NYFW Primavera 2027: os últimos desfiles em Nova York

Collina Strada, Thom Browne, Carolina Herrera, LaQuan Smith e PatBo fecham a semana com propostas que passam por fantasia, alfaiataria, sensualidade e referências brasileiras.

NYFW Primavera 2027: os últimos desfiles em Nova York

A NYFW Primavera 2027 chegou aos últimos dias com coleções bastante diferentes entre si. Collina Strada deixou Manhattan para desfilar em meio à natureza; Carolina Herrera celebrou 45 anos de história; LaQuan Smith começou a ampliar seu conhecido guarda-roupa de festa; PatBo levou referências brasileiras ao Domino Square; e Thom Browne encerrou o calendário com insetos, crisálidas e sua alfaiataria reconhecível.

A variedade resume bem a temporada de Nova York. Em vez de uma estética dominante, apareceram designers trabalhando de maneira cada vez mais específica os próprios códigos.

Fantasia, técnicas artesanais, roupas pensadas para o cotidiano e uma presença maior de cor atravessaram boa parte da semana, mas cada marca chegou a esses elementos por um caminho diferente.

Collina Strada Primavera 2027 mistura rococó, grunge e natureza

Hillary Taymour levou a Collina Strada para fora do circuito tradicional da Fashion Week. A marca se tornou a primeira a realizar um desfile no Storm King Art Center, espaço de arte ao ar livre no estado de Nova York conhecido por grandes esculturas instaladas na paisagem. A escolha partiu de um interesse compartilhado por ecologia e sustentabilidade.

O cenário bucólico não levou Taymour para uma coleção campestre tradicional.

Mohawks, cabelos espetados, tênis com babados desenvolvidos para a Converse e música de clube criaram uma estranheza proposital em meio ao campo.

A designer resumiu as referências em dois grupos de três “Rs”: reduce, reuse, recycle e Rococo, Riot Grrrl e Ren Faire.

Para quem não está familiarizado com essas referências, elas vêm de lugares bastante diferentes. O rococó está ligado à estética ornamentada do século XVIII, marcada por volume, curvas e decoração. Riot Grrrl nasceu dentro do punk feminista dos anos 1990. Já Ren Faire é uma abreviação de Renaissance Fair, festivais em que roupas e fantasias inspiradas na Idade Média e no Renascimento fazem parte da experiência.

Taymour mistura tudo isso com a linguagem grunge que acompanha a Collina Strada.

Vestidos longos, babados, mangas volumosas, drapeados e tecidos que se movimentam atrás do corpo aparecem ao lado de xadrezes, peças propositalmente irregulares e referências medievais. Até uma malha de paetês xadrez foi usada como uma versão fantasiosa de cota de malha.

O objetivo de Taymour era trabalhar bastante volume sem deixar as peças pesadas. Saias ganharam espaço porque estão entre as categorias que vêm funcionando comercialmente para a marca, enquanto calças largas receberam rosetas nos quadris e tingimentos concentrados na cintura e na barra.

O desfile terminou com Carly Rae Jepsen cantando no campo, seguida pelas modelos e parte do público dançando.

Thom Browne transforma insetos em alfaiataria

Thom Browne encerrou oficialmente a programação da NYFW Primavera 2027 no The Shed com uma enorme crisálida instalada no centro do espaço.

Borboletas, abelhas, libélulas, joaninhas e besouros passaram a ocupar a alfaiataria característica do designer.

Antes das modelos, performers vestidos como lagartas circularam pela estrutura. Uma delas entrou na crisálida e retornou no final transformada em borboleta.

A referência à metamorfose organizou todo o desfile.

Nos primeiros looks, os insetos surgiram de maneira pequena: uma margarida bordada em um blazer recebeu uma abelha sobre a flor, enquanto libélulas foram incorporadas ao desenho de um casaco xadrez.

Depois, a construção ficou mais complexa.

Asas atravessaram frente e costas dos casacos e volumes arredondados transformaram saias em espécies de carapaças. O conhecido trabalho de patchwork de Browne foi usado para reproduzir manchas de joaninhas e padrões de besouros.

Também apareceu a intarsia, técnica em que cores ou materiais diferentes são incorporados à própria construção do tecido ou tricô para formar um desenho. Diferentemente de uma estampa simplesmente aplicada sobre a superfície, o motivo faz parte da estrutura da peça.

A base continua muito ligada ao universo Thom Browne: alfaiataria precisa, gravatas estreitas, xadrezes, cinza e proporções associadas ao guarda-roupa preppy.

O preppy nasceu ligado ao vestuário das escolas preparatórias e universidades americanas e inclui peças como blazers, camisas Oxford, gravatas, tricôs e loafers. Browne trabalha esse repertório há décadas, normalmente alterando proporções e acrescentando elementos quase teatrais.

Nesta temporada, até os looks mais complexos continuaram partindo dessa alfaiataria.

A referência mais inesperada veio do cinema: Browne citou a animação A Bug’s Life, da Pixar, como uma das inspirações.

Carolina Herrera celebra 45 anos com seus próprios códigos

A coleção Primavera 2027 da Carolina Herrera também teve clima de aniversário.

O David H. Koch Theater recebeu 28.798 tulipas amarelas para marcar os 45 anos da marca, fundada por Carolina Herrera em 1981. Wes Gordon comanda a direção criativa desde 2018.

