“Anonymity”, dirigido por Thibaut Grevet, transforma um dos códigos históricos da Maison Margiela em projeto cinematográfico.

A Maison Margiela prepara um novo capítulo de sua produção audiovisual. Batizado de “Anonymity”, o filme dirigido por Thibaut Grevet parte de uma ideia que acompanha a casa desde sua origem: apagar a identidade de quem veste, cria ou apresenta uma roupa para fazer o próprio trabalho ocupar o centro da imagem.
O projeto tem lançamento previsto para 9 de setembro e conta com a participação da atriz Rebecca Hall, revelada inicialmente no cartaz de divulgação. Grevet volta a trabalhar com a maison depois de dirigir “Joy”, curta realizado para a temporada Primavera/Verão 2026 com o compositor Max Richter e uma orquestra infantil.
A escolha do tema também não funciona como uma referência isolada ao passado. Em 2026, a Margiela voltou a investigar seus principais códigos históricos por meio de exposições e experiências, incluindo uma mostra dedicada especificamente às máscaras e ao anonimato.
O que é Maison Margiela Anonymity
O novo filme coloca o anonimato no centro da narrativa. Até o momento, poucos detalhes sobre o enredo foram divulgados, mas a própria maison define o conceito como um dos pilares de sua linguagem.
Na Margiela, esconder um rosto nunca significou simplesmente criar suspense.
A ideia apareceu logo na estreia da marca, em 1988. Modelos tiveram os rostos cobertos por véus finos para que a atenção do público permanecesse sobre as roupas. Com o tempo, essa prática passou a incluir perucas, maquiagem, acessórios para a boca e diferentes tipos de máscara.
O resultado é uma linguagem que pode ser reconhecida mesmo sem o nome Maison Margiela escrito em letras grandes.
O anonimato sempre esteve na roupa
A lógica também aparece em um dos detalhes mais conhecidos da marca: a etiqueta branca presa por quatro pontos de linha.
Em vez de transformar o nome do designer em elemento gráfico evidente, a maison adotou um marcador praticamente vazio. Os quatro pontos visíveis pelo lado externo da roupa acabaram se tornando reconhecíveis justamente porque não funcionam como um logotipo convencional.
Martin Margiela manteve uma postura semelhante durante boa parte de sua carreira. O designer evitava fotografias, aparições públicas e entrevistas presenciais, criando uma distância pouco comum em uma indústria que costuma transformar seus diretores criativos em celebridades.
Até mesmo no documentário “Martin Margiela: In His Own Words”, lançado anos depois de sua saída da maison, seu rosto continuou fora da câmera. O filme apresenta sua voz e suas mãos, mas preserva a escolha de não mostrá-lo integralmente.
Essa ausência acabou criando um paradoxo interessante: Margiela se tornou extremamente reconhecível sem precisar ser visualmente reconhecido.
A máscara como ferramenta de design
Dentro desse raciocínio, a máscara deixou de funcionar apenas como acessório.
Ao cobrir o rosto, a roupa muda de posição na imagem. O modelo perde parte da individualidade, enquanto silhueta, textura, construção e movimento passam a receber mais atenção.
Essa abordagem apareceu diversas vezes no arquivo da marca e continua sendo revisitada atualmente.
Sob Glenn Martens, a maison também voltou a trabalhar com rostos ocultos e elementos que interferem na percepção da identidade, inclusive em apresentações recentes de alta-costura.
A palavra “anonimato” na Maison Margiela não se refere apenas à ausência do fundador diante das câmeras. Ela aparece no sistema visual da marca, nas etiquetas, na forma de apresentar coleções e no uso recorrente de véus, máscaras e outros elementos que escondem ou alteram o rosto.
Das exposições ao cinema
Antes do novo filme, a maison já havia colocado esse arquivo em evidência em Pequim.
A exposição “Anonymity: Our History of Masks”, realizada em abril, reuniu materiais históricos para mostrar como o gesto de esconder o rosto passou de uma decisão conceitual para uma ferramenta recorrente de experimentação.
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O projeto fez parte da iniciativa MaisonMargiela/folders, criada para investigar quatro códigos da casa: Artisanal, Anonymity, Tabi e Bianchetto.
Levar esse material para o cinema amplia a mesma pesquisa.
Um filme permite trabalhar não apenas com roupa, mas também com enquadramento, som, ausência, movimento e narrativa. Para uma maison que sempre usou a apresentação como parte do próprio design, a escolha do formato faz sentido.
Por que o projeto chama atenção agora
A moda vive um momento em que diretores criativos, celebridades, influenciadores e fundadores se tornaram parte central da comunicação das marcas.
A Margiela nasceu trabalhando no sentido contrário.
Mesmo décadas depois, essa recusa continua funcionando como uma das características mais fáceis de identificar na casa.
Por isso, Maison Margiela Anonymity não precisa criar um novo universo para contar sua história. O filme parte de algo que já estava presente desde a primeira coleção.
O filme chega justamente quando a maison volta a organizar seu próprio arquivo como conteúdo cultural. Dessa vez, a pergunta não é quem está por trás da roupa. É o que acontece quando essa pessoa desaparece da imagem.
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