Corseteria leve, alfaiataria escura, renda e bordados aparecem em um desfile concebido por Nick Knight e SHOWstudio.

A H&M Studio Fall 2026 chegou à London Fashion Week em um evento que reuniu roupa, fotografia, dança, música e imagem digital. A coleção Studio apareceu dentro do projeto H&M&YOU&I, concebido com Nick Knight e SHOWstudio no Olympia London em 17 de setembro.
Um detalhe do calendário merece explicação: enquanto a London Fashion Week apresentava principalmente coleções Spring/Summer 2027, a H&M levou às passarelas peças de Autumn/Winter 2026. A estratégia segue a lógica see now, buy now, em que a roupa apresentada chega ao consumidor muito mais perto do momento do desfile.
A H&M Studio é a linha de edição limitada da varejista sueca, utilizada para desenvolver propostas mais direcionadas em materiais, construção e styling. Nesta temporada, a equipe comandada por Ann-Sofie Johansson partiu de Palermo e das fotografias em claro-escuro do italiano Fernando Scianna.



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H&M Studio Fall 2026 começa na Sicília
A equipe da H&M realizou uma viagem de pesquisa a Palermo para desenvolver a coleção.
Outra referência central veio de Fernando Scianna, fotógrafo siciliano nascido em Bagheria e integrante da agência Magnum. Seu trabalho é conhecido pelo uso expressivo de luz e sombra e pela documentação da vida, das tradições e das ruas da Sicília.
Scianna também tem uma ligação importante com a história da fotografia de moda. Nos anos 1980, colaborou com Dolce & Gabbana durante a fase inicial da marca, produzindo imagens que ajudaram a estabelecer aquela leitura cinematográfica e profundamente siciliana associada aos designers.
Essa informação ajuda a entender a coleção melhor do que classificá-la simplesmente como “gótica” ou “fetichista”.
O preto domina grande parte dos looks, acompanhado de branco e marfim. Renda, cetim, bordados escuros e superfícies de diferentes densidades criam o mesmo jogo de luz e sombra encontrado na fotografia que serviu como referência.
Há também ecos de La Dolce Vita, de Federico Fellini. O início do bloco Studio colocou as modelos no escuro segurando flashes semelhantes aos usados por paparazzi. O termo “paparazzo”, vale lembrar, tornou-se popular justamente a partir do fotógrafo chamado Paparazzo no filme de Fellini, lançado em 1960.
Alfaiataria escura estrutura a coleção
Casacos de ombros marcados, blazers estreitos e camisas com pences criaram boa parte da estrutura.
A pence é uma dobra costurada no tecido para modelar a roupa ao corpo. Em camisas e vestidos, permite ajustar cintura, busto ou costas sem depender de recortes externos muito evidentes.
A H&M Studio explorou esse recurso em camisas bastante ajustadas, acompanhadas por alfaiataria escura e corseteria leve.
Os casacos foram produzidos com lã Monteco e receberam ombros definidos. Ao lado deles, malhas caneladas de cava baixa e gola xale acompanhavam o corpo de maneira mais próxima.
A coleção também trouxe jaquetas curtas, calças de linha reta e peças mais leves usadas em camadas.
O corset aparece sem dominar a silhueta
Corsets e recortes inspirados na corseteria aparecem em diferentes pontos da coleção.
O elemento tem uma história longa na moda ocidental. Tradicionalmente usado para estruturar o torso, voltou várias vezes ao vestuário contemporâneo sem necessariamente manter sua construção rígida original.
Na H&M Studio, a referência aparece de forma leve: costuras, recortes e modelagens desenham o torso, enquanto renda, cetim e transparências mantêm movimento.
Algumas combinações deixam lingerie ou camadas de aparência íntima visíveis por baixo da alfaiataria.
Essa exposição calculada das roupas internas ajuda a criar a leitura sensual observada no desfile.
Renda, cetim e bordados dão profundidade ao preto
A presença de preto em grande parte da coleção exigiu variedade de superfícies.
