NYFW Primavera 2027: 6 desfiles para ficar de olho

NYFW Primavera 2027: 6 desfiles para ficar de olho

Prabal Gurung, Khaite, Area e Sandy Liang mostram diferentes caminhos para a Primavera 2027, enquanto The People’s Runway abre espaço para novos designers do Brooklyn e a COS apresenta seu Outono 2026 em Nova York.

A NYFW Primavera 2027 chegou ao fim de semana com uma sequência de coleções que ajuda a entender por que Nova York continua difícil de resumir em uma única estética.

Prabal Gurung reduziu o excesso para trabalhar vestidos fluidos e drapeados inspirados pelo Nepal. Catherine Holstein levou a Khaite para um território mais romântico. Nicholas Aburn simplificou a exuberância da Area, enquanto Sandy Liang aproximou seu universo feminino e fantasioso de roupas mais práticas.

Fora dessa sequência tradicional de grandes marcas, Colm Dillane, da KidSuper, voltou ao Brooklyn com a segunda edição do The People’s Runway, projeto que entrega a passarela a cinco designers locais. A COS também desfilou em Nova York, mas com uma diferença importante: a coleção apresentada pela diretora criativa Karin Gustafsson é oficialmente Outono 2026, e não Primavera 2027.

Prabal Gurung Primavera 2027 encontra leveza no Nepal

Prabal Gurung abriu sua coleção Primavera 2027 de maneira incomum para uma marca conhecida por bordados elaborados, vestidos de festa e construções de grande impacto.

Os primeiros looks eram longos, estreitos e fluidos. Um vestido drapeado seguido por três maxivestidos com as costas abertas estabeleceu uma coleção mais contida, construída em torno da ideia de liberdade.

Parte da inspiração veio de uma viagem ao Nepal, país onde Gurung nasceu.

O designer observou os dhunge dharas, fontes públicas tradicionais esculpidas em pedra presentes há séculos na arquitetura nepalesa. Também prestou atenção aos saris usados pelas mulheres e às flores de jasmim e calêndula colocadas nos cabelos.

Essas referências aparecem principalmente no movimento.

Sedas, tecidos acetinados e materiais leves formam vestidos que parecem acompanhar o corpo sem grande estrutura. O drapeado surge nos quadris, barras e decotes, criando volume através do próprio tecido.

O que é drapeado?

O drapeado é uma técnica de construção em que o tecido é disposto diretamente sobre o corpo ou manequim para formar pregas, dobras e volumes.

Na prática, isso permite criar peças que parecem simples à primeira vista, mas dependem bastante da maneira como o tecido foi cortado e posicionado.

Gurung levou essa técnica ao limite em uma série de vestidos de linho. Segundo o designer, foram necessários mais de três meses de testes até encontrar o efeito desejado. A solução foi forrar o linho com organza de seda, material leve e estruturado que ajudou a sustentar as dobras.

Amarelos inspirados pela calêndula e pelo nascer do sol entram entre as cores mais fortes. Um vestido de crochê amarelo com gola alta aparece entre os exemplos mais claros dessa direção.

Florais são mais delicados. Surgem bordados em pequenos casacos e em sarongues usados sobre calças.

O sarongue é uma peça formada basicamente por um retângulo de tecido amarrado ao redor do corpo, muito comum em diferentes regiões do Sul e Sudeste Asiático. Na coleção, Gurung incorpora essa ideia ao styling urbano.

Outro ponto de partida veio de um lugar completamente diferente: uma festa em Brooklyn que o designer frequentou depois do Met Gala.

A energia da pista de dança durante as primeiras horas da manhã entrou ao lado das referências nepalesas. Um vestido lilás caindo de um dos ombros, com a barra presa como se alguém tentasse impedir que a roupa tocasse a água, traduz bem essa mistura.

No final, um vestido vermelho com drapeado e uma cauda de plumas de avestruz recupera parte da teatralidade pela qual Gurung é conhecido.

Khaite Primavera 2027 deixa o lado dark mais romântico

Kaia Gerber abriu o desfile da Khaite Primavera 2027 usando um sutiã branco e uma saia preta de couro de cintura alta.

