Do minimalismo propositalmente imperfeito de Simone Bellotti à nova Marni de Meryll Rogge, seis coleções ajudam a desenhar a primavera 2027 em Milão.

A Milão Fashion Week 2027 continua mostrando que identidade não precisa significar repetir a mesma fórmula a cada temporada.
Na Jil Sander, Simone Bellotti questiona justamente o minimalismo que tornou a casa famosa. Maria Grazia Chiuri avança em sua segunda coleção ready-to-wear para a Fendi com uma imagem mais definida de seu guarda-roupa compartilhado entre feminino e masculino. Já a MM6 trata camisa, suéter e calça como objetos que podem mudar de função sem deixar de ser reconhecíveis.
Missoni e Etro seguem por outro caminho. Alberto Caliri pensa a roupa a partir de movimento, viagem e conforto. Na Etro, paisleys, franjas e transparências aparecem mais leves. Meryll Rogge, por sua vez, usa sua segunda temporada na Marni para aprofundar uma linguagem de cor, sportswear e estranheza calculada.
Jil Sander: o minimalismo deixa de buscar perfeição
Simone Bellotti assumiu a Jil Sander diante de um problema curioso: o minimalismo que tornou a marca tão influente agora está em praticamente toda parte.
Foi a própria questão levantada pelo designer ao desenvolver a Spring 2027. Para Bellotti, uma roupa simplesmente perfeita, limpa e bem construída já não basta para diferenciar a Jil Sander.
Sua resposta foi introduzir pequenas interferências.



A coleção começa e termina perto dos códigos históricos da casa, com peças enxutas, couro preto, alfaiataria precisa e proporções alongadas. No centro do desfile, as coisas ficam menos controladas.
Pregas, assimetrias, volumes deslocados e elementos que parecem ligeiramente fora do lugar interrompem a superfície limpa das roupas.
Bellotti descreveu a coleção como uma onda: contida nas extremidades e progressivamente mais instável no centro.
Essa ideia funciona especialmente bem dentro da Jil Sander porque a marca construiu grande parte de sua reputação a partir de precisão, materiais sofisticados e redução visual.
O minimalismo aqui continua presente. Só perdeu aquela obrigação de parecer intocável.
Por que Jil Sander virou referência de minimalismo?
A alemã Jil Sander foi uma das principais responsáveis por estabelecer uma linguagem de luxo baseada em corte, tecido e proporção, especialmente entre os anos 1980 e 1990.
Suas roupas evitavam ornamentação excessiva e tinham forte relação com tailoring, funcionalidade e materiais de alta qualidade.
É justamente esse legado que torna interessante a proposta atual de Bellotti: adicionar alguma irregularidade sem abandonar a estrutura que sustenta a marca.
Fendi: Maria Grazia Chiuri define melhor seu novo guarda-roupa
Na Fendi Spring 2027, Maria Grazia Chiuri chega à segunda coleção ready-to-wear desde seu retorno à casa romana.
E retorno é a palavra correta.
Antes de Valentino e Dior, Chiuri trabalhou na Fendi entre 1989 e 1999, período em que participou do desenvolvimento de acessórios e esteve envolvida na criação da Baguette ao lado de Silvia Venturini Fendi.
Agora, sua relação com a marca acontece de outra posição.



A Spring 2027 mantém uma ideia que Chiuri começou a desenvolver desde sua chegada: um guarda-roupa compartilhado entre homens e mulheres.
Alfaiataria de construção mais solta, camisas abertas, shorts de seda com renda e peças de aparência masculina transitam entre os dois.
O preto aparece bastante, acompanhado por marrons, dourados e pontos de cor.
Há vestidos com grandes recortes marcados por ilhoses, franjas de contas e peles, além de casacos com padrões geométricos da Fendi.
A sensualidade entra muito pela abertura das roupas. Camisas deixam o peito exposto, vestidos são recortados nas costas e lingerie aparece integrada ao styling.
Raffaella Carrà e Adriano Celentano entram na trilha
A cultura pop italiana também participou diretamente da apresentação.
A trilha usou Prisencolinensinainciusol, música lançada por Adriano Celentano em 1972 com uma letra formada por palavras sem sentido que imitavam o som do inglês.
Também apareceu Rumore, de Raffaella Carrà, um dos nomes mais reconhecidos da música e televisão italiana.
A referência ajuda a localizar o desfile numa Itália bastante específica: popular, televisiva, performática e menos solene.
Entre os acessórios, Chiuri também apresentou uma nova versão da Baguette, reduzida praticamente ao tamanho necessário para carregar um telefone.
A bolsa original surgiu em 1997 e recebeu esse nome pela maneira como podia ser carregada sob o braço, lembrando uma baguete francesa. Ela se tornou um dos produtos mais importantes da história recente da Fendi.
[INSERIR IMAGEM 2 AQUI]
Sugestão: look Fendi com alfaiataria ou vestido preto com recortes.
Alt text: Fendi Spring 2027 de Maria Grazia Chiuri em Milão
MM6: uma camisa não precisa continuar sendo camisa
A MM6 partiu de uma ideia muito simples: vestir uma peça no lugar “errado”.
Uma camisa vira vestido. Uma calça se transforma em minissaia. Um suéter desce da parte superior do corpo e passa a funcionar como saia.
O interessante está no fato de que nenhuma dessas peças perde completamente sua identidade original.
A camisa ainda parece camisa. O suéter continua reconhecível como suéter.



