Harris Reed Spring 2027 leva o branco ao extremo na London Fashion Week

Corsets, brocados, organza e estruturas em gaiola aparecem quase inteiramente em branco numa coleção que revisita os códigos do designer.

Harris Reed Spring 2027 leva o branco ao extremo na London Fashion Week

A Harris Reed Spring 2027 foi apresentada no primeiro dia da London Fashion Week com uma decisão incomum para um designer conhecido pelo uso de cor, estampas e construções monumentais: quase toda a coleção veio em branco.

O ponto de partida estava no próprio arquivo. Depois de 11 temporadas de sua marca, Reed voltou a silhuetas, corsets e estruturas que ajudaram a construir sua assinatura e as reorganizou numa apresentação em formato de salão no Mandarin Oriental, em Knightsbridge. Segundo o designer, a ideia era criar uma espécie de versão “fantasmagórica” das coleções anteriores.

A paleta reduzida colocou o trabalho de superfície em primeiro plano. Organza pintada à mão, cetim duchesse, brocado de seda, bordados e patchworks aparecem em peças cuja complexidade está principalmente na construção.

Harris Reed Spring 2027 revisita os códigos da marca

Harris Reed construiu sua marca em torno de uma ideia muito específica de roupa de ocasião: corseteria, volumes amplos, chapéus esculturais, plumas, estruturas internas expostas e referências que passam pela moda vitoriana, glam rock e teatralidade queer.

Esses elementos continuam presentes na Spring 2027, mas ocupam posições diferentes.

As estruturas em forma de gaiola, por exemplo, já apareceram em várias temporadas como protagonistas da silhueta. Desta vez, funcionam como parte de um vocabulário que o designer já estabeleceu. A própria Vogue observou que o caging — nome usado para essas armações que circundam ou expandem partes do corpo — aparece como um elemento reconhecível da marca sem conduzir toda a coleção.

Essa mudança coincide com um novo momento profissional para Reed. Entre 2022 e 2026, ele dividiu seu tempo entre a marca própria e a Nina Ricci, em Paris. A saída da maison francesa devolveu atenção integral ao projeto que leva seu nome.

A Spring 2027 também olha com mais atenção para quem compra essas roupas. Reed comentou que, em temporadas anteriores, costumava começar o processo com grandes referências históricas. Desta vez, a pergunta inicial foi sobre a própria cliente.

A escolha do Mandarin Oriental e o formato intimista de salão reforçaram essa aproximação. O designer também prepara a abertura de um salão próprio em Londres.

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Branco, mas com muita informação

A coleção foi quase inteiramente branca. As exceções incluíram uma jaqueta em tom dourado-cremoso de cetim duchesse pintado à mão, um corset de paetês e o vestido de noiva do encerramento.

Aqui, branco não significa ausência de detalhe.

Brocados, jacquards, organzas, transparências e bordados produzem diferenças de profundidade que ficam mais claras justamente pela ausência de uma grande variação cromática.

O brocado de seda é um tecido construído com desenhos formados durante a própria tecelagem. O relevo e a densidade permitem criar superfícies muito trabalhadas sem depender apenas de estampas.

Já o cetim duchesse é uma versão mais encorpada e firme do cetim. Sua estrutura segura volumes e curvas com mais precisão, razão pela qual aparece com frequência em vestidos de noite e alta-costura.

Reed utilizou esses materiais em painéis que foram posteriormente reunidos em patchwork para formar saias e calças. Houve ainda organzas com flores e animal prints pintados à mão.

O corte no viés suaviza o shape sereia

Alguns vestidos exploraram uma silhueta longa e próxima do corpo, abrindo gradualmente na região inferior.

É o que costuma ser chamado de shape sereia ou fishtail: a roupa acompanha torso, quadril e pernas antes de ganhar volume próximo à barra.

O corte no viés ajuda a deixar esse desenho menos rígido. A técnica consiste em posicionar o molde na diagonal do tecido, aproveitando sua elasticidade natural para produzir caimento mais fluido.

No trabalho de Reed, essa fluidez convive com corsets e estruturas internas mais firmes. A silhueta mantém definição sem parecer completamente imobilizada.

Corsets e decotes ganham novas proporções

A corseteria continua central na linguagem de Harris Reed.

Historicamente, o corset estrutura o torso por meio de barbatanas e painéis rígidos. Reed costuma ampliar essa lógica para além da cintura, fazendo a própria estrutura criar ombros, decotes e volumes ao redor do rosto.

Na Spring 2027, alguns decotes crescem para cima e para os lados, quase como molduras.

A sensação de leveza vem dos materiais mais claros e das transparências. Plumas e franjas também aparecem de forma mais pontual do que em coleções anteriores.

Na Fall 2026, Reed havia mostrado corsets com aros semelhantes a halos, cinturas em gaiola e grandes estruturas de plumas. Na temporada seguinte, essas formas continuam reconhecíveis, porém distribuídas entre materiais mais leves e uma paleta muito mais controlada.

O vestido final deixa a crinolina exposta

O encerramento recuperou outro elemento histórico: a crinolina.

A crinolina é uma estrutura usada sob a saia para sustentar e ampliar seu volume. Tornou-se especialmente importante no vestuário feminino do século XIX e, na moda contemporânea, pode aparecer escondida ou propositalmente exposta.

Reed escolheu a segunda opção.

No vestido bridal que encerrou a apresentação, a estrutura interna ficou visível, transformando a construção da saia em parte do desenho.

Esse recurso combina com uma prática recorrente do designer: elementos normalmente escondidos dentro da roupa passam para o exterior e participam da silhueta.

Do salto de 18 centímetros ao chão

Outro detalhe mudou bastante a leitura das roupas.

Pela primeira vez em anos, Reed não colocou suas modelos sobre plataformas de aproximadamente 18 centímetros.

Os sapatos extremamente altos ajudavam a alongar ainda mais as proporções de coleções anteriores. Sem eles, a relação entre roupa e corpo fica mais clara.

A mudança também permite observar melhor a escala real dos vestidos, calças e saias.

O efeito continua teatral. A construção já fornece esse impacto.

Harris Reed olha para o próprio arquivo

A Harris Reed Spring 2027 funciona como uma revisão do vocabulário construído pelo designer desde o início da marca.

Corsets, gaiolas, decotes ampliados e shapes sereia continuam presentes. A novidade está no tratamento desses elementos, especialmente na escolha quase monocromática e na atenção maior aos tecidos.

Para uma marca acostumada a trabalhar com imagem em grande escala, reduzir a paleta também torna mais fácil enxergar aquilo que sustenta a roupa: corte, material, estrutura e técnica.

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