HARRIS REED, S.S. DALEY, BORA AKSU, DI PETSA, RICHARD QUINN, ROKSANDA, SIMONE ROCHA, ERDE, ASHISH E BURBERRY FORAM OS DESTAQUES DA SEMANA DE MODA DE LONDRES.

A London Fashion Week de Fall/Winter 2025 ocorre entre os dias 20 e 24 de fevereiro. O que vemos no calendário da vez é que muitas marcas londrinas abriram mão de seus tradicionais desfiles para reduzirem os gastos. A semana começa com a esperada passarela de Harris Reed e finaliza com a Burberry.
Veteranos como Simone Rocha, Erdem, Fashion East e Richard Quinn mantêm seus desfiles físicos. No entanto, Knwls, Karoline Vitto, Johanna Parv e Stefan Cooke são alguns exemplos de marcas que optam por lookbooks e/ou fashion films. Chet Lo está de volta ao calendário, enquanto JW Anderson não desfila devido a mais um capítulo da dança das cadeiras na moda. Além dele, Nensi Dojaka também pula a edição, mas promete retornar em setembro.
Aaron Esh, Patrick McDowell e 16Arlington apresentam suas coleções de forma mais intimista, com jantares exclusivos. Para fechar com chave de ouro, o BFC organiza um showroom coletivo do Newgen – onde estilistas emergentes poderão se conectar diretamente com compradores, imprensa e consumidores.
Vale lembrar que a semana de moda comemorou seu 40º aniversário na edição anterior. Dessa vez, a LFW ensaia a despedida da supervisão de Caroline Rush, CEO da British Fashion Council, após 16 anos. Quem assumirá a próxima temporada será a ex-editora da Vogue britânica e diretora criativa de Selfridges, Laura Weir.
A mudança na supervisão somada à programação reduzida é uma oportunidade para reconsiderar novamente o batidão intenso de desfiles. São novos tempos desafiadores, em que a queda nas vendas tem feito as marcas enxugarem os custos e repensarem a abordagem ao cliente final. Enquanto isso, vamos aos destaques da London Fashion Week!
Harris Reed
Harris Reed deu início à London Fashion Week Fall/Winter 2025 com um desfile dramático, elegante e, especialmente, desconfortável. O designer britânico convocou a atriz Florence Pugh para abrir a passarela ao som de Metallica tocado por violoncelistas.
Suas inspirações para a coleção foram desde móveis domésticos, até turbulência política, punk britânico, ícones drag e mulheres vitorianas. Dessa forma, os looks remeteram àqueles apresentados por Reed em sua primeira coleção durante a pandemia.
Com abordagem mais artística, o desfile começou monocromático em preto. Detalhes em azul cobalto e dourado deram sequência, em especial através de tentáculos impressos em 3D e folhas de ouro aplicadas na região dos seios.
As silhuetas pontudas e as gaiolas expostas foram inspiradas pelo costureiro Charles James, além de fazerem referência a sua colaboração de móveis com a Porta Romana. Tudo indicava ao desconforto, ao que Harris Reed justifica pelo fato de seus looks sao voltados para o tapete vermelho.
Todos esses fatores se encontram na mensagem de Florence Pugh durante o monólogo na passarela. Segundo ela, Reed quer que sejamos corajosos e não peçamos desculpas por sermos quem somos e mostrarmos nossos lados mais desconfortáveis.
S.S. DALEY
Steven Stokey Daley levou os arquétipos britânicos à passarela de Londres, com desfile bem humorado e cheio de referências à cultura inglesa. Os looks do Outono/Inverno se destacam pela pegada de wearable art, com pinturas modernas estampadas em camisas, trench coats e leggings.
O toque urbano e debochado permeia toda a coleção, a começar pela paleta de cores divertida. As silhuetas comuns são retrabalhadas: sobretudos, xadrezes clássicos, duffle coats, donkey coats se contrapõe às leggings, calças soltinhas, cardigans e shorts curtos.
As saias balonê encerram o desfile e amarram muito bem o conceito despreocupado de Daley. Uma abordagem engraçada, porém sem deixar de entregar roupas desejáveis. Juntas, elas mostram o melhor que a moda britânica tem a oferecer.
BORA AKSU
O desfile de Bora Aksu na London Fashion Week presta homenagem à Imperatriz Sisi da Áustria, conhecida como a “rainha da beleza”. Para isso, a coleção de Outono/Inverno da marca mergulha na dualidade da beleza e da tristeza – com direito a símbolos da corte austríaca combinados com elementos mais sombrios.
