HERMÈSTORIES reúne performance surrealista e exposição gratuita para contar quase dois séculos de savoir-faire da maison francesa.

A Hermès decidiu contar sua própria história sem recorrer a uma retrospectiva convencional. Em HERMÈSTORIES, experiência apresentada em Hong Kong, os quase dois séculos da maison francesa ganham forma por meio de teatro, humor, cenários surreais e uma exposição que aproxima o visitante de alguns dos objetos mais reconhecidos da marca.
Em cartaz no Freespace, no West Kowloon Cultural District, de 24 de outubro a 8 de novembro de 2026, o projeto combina uma peça escrita por Pauline Bayle e dirigida por Joe Hufton com uma instalação que pode ser visitada independentemente da apresentação. A entrada é gratuita, mediante disponibilidade.
A proposta não é simplesmente organizar produtos históricos em vitrines. Bolsas, lenços, materiais, técnicas artesanais e elementos ligados à origem equestre da Hermès tornam-se personagens de uma narrativa que atravessa passado e presente.
É justamente essa escolha que transforma a HERMÈSTORIES em algo entre exposição de moda, experiência teatral e apresentação institucional da maison.
Como funciona a HERMÈSTORIES
A história parte de uma personagem chamada Lad, um groom — figura tradicional ligada ao cuidado dos cavalos — interpretado por uma jovem mulher. A escolha estabelece uma ligação imediata com as origens equestres da Hermès, fundada em Paris em 1837 como fabricante de arreios e selas.
Lad inicia uma caminhada imaginária pela Rue du Faubourg Saint-Honoré, endereço histórico da maison em Paris.
A partir daí, encontros, diálogos, jogos de palavras, músicas e situações inesperadas ajudam a reconstruir episódios e referências da trajetória da marca. O percurso chega a cenários improváveis, incluindo uma vitrine instalada em meio a uma paisagem desértica.
A encenação assume deliberadamente um tom surrealista.
Objetos de cena mudam de função, materiais usados pela maison aparecem em situações inesperadas e diferentes momentos históricos são reorganizados dentro de uma narrativa menos cronológica e mais poética.
O som também nasce do artesanato
Um dos elementos mais incomuns da produção é a presença de um Foley Artist.
Tradicionalmente utilizado no cinema e no teatro para criar efeitos sonoros ao vivo ou em estúdio, o profissional utiliza materiais e gestos associados à própria Hermès para produzir sons durante a apresentação. Couro, fechos e movimentos relacionados ao trabalho artesanal passam também a funcionar como instrumentos narrativos.
A solução aproxima o público do processo de fabricação sem transformar a experiência em uma demonstração técnica convencional.
Em vez de simplesmente explicar como algo é produzido, a performance incorpora os materiais à dramaturgia.
O resultado reforça uma das ideias centrais do projeto: antes de ser reconhecido como um objeto de luxo, cada produto da Hermès passa por uma série de gestos, técnicas e decisões artesanais.
Birkin, Kelly e o savoir-faire entram em cena
A HERMÈSTORIES também funciona como uma apresentação dos diferentes métiers da Hermès.
A maison organiza suas atividades em 16 áreas de savoir-faire, que passam por couro, seda, acessórios, moda, joalheria, relojoaria, perfumes e outras categorias. Essa diversidade aparece ao longo da produção como parte da narrativa.
Entre os objetos apresentados estão algumas das criações mais reconhecíveis da marca.
As bolsas Kelly e Birkin representam a tradição em artigos de couro, enquanto lenços de seda fazem referência tanto à história gráfica da Hermès quanto às sedas coloridas utilizadas por jóqueis em corridas de cavalos.
Há ainda símbolos aparentemente mais simples, como a caixa laranja da maison, que deixam de funcionar apenas como embalagem e assumem papéis dentro da história.
Essa escolha ajuda a apresentar a identidade da Hermès sem reduzir o projeto às peças mais caras ou desejadas da marca.
O foco recai sobre a relação entre objeto, material, criação e memória.