O look poderia facilmente pertencer ao universo escuro e sensual que Catherine Holstein construiu para a marca. O restante da coleção, porém, revelou uma Khaite consideravelmente mais delicada.

Vestidos de renda bordados com flores, lingerie em tons pastel, mousseline transparente, babados e laços ocupam boa parte dos 47 looks.

A referência começou em Veneza.

Holstein contou à Vogue que a ideia surgiu durante uma visita ao Gritti Palace, hotel histórico instalado às margens do Grande Canal. Os ornamentos do teto do bar inspiraram recortes semelhantes a camafeus aplicados em um vestido pastel de lyocell.

O camafeu é uma técnica antiga de gravação em relevo, geralmente usada em joias. Na moda, a palavra também pode descrever elementos ovais ou desenhos que lembram essas pequenas peças ornamentais.

A coleção trabalha ainda com referências de lingerie antiga.

Corsets aparecem parcialmente expostos, rendas recebem acabamento artesanal e tops e saias transparentes são contornados com crina, material usado dentro de barras para criar sustentação e movimento.

Quando aplicada a babados, essa estrutura faz a borda da roupa se movimentar de forma mais marcada durante a caminhada.

Basque, corset e silhueta dos anos 1950

Outro detalhe recorrente é a basque, construção que prolonga a parte superior da roupa abaixo da cintura e acompanha ou enfatiza os quadris.

Ela aparece em vestidos e tops, aproximando algumas peças da silhueta feminina dos anos 1940 e 1950.

Holstein também trouxe saias lápis alongadas, vestidos de aparência íntima, transparências e pepluns.

O peplum é o pequeno volume ou babado que parte da cintura de blusas, vestidos e casacos. É uma construção antiga, que já passou por várias décadas da moda e voltou a aparecer com frequência nas coleções recentes.

O cenário ajudou a reforçar essa leitura.

O Brooklyn Storehouse permaneceu praticamente escuro, com fortes focos de luz incidindo sobre as modelos. Penteados inspirados por imagens antigas completaram a atmosfera cinematográfica.

A mudança também é interessante dentro da trajetória recente da Khaite. Fundada por Holstein em 2016, a marca construiu boa parte de sua identidade misturando couro, jeans, malhas e peças femininas delicadas dentro de uma ideia contemporânea de sportswear americano.

Para a Primavera 2027, a parte delicada desse vocabulário recebeu muito mais espaço.

Area Primavera 2027 simplifica o espetáculo

A Area continua sendo uma das marcas de Nova York mais associadas ao brilho, à festa e a construções inesperadas.

Para a Primavera 2027, Nicholas Aburn decidiu reduzir um pouco esse excesso.

O designer contou à Vogue que uma experiência recente com LSD despertou uma sensação de inocência que acabou influenciando a coleção. A ideia aparece em roupas de construção mais direta, materiais simples e técnicas quase artesanais.

O próprio contexto do estúdio também interferiu no resultado.

A equipe da Area mudou sua operação de Milão novamente para Nova York durante o verão, reduzindo tempo e recursos disponíveis para preparar o desfile. Aburn transformou essa limitação em parte da linguagem da temporada.

Vestidos metálicos franjados, por exemplo, foram produzidos com o material usado para fazer paetês antes que os pequenos discos fossem cortados.

Outros looks usam camisetas cortadas em tiras, fios de pérolas, conchas e miçangas.

O resultado lembra uma espécie de wearable art — expressão usada para roupas tratadas também como objetos artísticos através de materiais, construção ou técnicas pouco convencionais.

Jeans, camisolas e festa

A Area sempre teve ligação direta com a vida noturna.

Nesta coleção, Aburn trabalha tanto a roupa da festa quanto aquilo que poderia ser usado antes ou depois dela.

Jeans amplos aparecem com manchas que lembram tinta escorrendo pela cintura. Pequenos tops de alças recebem plumas. Camisetas transparentes e justas são usadas sobre outras peças, enquanto T-shirts oversized são ajustadas ao corpo e presas por sutiãs com laços.

Grandes laços e volumes pontuais preservam o humor que acompanha a marca.

A diferença está na edição. O desfile teve menos looks e uma construção mais direta que temporadas anteriores.