A coleção revisita vários elementos imediatamente associados à casa.

Poás em preto e branco aparecem logo no início. A tradicional camisa branca ganha novas proporções e chega combinada a calça cigarette, faixa larga na cintura e saia transparente de baile. Gordon também alongou a peça até transformá-la em vestidos-camisa mais ajustados ao quadril.

Cigarette pants são calças estreitas e retas, normalmente na altura do tornozelo. O modelo ficou especialmente associado à elegância feminina das décadas de 1950 e 1960 e combina bem com a linguagem clássica da Herrera.

Florais, babados, laços, vestidos fluidos e cinturas marcadas completam a coleção, junto de referências mais específicas à fundadora.

Um broche dourado em formato de sapo, por exemplo, lembra o restaurante nova-iorquino La Grenouille, um dos favoritos de Carolina Herrera.

Wes Gordon também olhou para o início da marca nos anos 1980. Em colaboração com a Andy Warhol Foundation, colocou em um vestido o famoso retrato de Carolina Herrera feito pelo artista. Outra parceria com a New Yorker recuperou a capa publicada na semana do primeiro desfile da estilista.

A coleção funciona quase como um pequeno mapa visual da casa: poás, camisa branca, flores, roupa de festa e a elegância uptown de Nova York aparecem juntos sem depender de uma reconstrução literal de arquivos antigos.

LaQuan Smith quer vestir a mesma mulher durante o dia

LaQuan Smith construiu sua carreira com vestidos transparentes, corsets, recortes e roupas pensadas para a noite.

Para a Primavera 2027, o designer começou a ampliar esse guarda-roupa.

Smith explicou à Vogue que sua cliente mudou e agora procura roupas para diferentes horas do dia. Ele chamou essa nova abordagem de uma perspectiva de “24 horas”.

Isso aparece em combinações como saias leves e volumosas usadas com jaquetas esportivas de proporção masculina.

Píton em relevo aparece em jaquetas e saias, enquanto estampas misturam manchas inspiradas em filhotes de cervo e felinos. Transparências e vestidos de festa continuam presentes, inclusive um vestido laranja extremamente leve que chamou atenção durante a apresentação.

A alfaiataria ganhou uma expressão própria dentro da coleção.

Smith chamou a proposta de “bombshell suiting”: ternos e conjuntos construídos para manter a sensualidade que já define a marca. Os exemplos mais claros vieram em denim escuro, com peças que podem ser abertas ou fechadas através de zíperes.

A expansão ainda está em processo.

A própria review da Vogue apontou problemas de comprimento e vestibilidade em alguns looks, especialmente na combinação de saltos altos com barras que se acumulavam no chão.

Ainda assim, a intenção está clara: criar um guarda-roupa LaQuan Smith que continue sexy sem depender exclusivamente do vestido de festa.

PatBo leva “Brasil Esplêndido” para a NYFW

Patricia Bonaldi apresentou a coleção Brasil Esplêndido no dia 15 de setembro, no Domino Square, em Nova York.

A Primavera 2027 da PatBo parte da natureza e do paisagismo brasileiro e transforma essas referências em bordados feitos à mão, transparências, volumes, estampas autorais e silhuetas fluidas.

O artesanato ocupa novamente uma posição central.

Essa característica acompanha a história da PatBo e também ajuda a explicar a presença da marca fora do Brasil: técnicas manuais aparecem aplicadas a vestidos, franjas, bordados e superfícies que funcionam tanto nas fotos da passarela quanto em roupas voltadas ao mercado internacional.

Na nova coleção, azul, verde, amarelo e estampas relacionadas à paisagem brasileira aparecem dentro dessa linguagem.

PatBo estreia sua primeira linha de óculos

O desfile também marcou uma novidade comercial importante.

A PatBo apresentou sua primeira coleção de eyewear, produzida integralmente na Itália. A linha de óculos de sol tem lançamento previsto para outubro.

Sapatos e bolsas também ganharam espaço na coleção, parte da estratégia de ampliar a PatBo para além do vestuário e desenvolver uma marca de lifestyle mais completa.

Até o cabelo acompanhou a ideia visual do desfile.

O trabalho de LEONI com a Keune partiu do modernismo brasileiro e das curvas presentes nas estampas, especialmente a Wave Maré, construída em tons de azul. A beleza também contou com maquiagem da Natura Una e participação da HOPE na categoria de lingerie.

Nesse caso, “Brasil Esplêndido” não funciona apenas como título decorativo. A identidade brasileira aparece no ponto de partida da coleção, nas técnicas manuais, nas cores e na construção visual da apresentação.

O que ficou da NYFW Primavera 2027

Os últimos desfiles ajudam a fechar uma temporada em que cada marca pareceu mais interessada em aprofundar a própria linguagem do que em perseguir uma tendência isolada.

Collina Strada misturou história, punk e fantasia em meio à natureza. Thom Browne transformou insetos em alfaiataria. Carolina Herrera revisitou 45 anos de códigos da casa. LaQuan Smith começou a montar um guarda-roupa que vai além da noite. PatBo colocou a identidade brasileira no centro de sua expansão internacional.

A NYFW Primavera 2027 terminou oficialmente em 15 de setembro com Thom Browne no The Shed. A temporada internacional agora segue para Londres, Milão e Paris, onde outras leituras para a Primavera/Verão 2027 começam a entrar na conversa.

Fotos: Vogue Runway

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