HERMÈSTORIES mostra uma estratégia cada vez mais relevante dentro do luxo: transformar arquivo e heritage em experiência cultural. Em vez de apresentar o passado como algo estático, a Hermès utiliza teatro, som e cenografia para reconstruir sua memória de maneira contemporânea. Essa é uma análise editorial baseada no formato apresentado pela maison.
Uma exposição construída como bastidores de teatro
A experiência continua depois — ou independentemente — da peça.
A exposição da HERMÈSTORIES foi concebida como uma espécie de depósito ou bastidor teatral. O visitante percorre o espaço entre objetos e elementos relacionados às histórias apresentadas no palco.
A instalação permite observar algumas das peças de perto e compreender melhor sua história, construção artesanal e dimensão criativa.
Em vez da organização clássica de um museu, com vitrines alinhadas e sequência cronológica, o cenário mantém a linguagem teatral da produção.
A sensação é de entrar nos bastidores depois que os personagens deixaram o palco.
Esse formato também amplia a experiência para quem não deseja assistir à peça.
A Hermès disponibilizou sessões exclusivas para a exposição a cada 30 minutos, criando duas formas diferentes de visitar o projeto.
Entre memória e futuro
Apesar de abordar uma maison fundada no século XIX, a HERMÈSTORIES evita a nostalgia como eixo principal.
O passado aparece constantemente, mas é reorganizado através de uma linguagem contemporânea.
Essa relação fica evidente na própria personagem central. Lad representa uma função ligada às raízes equestres da Hermès, mas é interpretado por uma jovem mulher descrita como representação da dimensão histórica, moderna e vibrante da casa.
A exposição também aproxima objetos de diferentes períodos sem tratar a história como uma linha encerrada.
O objetivo é mostrar continuidade.
Técnicas são transmitidas, formas evoluem, novos métiers aparecem e objetos passam a adquirir significados diferentes ao longo das gerações.
Moda como experiência cultural

Projetos como a HERMÈSTORIES revelam uma forma particular de comunicação adotada pelas grandes maisons.
Em vez de apresentar apenas uma coleção ou campanha, marcas passam a produzir exposições, instalações e experiências capazes de estabelecer relações mais amplas com arquitetura, arte, teatro e design.
No caso da Hermès, isso é particularmente coerente com uma identidade construída em torno do savoir-faire.
A narrativa coloca artesãos, materiais e processos lado a lado com produtos imediatamente reconhecíveis.
A Birkin ou a Kelly continuam presentes, mas aparecem dentro de uma história maior sobre fabricação, memória e criatividade.
O luxo deixa temporariamente a loja e ocupa o palco.
Serviço
Evento: HERMÈSTORIES
Marca: Hermès
Formato: peça teatral e exposição
Local: Freespace, West Kowloon Cultural District, Hong Kong
Período: 24 de outubro a 8 de novembro de 2026
Peça + exposição — dias úteis: 16h30 e 19h30
Peça + exposição — fins de semana: 14h30 e 17h30
Sem apresentações teatrais: 26 de outubro e 2 de novembro
Exposição — dias úteis: sessões a cada 30 minutos, das 11h às 19h
Exposição — fins de semana: sessões a cada 30 minutos, das 10h30 às 17h
Duração da peça: aproximadamente 50 minutos
Tempo recomendado para a exposição: aproximadamente 30 minutos
Classificação: a partir de 7 anos
Ingresso: gratuito
Reservas: inscrição antecipada recomendada pelo site oficial da Hermès. Walk-ins podem ser aceitos caso haja disponibilidade.
Quando o arquivo vira espetáculo
A HERMÈSTORIES transforma o patrimônio da Hermès em algo que pode ser visto, ouvido e percorrido.
Em vez de contar quase 200 anos de história apenas através de datas e vitrines, a maison escolhe personagens, cenários, sons e situações surrealistas para colocar seu savoir-faire em movimento.
Bolsas como Birkin e Kelly, lenços de seda, materiais artesanais e referências equestres continuam funcionando como símbolos reconhecíveis.
Mas o projeto procura mostrar o que existe ao redor deles: pessoas, gestos, processos, histórias e uma cultura de criação construída desde 1837.
Em Hong Kong, a Hermès não abre apenas seus arquivos.
Ela os coloca em cena.
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