Pela primeira vez, o perfume vira desenho: um curta feito à mão por Ugo Bienvenu transforma a fragrância em heroína e reconstrói a história da casa.

A nova campanha da Miss Dior em animação faz algo inédito na história do perfume mais famoso da casa: transforma a fragrância em personagem de desenho. Pela primeira vez, a Dior levou a Miss Dior para o mundo da animação, num curta original escrito, dirigido e produzido por Ugo Bienvenu ao lado do estúdio francês Remembers. O filme converte o perfume numa heroína animada e, ao mesmo tempo, reconstrói as pessoas, os lugares e as ideias que moldaram a fragrância fundadora da maison. Para uma marca que já usou nomes como Natalie Portman e Sofia Coppola em suas campanhas, apostar no traço desenhado é uma virada e tanto.
O talento por trás do projeto ajuda a entender a ambição. Bienvenu e a Remembers trazem para o filme a mesma linguagem visual poética de “Arco”, o elogiado longa de animação coproduzido por Natalie Portman. A abordagem é fluida e feita à mão, transitando entre a fantasia e a história real da Dior, guiada por uma abelha brincalhona que conduz o espectador por um cenário repleto de rosas, jardins encantados e referências aos códigos eternos da casa. A narrativa se move entre Grasse, no sul da França, e Paris, incorporando figuras e locais centrais na trajetória de Christian Dior.
A história contada no curta mistura memória afetiva e arquivo da marca. Catherine Dior, irmã do costureiro e inspiração por trás do nome da fragrância, aparece ao lado do Château de La Colle Noire, a casa de Christian Dior no interior provençal. O filme também relembra a noite repleta de flores que inspirou a criação do perfume original, antes de avançar até a apresentação do New Look, em 1947, a coleção que mudou a moda para sempre. Referências de arquivo são costuradas à fantasia por meio de assinaturas reconhecíveis da Miss Dior, como o pied-de-poule, os laços oversized e as flores que remetem a campanhas passadas.
O que torna essa campanha em animação especialmente coerente é o paralelo que ela propõe. Ao apostar em técnicas que exigem tempo extenso e conhecimento altamente especializado, a Dior traça uma comparação direta entre a preservação da animação tradicional, feita quadro a quadro, e o savoir-faire por trás da sua alta-costura e das suas fragrâncias. Em vez de tratar o desenho como um truque de marketing, a marca o posiciona como mais uma forma de artesanato, tão exigente e minuciosa quanto costurar um vestido ou compor um perfume. É a maison dizendo que animação também é ofício de luxo.
Vale situar o lançamento no contexto atual da Miss Dior. O curta chega logo depois de a Dior renovar a fragrância e a campanha com Natalie Portman, num filme ensolarado ambientado em Paris que reforçava o slogan clássico do perfume, “o que você faria por amor?”. A versão animada aprofunda esse universo por outro caminho, trocando a atriz de carne e osso por uma heroína desenhada. Ao apostar na nova campanha da Miss Dior em animação, a marca prova que sabe reinventar um ícone de quase oitenta anos sem apagar sua história, tratando o passado não como retrospectiva estática, e sim como parte viva e em constante evolução da sua identidade.