O que muda são os pontos de entrada, as proporções e a maneira de fechar.
Essa lógica tem relação direta com a história da Maison Margiela, onde objetos e roupas frequentemente são deslocados de sua função original.
Na MM6, linha criada em 1997 dentro do universo Margiela, esse pensamento costuma aparecer de maneira mais direta, urbana e acessível.
O que é a “hip-paulette”?
O estúdio criou nesta temporada uma peça chamada hip-paulette, uma brincadeira com a palavra épaulette.
Épaulette é a ombreira ou detalhe aplicado sobre o ombro, muito associado a uniformes militares.
Na MM6, essa lógica foi deslocada para o quadril.
O acessório cria volume em peças usadas como saia e pode ser retirado quando a roupa volta à sua função original.
Há também colarinhos deslocados para a lateral, faixas de smoking colocadas na parte interna da calça e cintos duplicados.
Até as Havaianas entram na brincadeira: seis pares foram empilhados uns sobre os outros, numa referência ao número 6 que identifica a linha MM6.
É um tipo de humor que funciona justamente porque começa com objetos extremamente comuns.
Missoni: Alberto Caliri pensa a roupa em movimento
A Spring 2027 da Missoni parte de uma personagem importante da própria história da casa: Rosita Missoni.
Cofundadora da marca ao lado de Ottavio Missoni, Rosita morreu em janeiro de 2025 e teve papel central na construção da linguagem de cor, malharia e padronagem que tornou a Missoni reconhecível internacionalmente.
Alberto Caliri trabalhou ao lado dela e usou nesta temporada sua maneira de viajar como referência.
A proposta não está presa a um destino.



O foco é a pessoa que se veste em movimento e vai adicionando ou retirando peças ao longo do dia.
Calças balão, modelos de cintura baixa, vestidos amplos, peignoirs e tabards com cordões compõem esse guarda-roupa.
Peignoir vem originalmente do robe leve usado em casa, normalmente sobre lingerie ou roupa de dormir. Na moda contemporânea, o termo também pode definir casacos e vestidos soltos, fluidos e pouco estruturados.
Tabard, por sua vez, é uma peça sem mangas de construção simples, originalmente semelhante a uma túnica. Aqui funciona como camada sobre outras roupas.
As padronagens Missoni começam a se desfazer
Chevron, listras e geometrias continuam presentes.
Mas algumas dessas superfícies parecem mais irregulares, desfiadas ou quase dissolvidas.
Paetês e fios metálicos acrescentam pequenos pontos de brilho entre texturas mais rústicas.
O styling também evita uma composição muito planejada. Meias grossas aparecem com sandálias delicadas, bolsas macias acompanham vestidos volumosos e chapéus amassados entram como objetos funcionais.
Caliri define essa personagem como uma espécie de nômade, embora a ideia esteja ligada muito mais à liberdade de movimento do que a uma localização geográfica.
É uma boa forma de atualizar uma marca cuja história sempre esteve muito associada à roupa de viagem, férias e vida fora de casa.
Etro reduz o peso do próprio boho
A nova coleção da Etro recebeu o nome de Halo.
A palavra significa “halo” ou “aura”, e foi usada de maneira bastante literal: tecidos e estampas parecem formar uma camada em torno do corpo.
Paisleys surgem ampliados, borrados, fragmentados ou quase desaparecendo.
O paisley é um dos códigos mais antigos da Etro. O desenho em forma de gota curva tem origem muito anterior à marca e passou por tradições persas, indianas e europeias antes de se tornar parte importante da moda ocidental.