O designer turco se manteve fiel à essência romântica ao entregar babados monocromáticos, véus assustadores e luvas pretas de ópera. Além disso, faixas de renda, mangas bluson e tule em camadas são presença constante na passarela.
A grandeza austríaca se faz presente nas jaquetas e sobretudos estruturados, véus amplos e rendas intrincadas. Enquanto isso, o íntimo da Imperatriz Sisi aparece nas silhuetas fluidas, alfaiataria afiada e contrastes dinâmicos. O conjunto fica ainda mais interessante com a adição de chapéus de montaria de veludo – os acessórios favoritos da personagem histórica!
As cores predominantes são brancos e cremes, com algumas adições de vermelhos fortes, roxos e azul-náutico. A abundância de texturas, especialmente a renda branca delicada, deixam a brincadeira ainda mais interessante. O resultado é uma coleção delicada, porém moderna e descomprometida.
DI PETSA
Dimitra Petsa fala sobre os desejos e a sexualidade feminina em sua coleção intitulada “Reflexões do Desejo“. O desfile da London Fashion Week está diretamente relacionado ao livro escrito pela designer, que será lançado ainda em 2025. Cada um dos looks faz referência a um personagem: desde escritores e artistas introspectivos até musas sensuais, ídolos históricos e místicos.
Di Petsa entrega sensualidade com muita pele à mostra através de recortes, decotes e fendas. Os característicos vestidos molhados aparecem em tons de vermelho, preto e marrom. Dessa vez, eles se diferenciam das coleções anteriores pelos detalhes em renda nos mamilos e pelas joias conectadas da pélvis à garganta.
A alfaiataria também evoluiu, em especial graças aos casacos retos de mistura de lã com veludos pretos e aos drapeados de couro com pele vegana. O desfile contou com várias noivas e uma estampa de beijos, que a estilista passou horas construindo com os próprios lábios e seu batom favorito. Tudo perfeitamente alinhado com a história.
RICHARD QUINN
Richard Quinn nos convoca a sonhar, brincar e resgatar aquele olhar lúdico para a moda em seu desfile na London Fashion Week. Sua coleção de Outono/Inverno 2025 foi imaginada para o final de uma festa black tie privada, em que a neve cai sob a luz da lua. Dessa forma, os looks trazem ares de alta costura dos anos 1950 e 1960.
O que vemos são muitos espartilhos, saias drapeadas, decotes enfaixados e laços de cetim. Os bordados de lantejoulas iluminam a passarela ao cravejarem looks inteiros. Enquanto isso, as clássicas estampas florais da marca são raras, porém aparecem em alguns poucos looks ao final da apresentação.
Os vestidos ajustados e as saias amplas convivem em perfeita comunhão com as formas mais retas e justas, mostrando a maestria e a versatilidade de Quinn. O resultado não chega a emocionar, mas é extremamente correto, polido e clássico o tempo todo.
DILARA FINDIKOGLU
Com desfile em um armazém que funciona como boate, Dilara Findikoglu apresentou uma coleção que transmite a veia vanguardista e rebelde britânica. Os looks lembram os de Alexander McQueen no início da carreira. O impacto é diferente, já que os tempos são outros. Ainda assim, a estilista faz os olhos brilharem com suas reconstruções de modelagem e alfaiataria, looks de couro fetichistas, energia gótica e sexy.
A coleção de Outono/Inverno 2025 mistura referências de punk com elementos medievais vitorianos, incluindo muitos alfinetes que dão vida a um efeito bordado inovador e rebelde. Destaque para as roupas feitas com cabelo e aos vestidos delicados – que combinam babados inusitados, com amarrações de corsets e plumas compactas, de maneira a exalar força e empoderamento.
É como se Dilara quisesse criar seu próprio rococó punk. Há nela uma moda inconformada, porém mais delicada e sensual em comparação a McQueen. O desfile da London Fashion Week reafirmou que a vanguarda londrina se mantém viva – e ainda bem!
ROKSANDA
Roksanda apresentou uma coleção mais rebuscada na London Fashion Week, com toques de wearable art, texturas e formas exageradas. A coleção de Outono/Inverno gira em torno do trabalho de Dame Phyllida Barlow, artista visual britânica que utilizava materiais recicláveis em suas criações.
Os looks são equilibrados, com momentos minimalistas e outros maximalistas. Roksanda começa o desfile com alfaiatarias oversized, que transmite a imagem de mulher poderosa dos anos 1980. Então, as peças começam a ganhar cores fortes, maxi paetês e modelagem quadradas – especialmente em blusas em estrutura, saias assimétricas e vestidos que parecem escorregar pelo corpo.