Saias de cetim receberam acabamentos de renda. Slip dresses trouxeram linhas mais fluidas. Camisas ganharam golas e punhos duplicados.
O slip dress vem da camisola íntima usada sob vestidos. A partir especialmente dos anos 1990, passou definitivamente para o guarda-roupa externo, mantendo alças finas, tecido fluido e construção próxima da lingerie.
Na H&M Studio, essa linguagem aparece ao lado de casacos e alfaiataria.
Vestidos e saias também receberam bordados de folhagens escuras em grandes concentrações. O desenho só se revela completamente quando tecido e corpo se movimentam.
Nos pés, pumps baixos e pontudos apareceram com textura semelhante a pelos nas partes superiores.
O resultado visual pode acionar referências neovitorianas ou ao romantismo sombrio, especialmente pela mistura de corseteria, renda e preto. Essas classificações ajudam a descrever a imagem, mas não foram apresentadas pela marca como tema oficial. A origem documentada da coleção está em Palermo, Scianna e na fotografia de forte contraste.
Nick Knight leva a fotografia para a passarela
A apresentação foi concebida por Nick Knight, fotógrafo britânico e fundador do SHOWstudio.
Knight ocupa uma posição particular dentro da moda porque trabalha há décadas na fronteira entre fotografia, filme e novas tecnologias de imagem. O SHOWstudio, criado em 2000, tornou-se uma das primeiras plataformas relevantes a tratar vídeo e transmissão digital como parte da própria produção de moda.
No H&M&YOU&I, essa pesquisa chegou à passarela.
Modelos caminharam diante de telas que transformavam suas imagens em tempo real. A apresentação utilizou imagens captadas previamente em estúdio e ferramentas digitais, incluindo inteligência artificial, para gerar novas interpretações visuais durante o evento.
O show também contou com dança e música, com trilha de Labrinth. A bailarina brasileira Ingrid Silva participou da abertura.
O protesto do PETA interrompe o desfile
Três ativistas do PETA entraram separadamente na passarela durante o evento para protestar contra o uso de lã pela H&M. Os cartazes pediam que a empresa deixasse de utilizar o material.
O grupo afirma que investigações realizadas em fazendas de diferentes países documentaram maus-tratos durante processos relacionados à produção de lã. A H&M, por sua vez, declarou manter políticas de bem-estar animal e padrões para obtenção responsável da matéria-prima.
A manifestação aconteceu poucos dias depois de outro protesto do PETA em um desfile da COS, marca pertencente ao H&M Group, durante a New York Fashion Week. A intervenção em Nova York ganhou repercussão adicional após o então CEO do CFDA, Steven Kolb, conter fisicamente manifestantes na passarela; ele posteriormente deixou o cargo.
Em Londres, os três ativistas foram retirados sem um confronto semelhante.
Por que a coleção é Fall 2026 durante a Spring 2027?
A diferença de nomenclatura pode causar confusão.
As grandes semanas de moda trabalham tradicionalmente com antecedência: em setembro de 2026, boa parte dos designers está mostrando o que chegará ao mercado na primavera de 2027 no Hemisfério Norte.
A H&M adotou outra lógica para este evento.
O desfile reuniu três drops femininos de Autumn 2026, além da H&M Studio e da linha masculina H&M Atelier. Parte das peças estava ligada ao modelo de compra imediata ou lançamento muito próximo da apresentação.
A coleção H&M Studio A/W 2026 tem lançamento marcado para 24 de setembro.
A H&M Studio trabalha imagem e roupa no mesmo projeto
A H&M Studio Fall 2026 encontrou em Palermo e na fotografia de Fernando Scianna uma base visual coerente para alfaiataria escura, renda, corseteria e bordados.
Nick Knight ampliou essa referência ao transformar a própria passarela em uma experiência de imagem, com flashes, telas, movimento e processamento digital.
Para a H&M, o evento também mostra uma maneira diferente de ocupar uma fashion week: apresentar roupas da estação corrente, trabalhar com compra próxima ao desfile e tratar o espetáculo como conteúdo produzido simultaneamente para quem está no espaço e para quem acompanha pelas telas.
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