Na Etro, ele virou praticamente uma assinatura desde os anos 1980.
Na Spring 2027, essa assinatura aparece com menos densidade.
Vestidos fluidos acompanham o corpo sem grande estrutura. Comprimentos curtos recebem caudas longas e leves. Franjas e transparências ampliam a sensação de movimento.
O boho continua reconhecível, principalmente nas estampas, sobreposições e materiais, mas aparece com menos informação concentrada no mesmo look.
O que chamamos de boho?
“Boho” vem de bohemian e descreve uma linguagem de vestir formada por várias referências históricas.
Na moda contemporânea, costuma envolver vestidos fluidos, estampas paisley ou florais, franjas, bordados, camurça, transparências e peças com aparência artesanal.
A Etro trabalha esse universo há décadas, especialmente através das estampas e da combinação de referências culturais.
Em Halo, alfaiataria mais precisa, calças estreitas, denim e jaquetas de camurça impedem que toda a coleção siga apenas pela fluidez.
É uma Etro mais leve visualmente, mas ainda facilmente identificável.
Marni: Meryll Rogge desmonta e reorganiza o guarda-roupa
Meryll Rogge chega à sua segunda coleção para a Marni mais segura sobre o território que quer ocupar.
A designer belga assumiu a marca em 2025 e estreou na passarela no Fall 2026.
Para Spring 2027, continua trabalhando um dos aspectos mais importantes da história da Marni: a liberdade de fazer roupas bonitas parecerem ligeiramente estranhas.
Vestidos tubinho, minissaias, alfaiataria, malhas, parkas e peças esportivas entram em combinações que parecem montadas por tentativa.



Botões surgem fora de posição. Fivelas aparecem onde não seriam necessárias. Recortes abrem partes inesperadas da roupa.
Há também calças cropped, botas que lembram pumps acoplados a canos, listras masculinas, xadrezes e grandes aplicações de paetês.
O vestido tubinho merece contexto.
Popularizado especialmente durante os anos 1960, o shift dress tem construção reta, curta e relativamente afastada do corpo. Sua simplicidade fez dele uma superfície ideal para cor, estampas e elementos gráficos.
Rogge usa exatamente essa característica e adiciona interferências ao desenho limpo.
Sportswear entra no vocabulário da Marni
Parkas, windbreakers, zíperes, tecidos técnicos e elementos retirados da roupa esportiva aparecem com frequência.
Aqui, sportswear não significa simplesmente roupa para praticar esporte.
Na moda, o termo também pode definir um guarda-roupa casual, funcional e composto por peças que circulam facilmente entre diferentes situações.
Rogge usa essa praticidade como base para uma estética mais excêntrica.
O layering é fundamental. Estampas são colocadas umas sobre as outras, cores fortes aparecem em combinações pouco previsíveis e peças de lingerie entram sob roupas mais pesadas.
A própria cenografia do desfile seguiu essa ideia de desmontar e reconstruir. O projeto foi desenvolvido novamente com o estúdio Formafantasma, usando madeira cortada, escavada e remontada para deixar suas camadas aparentes.
Até os convites foram produzidos como pequenos aviões de papel feitos com materiais recuperados dos arquivos da marca.
Há um pensamento de continuidade nesse gesto.
Rogge não trata a chegada à Marni como oportunidade para apagar aquilo que existia antes. Ela usa os elementos disponíveis e reorganiza sua posição.
Algumas dessas marcas utilizam palavras semelhantes para falar de conceitos bastante diferentes.
O minimalismo da Jil Sander vem de uma tradição de precisão e redução. O sportswear da Marni está ligado a praticidade e peças casuais. O boho da Etro passa por paisley, fluidez e artesanato. Já a desconstrução da MM6 vem diretamente do pensamento da Maison Margiela sobre função, proporção e reutilização do guarda-roupa.
Usar esses termos como simples sinônimos de “estética” apaga justamente o que diferencia cada marca.
Milão trabalha identidade sem depender de repetição
As primeiras coleções da Milan Fashion Week 2027 mostram designers procurando espaço dentro de códigos muito estabelecidos.
Simone Bellotti encontrou interesse justamente na imperfeição de uma Jil Sander historicamente precisa. Maria Grazia Chiuri continua definindo sua ideia de Fendi a partir de um guarda-roupa compartilhado e de referências italianas.
MM6 consegue transformar uma camisa simplesmente mudando o lugar onde ela é vestida. Alberto Caliri mantém a Missoni ligada à malharia e ao movimento sem deixar a coleção presa às padronagens mais famosas da casa.
Etro reduz a densidade visual de seus próprios códigos. Meryll Rogge pega o repertório excêntrico da Marni e reorganiza suas peças com uma lógica muito pessoal.
São coleções reconhecíveis sem depender de reproduções literais do passado — e esse talvez seja um dos desafios mais interessantes para as grandes casas hoje.
Fotos: Vogue Runway
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