Rolos curviformes, drapeados suaves e texturas selvagens são elementos que se destacam no trabalho escultural da marca. Próximo ao final, os looks ganham caráter mais experimental, com desdobramentos e utilização de materiais descartados em busca de novas formas. Uma abordagem corajosa e inovadora – tudo a ver com o discurso de Barlow que ecoava ao fundo.
SIMONE ROCHA
Simone Rocha olhou para os 15 anos de história da marca para criar uma coleção inspirada em personagens e arquétipos extraídos da memória, nostalgia e imaginação. Além disso, a designer resgatou uma conversa que teve com a diretora de sua antiga escola, em que foi tocada pela fábula da “Lebre e da Tartaruga”.
O que vemos não é um desfile usual de Simone Rocha, cheio de frufrus e laçarotes. Porém, uma versão mais intensa dela mesma, com paleta de cores pesada e composições mais sérias.
As peças trazem muito couro em coletes, saias, tops, barras e estolas. O toque rústico rivaliza com os tradicionais vestidos acetinados, transparências, florais românticos e fitas imensas que cruzavam peças inteiras. Destaque também para os casacos de pele falsa, que remetem à lebre da história, e aos cadeados nos cintos.
ERDEM
O desfile de Erdem Moralioglu na London Fashion Week foi marcado pela colaboração com o pintor Kaye Donachie. Sensível, a coleção teve como destaque uma homenagem à mãe de Donachie, que morreu tragicamente jovem em 2007. Seu rosto estava estampado logo no primeiro look que cruzou a passarela.
Erdem apresenta uma coleção uniforme em conceito, com modelagem clássicas, sem desconstruções ou desdobramentos. O foco aqui está nos efeitos e técnicas empregadas às peças. As estampas chegam leves e delicadas, enquanto os bordados tridimensionais quase saltam das peças e harmonizam com o tema.
Os esboços de Moralioglu evocam a impressão de vestidos e ternos de cintura marcada, casacos casulo e vestidos justos dos anos 1950. Tudo precisa de um segundo olhar: desde os brilhos delicados até os patchworks e babados costurados de maneiras complexas.
O resultado de tudo isso é uma coleção feminina clássica, de fácil leitura e elementos conceituais. Eles elevam a sofisticação da proposta romântica e, ao mesmo tempo nostálgica, porém sem perder a assinatura do estilista.
ASHISH
Ashish Gupta realizou seu segundo desfile nos últimos cinco anos com apoio do British Fashion Council. A apresentação se coloca como uma das melhores da London Fashion Week não pelos looks apoteóticos ou conceitos mirabolantes, mas pela simplicidade e bom humor.
A começar pelo cenário: o espaço do desfile foi decorado com balões murchos e confetes cansados. Enquanto um DJ tocava, as modelos cruzavam a passarela mascando chiclete e até com clipes de papel presos em seus cabelos – tudo apontava para um clima típico de fim de festa!
No entanto, o pulo do gato de Ashish é o punhado de ideias despretensiosas que dão certo. Looks com modelagens básicas ganham ar especial graças ao paetês. Os brilhos dominaram praticamente toda a coleção, tanto lisos como em padrões e estampas.
As peças em crochê colorido e as camisetas com mensagens provocativas, incluindo críticas ao fascismo, também merecem destaque no desfile. Com isso, Ashish debocha das dificuldades e mostra que não é preciso muito para causar um grande efeito.
BURBERRY
Burberry foi a responsável por fechar a London Fashion Week, com desfile realizado no Tate Museum. Daniel Lee entregou uma das apresentações mais sofisticadas de sua era na marca – com direito à presença de diversas celebridades, tanto na passarela quanto na fila A.
Os looks da coleção de Outono/Inverno 2025 possuem cores invernais e vibe funcional, porém mais “vida real”. Eles mostram uma Burberry mais madura e bem resolvida, que não depende de se apoiar nos elementos clássicos que a fizeram famosa.
As principais matérias-primas utilizadas são veludos e tecidos pesados. Além disso, Lee agrega texturas de lã e peles com elegância. O xadrez está presente em versões mais escuras, sóbrias e distantes do que estamos acostumados da marca. Ele mistura referências de boho e militar com descrição.
O estilista aposta em peças certeiras, porém sem se perder em conceitos complexos. Um exemplo é o trench coat, que dessa vez aparece com franjas. Os homens usam pijamas acetinados, sobretudos e alfaiataria fechada. Enquanto isso, as mulheres aparecem com jaquetas curtas, saias godê e botas longas.
Todos esses fatores resultam em uma coleção tradicional de inverno, muito boa, porém realista. Cada um dos looks está em total consonância com o espírito pragmático que domina as grandes marcas atualmente – e assim chega ao fim mais uma semana de moda!
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