Sandy Liang Primavera 2027 coloca a fantasia no cotidiano

Sandy Liang já construiu um universo imediatamente reconhecível.

Laços, cetim, rosa, vestidos curtos e referências à infância aparecem com tanta frequência que viraram códigos da marca.

Para a Primavera 2027, a designer decidiu trabalhar esse repertório dentro de roupas mais práticas.

Liang definiu a coleção como feminina, confortável e fácil, com alguns momentos de “hyper sport”.

Jaquetas esportivas e pullovers aparecem com saias curtas de cetim. O primeiro look combina um pullover preto simples com minissaia, kitten heels rosa-choque e uma pochete de aparência técnica.

O kitten heel é um salto fino e baixo, geralmente com poucos centímetros de altura. Popularizado principalmente entre os anos 1950 e 1960, voltou a ganhar espaço nos últimos anos.

A bolsa esportiva do look traz uma etiqueta escrita “Sandy Liang x 3000”, uma brincadeira que a designer associou ao visual do athleisure dos anos 2000.

O que é gorpcore?

Alguns acessórios entram no território gorpcore, termo recente usado para descrever a incorporação de roupas e acessórios originalmente criados para atividades outdoor ao guarda-roupa urbano.

Mochilas técnicas, fleece, parkas, calçados de trilha e pochetes são alguns exemplos.

Na Sandy Liang, essa praticidade aparece ao lado de cetim, laços, lingerie e pequenos detalhes lúdicos.

Depois da colaboração esgotada com a marca de lingerie Cou Cou Intimates, Liang também expandiu a presença de tops de sutiã em cetim e nylon. Eles podem funcionar como underwear ou serem usados sozinhos.

Malhas coloridas aparecem ao lado das tradicionais saias da marca.

Uma das peças mais simples é também uma das mais interessantes: um vestido preto de cetim com as costas abertas. Duas longas tiras que normalmente poderiam terminar em um laço permanecem soltas.

Para uma designer cuja imagem está tão ligada aos bows, deixar justamente o laço desfeito é um detalhe pequeno, mas bastante consciente.

Quem procura a Sandy Liang mais fantasiosa ainda encontra coelhos nos chinelos de couro e pequenas bolsas de cetim cobertas por bolsos externos.

The People’s Runway coloca cinco novos designers no calendário

O nome KidSuper apareceu durante a NYFW, mas existe uma diferença importante: Colm Dillane não apresentou uma coleção da KidSuper em Nova York.

O designer, que normalmente desfila sua própria marca em Paris, atuou como organizador da segunda edição do The People’s Runway, ao lado do presidente do Brooklyn, Antonio Reynoso.

O evento aconteceu nas escadarias do Brooklyn Borough Hall e foi aberto ao público.

Cinco designers locais foram selecionados entre mais de 300 inscritos: Kuai Li, Lamin Rey Jaiteh, Laurel Tiange Fang, Moses Aina e Roderick Reyes. Cada um recebeu apoio financeiro, mentoria e uma plataforma durante a semana de moda.

A iniciativa é interessante justamente porque Fashion Week costuma funcionar através de convites, relações comerciais e altos custos de produção.

Aqui, a proposta era diferente: transformar um prédio público do Brooklyn em passarela e dar visibilidade a designers que ainda estão construindo suas marcas.

Laurel Tiange Fang, por exemplo, apresentou trabalhos ligados à sua experiência com mergulho e à relação com o oceano. Sua marca, Laurel Blue, trabalha na interseção entre moda, tecnologia e natureza.

Kuai Li desenvolve roupas escultóricas e investiga a relação entre corpo, estrutura e espaço. Lamin Rey Jaiteh mistura alfaiataria e streetwear a partir de sua experiência entre Gâmbia, Harlem e Nova York. Moses Aina trabalha moda e arte através da IGBO-SISUN, enquanto Roderick Reyes parte de sua formação em alfaiataria e de sua história como nova-iorquino filho de imigrantes dominicanos e mexicanos.

O encerramento trouxe Wyclef Jean ao palco. Em seguida, Ms. Lauryn Hill apareceu de surpresa, reunindo os dois ex-integrantes dos Fugees diante do público.

