O estilista belga, conhecido por construir a carreira em torno do anonimato, decidiu abrir o próprio acervo para colecionadores e instituições, em uma operação inédita.



Um dos nomes mais discretos e influentes da moda contemporânea está prestes a abrir o próprio armário. Martin Margiela leiloa arquivo pessoal histórico em Paris no próximo dia 9 de julho, em uma operação inédita: é a primeira vez que um estilista vivo colabora diretamente com uma casa de leilões para colocar à venda o próprio acervo de roupas e criações. O número também impressiona, com mais de 200 lotes em jogo.
Quem assina a empreitada é a Maurice Auction, em parceria com a Kerry Taylor Auctions, casa britânica de referência mundial em leilões de moda de arquivo. O recorte do material cobre o período entre 1984 e 2008, ano em que Margiela decidiu sair da Maison Martin Margiela para se dedicar a projetos pessoais. Algumas peças, no entanto, foram criadas depois, durante a pandemia, em um capítulo mais íntimo da prática do estilista que costuma ficar fora dos holofotes.
Na prática, Martin Margiela leiloa arquivo pessoal completo, composto por fotografias, desenhos e objetos que percorrem a carreira inteira do designer, desde as criações feitas para o Canette d’Or em Antuérpia, em 1984, momento ainda anterior à fundação da Maison Martin Margiela, em 1988. Ou seja, entram no leilão os primeiros gestos de um vocabulário que viria a redefinir a moda nos anos seguintes, com a estética da desconstrução, o anonimato como assinatura e o famoso uso da cor branca.
O próprio Margiela explicou em comunicado que foi a ideia de fazer colecionadores e instituições felizes que finalmente o convenceu a soltar essas peças no mundo. Já Salomé Pirson, comissária e leiloeira responsável pela venda, definiu o estilista como um gênio criativo e afirmou que o arquivo de Martin Margiela revela a amplitude do pensamento dele, não apenas sobre roupas, mas sobre o ser humano. A declaração faz sentido quando se lembra que Margiela inspirou camadas inteiras de designers contemporâneos, e que a marca dele segue sendo uma das mais citadas como referência por quem entrou na moda nas últimas duas décadas.
A venda também tem peso de sintoma. Um estilista que construiu a carreira inteira em torno do conceito de anonimato e do apagamento da figura do autor agora coloca o próprio acervo no martelo. Não é gesto banal. Martin Margiela leiloa arquivo pessoal histórico em vida, e isso transforma a venda, no mesmo movimento, em peça de mercado e marco de estudo, e o dia 9 de julho vai funcionar como uma das datas mais aguardadas do calendário de leilões de moda do ano. A pergunta que sobra é quanto cada peça vai bater de martelo, e quem, ao final, vai entrar para o time dos novos guardiões do legado margieliano.
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