertence ao universo do trompe-l’œil, expressão francesa que significa literalmente “enganar o olho”. Na moda, descreve recursos visuais capazes de fazer um material ou objeto parecer outra coisa.
Martens utiliza esse tipo de ilusão há várias temporadas.
Camisetas e moletons foram destruídos até restarem pequenas partes de tecido. Camisas e alfaiataria aparecem torcidas e parcialmente desmontadas.
A impressão é de roupas capturadas durante o processo de transformação.
A despedida também passa pelo corpo
A sensualidade foi uma parte importante da passagem de Glenn Martens pela Diesel.
Na Spring 2027, ela também entrou na própria apresentação.
A trilha começou com respirações e evoluiu para techno, incorporando uma versão de Love to Love You Baby, de Donna Summer. Durante o desfile, pessoas vestidas de Diesel espalhadas entre a plateia começaram a se beijar.
Era uma continuação da forma como Martens usou seus desfiles para tratar desejo, sexualidade e comportamento ao longo das últimas temporadas.
A modelo Ella Snyder fechou a apresentação. Ela também havia aberto a primeira coleção de Martens para a Diesel registrada pela Vogue Runway, na Spring 2022.
O gesto fechou um ciclo de seis anos.
O que Glenn Martens deixa na Diesel
A história da Diesel sempre esteve ligada ao denim e à experimentação industrial.
Sob Martens, essa base ganhou um repertório muito maior de técnicas.
Jeans foram queimados, revestidos, impressos, corroídos, desfiados e transformados em peças que muitas vezes pareciam feitas de materiais completamente diferentes.
O designer também trouxe para a marca uma linguagem mais próxima da geração que cresceu entre moda de luxo, streetwear e internet.
Agora, seu trabalho fica concentrado na Maison Margiela, onde assumiu a direção criativa em 2025.
A Diesel segue para sua próxima fase com uma equipe que Martens fez questão de destacar durante sua despedida.
Quatro marcas, quatro maneiras de trabalhar identidade
A Fashion Week Spring 2027 chega a Milão depois de uma temporada londrina especialmente movimentada, e estas quatro coleções mostram como identidade pode ser trabalhada sem depender apenas de arquivo.
Dimitra Petsa aprofunda técnicas desenvolvidas por ela própria e começa a abrir novos caminhos para a Di Petsa. Daniel Lee encontra em Celia Birtwell outra porta de entrada para a cultura britânica dentro da Burberry.
Miuccia Prada e Raf Simons pegam uma peça aparentemente comum e demonstram quantas possibilidades ainda existem dentro de uma saia.
Na Diesel, Glenn Martens termina seu período da mesma forma como o conduziu: tratando tecido como matéria para experimentar, destruir e reconstruir.
Fotos: Vogue Runway
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