Mais do que mais um “desfile da KidSuper”, o evento funciona como uma pequena infraestrutura para novos designers dentro da própria semana de moda.

COS desfila em Nova York, mas apresenta Outono 2026

A presença da COS exige outra explicação.

Embora o desfile tenha acontecido em 13 de setembro de 2026, durante a NYFW Primavera 2027, a própria Vogue Runway classifica a coleção como Outono 2026 Ready-to-Wear. Portanto, não seria correto chamá-la de coleção Primavera 2027.

Karin Gustafsson apresentou a coleção no Financial District de Nova York.

As notas do desfile descreviam a proposta como um diálogo entre o modernismo corporativo e a decadência dos anos 1920.

Isso aparece logo nos primeiros looks.

Casacos oversized, alfaiataria monocromática e tricôs amarrados à cintura aparecem ao lado de vestidos com cintura baixa.

Essa cintura deslocada para perto do quadril é uma referência direta à silhueta dos anos 1920, década marcada pelos vestidos retos e pelas chamadas flappers.

Flappers eram mulheres jovens associadas à cultura urbana e à maior liberdade social do período. Na moda, ficaram ligadas a vestidos de cintura baixa, barras mais curtas, franjas e uma silhueta menos marcada.

Na COS, a referência aparece limpa e reduzida.

Há ternos, longos casacos de couro, saias com franjas verticais, slip dresses, bordados florais vazados e um vestido roxo fluido usado com loafers.

Por que a COS aparece tanto quando se fala em quiet luxury?

Fundada em 2007, a COS construiu sua imagem com linhas minimalistas, materiais de aparência sofisticada e pouca presença de logos.

Quando o termo quiet luxury ganhou força nos últimos anos, essa estética já fazia parte da marca.

Quiet luxury descreve um tipo de roupa ou design baseado em bons materiais, cortes precisos e pouca sinalização ostensiva de marca. O termo é recente; a linguagem visual, não.

Na coleção apresentada em Nova York, Gustafsson mantém essa direção com lãs dupla-face, couro, cashmere e alfaiataria limpa.

O desfile também foi interrompido por ativistas da PETA em protesto contra o uso de lã, episódio que acabou gerando repercussão durante a semana.

O que esses desfiles mostram sobre a temporada?

Com tantas propostas diferentes, tentar encontrar uma “estética única” para a NYFW Primavera 2027 seria precipitado.

Alguns sinais, porém, começam a se repetir.

Drapeados aparecem em Prabal Gurung. Transparências e lingerie entram em Khaite e Sandy Liang. Materiais trabalhados ganham espaço na Area. Styling menos rígido atravessa praticamente todas essas coleções.

Também existe uma vontade clara de trazer personalidade de volta ao guarda-roupa.

A própria Vogue apontou antes do início dos desfiles uma possível saída da estética extremamente controlada da chamada clean girl, com mais drapeados, transparências, romantismo, cor e styling individual na Primavera/Verão 2027.

Essa leitura aparece nas passarelas sem exigir que todas as marcas façam a mesma coisa.

Prabal Gurung procura liberdade através do movimento do tecido. Khaite recupera renda e lingerie histórica. Area trabalha materiais quase improvisados. Sandy Liang transforma roupas esportivas através de seus próprios códigos.

E, em Brooklyn, o The People’s Runway lembra que uma semana de moda também pode ser relevante pelo acesso que cria, não apenas pelas marcas que já ocupam o centro da indústria.

Nova York continua difícil de colocar em uma única caixa

Os desfiles do fim de semana mostram justamente a diversidade que mantém a semana de moda americana interessante.

Uma mesma agenda comportou o minimalismo fluido de Prabal Gurung, a nova fase romântica da Khaite, a experimentação da Area, o sport feminino de Sandy Liang e cinco designers independentes ocupando as escadarias do Borough Hall.

É uma leitura mais útil da NYFW Primavera 2027 do que tentar declarar uma única tendência dominante antes mesmo de a temporada internacional terminar.

Londres, Milão e Paris ainda vão acrescentar outras referências a essa conversa. Em Nova York, pelo menos por enquanto, personalidade parece importar tanto quanto tendência.

FOTOS: VOGUE RUNWAY

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