The Attico celebra dez anos olhando para intimidade e desejo; Dolce & Gabbana mergulha novamente na Sicília; Ferragamo parte de um ícone de 1947; Bottega Veneta suaviza o peso do artesanato e Silvana Armani avança sobre o legado da casa.
A Milan Fashion Week 2027 chega ao fim com coleções que mostram cinco maneiras muito diferentes de trabalhar identidade.
The Attico celebra uma década explorando intimidade, alter egos e um glamour propositalmente desalinhado. Dolce & Gabbana reúne décadas de seu próprio repertório em Stravaganza Siciliana. Maximilian Davis encontra em um sapato criado por Salvatore Ferragamo em 1947 o ponto de partida para fotografia surrealista, cinturas marcadas e transparências.
Na Bottega Veneta, Louise Trotter observa a passagem entre as estações e deixa o trabalho artesanal respirar um pouco mais. Já Silvana Armani apresenta sua segunda coleção feminina à frente da Giorgio Armani e começa a estabelecer com mais clareza a própria mão dentro da casa.
The Attico: dez anos entre cama, festa e alter ego



Gilda Ambrosio e Giorgia Tordini escolheram uma longa sequência de camas para apresentar a The Attico Spring 2027.
O cenário poderia sugerir imediatamente sexo, fetiche ou voyeurismo, mas as designers partiram de outra ideia: intimidade.
A referência conceitual veio da ideia de que cada pessoa carrega uma vida pública, uma privada e uma secreta. A coleção foi construída em torno desta última, o espaço onde alguém pode assumir identidades que talvez não mostre fora dali.
Isso ajuda a contextualizar o desfile para além da leitura cyber noir ou Matrix sugerida por alguns looks.
Há couro, brilho, tecidos rígidos e iridescentes, zíperes utilitários, ombros fortes e peças com uma sensualidade quase agressiva. A imagem toca referências de nightclub, fetiche e ficção científica, mas o ponto de partida está no quarto e nas diferentes versões de uma mesma mulher.
Roupas que parecem ter dormido junto com quem as veste
Boa parte das peças trabalha uma aparência amassada.
Tecidos são torcidos, repuxados e moldados ao redor do corpo como se a roupa tivesse passado a noite inteira em uma cama desarrumada.
Vestidos curtos recebem drapeados irregulares. Saias e tops ficam presos por cordões e laços ajustáveis. Camisas masculinas entram em conflito com decotes profundos, plumas, pelos e transparências.
O dressing gown, ou robe, também retorna.
Essa peça estava entre os códigos iniciais da The Attico, marca fundada em 2016. O próprio nome remete ao apartamento no último andar de um edifício — o attico, em italiano — e as primeiras coleções já carregavam esse imaginário de intimidade, noite e roupa usada dentro e fora de casa.
Dez anos depois, o robe reaparece mais volumoso e teatral.
Veludo também retorna como referência aos primeiros anos da marca.
The Attico nunca dependeu de uma única mulher
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes da coleção.
Ambrosio e Tordini construíram a The Attico sobre uma imagem muito reconhecível de festa, pele e sensualidade, mas nunca precisaram fixar uma silhueta única.
Na Spring 2027, aparecem personagens diferentes: uma figura gótica com piercings, uma mulher coberta de brilho, outra que parece ter saído de uma boate dos anos 1980.
O guarda-roupa muda junto.
Há alfaiataria militar, camisas masculinas, couro, lantejoulas, tecidos que lembram cortinas antigas e materiais inspirados em estofamento.
O resultado mantém aquele glamour meio bagunçado que acompanha a The Attico desde o início.
Dolce & Gabbana: Stravaganza Siciliana abre o guarda-roupa da família



Domenico Dolce e Stefano Gabbana deram um nome bastante direto à coleção: Stravaganza Siciliana.
A Sicília sempre esteve no centro da identidade da marca. Renda preta, corseteria, vestidos de viúva, animal print, crochê, joias religiosas e referências ao sul da Itália aparecem há décadas em suas coleções.
Desta vez, a ideia surgiu de uma imagem específica.
Domenico Dolce descreveu uma jovem entrando no guarda-roupa da própria família em Palermo e misturando roupas dos anos 1920, 1950 e 1970 de maneira instintiva.
A coleção reproduz esse acúmulo de gerações.
O que significa Stravaganza?
Stravaganza carrega a ideia de extravagância, excesso e algo que foge do comum.
Na prática, o nome combina bastante com uma coleção onde várias décadas e códigos da casa aparecem juntos.
Crochês convivem com renda.
Animal prints entram ao lado de denim bordado.
Vestidos transparentes aparecem com franjas, aplicações e peças de lingerie.
Não existe a preocupação de reduzir a quantidade de informação.
Existe, sim, uma tentativa de fazer com que roupas de origens diferentes pareçam pertencer ao mesmo guarda-roupa.
Essa lógica também explica por que o styling é tão importante.
As peças parecem acumuladas por uma personagem ao longo dos anos, e não escolhidas para representar uma década específica.
A Sicília como linguagem permanente
Para Dolce & Gabbana, a Sicília nunca foi uma tendência sazonal.
A região está presente na marca desde os primeiros anos e aparece tanto na roupa quanto nas campanhas, desfiles e construção de imagem.
Essa continuidade ajuda a entender por que uma coleção formada por elementos tão conhecidos ainda funciona dentro da casa.
A Spring 2027 também surge num momento em que a dupla questiona a uniformidade visual criada pelas redes sociais.
Stravaganza Siciliana segue na direção oposta: muita informação, mistura e identidade visual imediatamente reconhecível.
Ferragamo começa por um sapato de 1947



Na Ferragamo, Maximilian Davis foi buscar uma referência muito específica no arquivo: a Invisible Sandal, criada por Salvatore Ferragamo em 1947.
O sapato combinava uma cunha em formato de F com tiras feitas de monofilamento de nylon transparente.
Para a época, o material era extremamente novo.
O efeito fazia com que o pé parecesse quase suspenso sobre a sola.
A peça também ajuda a lembrar que Salvatore Ferragamo não foi apenas um designer de sapatos elegantes. Ele pesquisava anatomia, materiais e técnicas de construção com uma abordagem próxima da engenharia.
A Invisible Sandal levou Davis até o surrealismo, especialmente ao trabalho de Lee Miller e Man Ray.
Quem foi Lee Miller?
Lee Miller foi fotógrafa, modelo e correspondente de guerra americana.
Durante sua passagem por Paris, trabalhou com Man Ray e participou do desenvolvimento da técnica de solarização, processo fotográfico que cria contornos luminosos e inversões parciais de tonalidade na imagem.
Mais tarde, Miller fotografou o Egito e cobriu a Segunda Guerra Mundial para a Vogue britânica.
Esses diferentes momentos de sua trajetória entram na pesquisa de Maximilian Davis.
A solarização aparece traduzida em transparência, luz e superfícies que definem algumas partes do corpo e deixam outras menos nítidas.
A cintura volta ao centro na Ferragamo
Davis também observou a moda dos anos 1940.
A cintura marcada aparece como uma das principais construções da coleção.
Cintos masculinos com fivelas apertam vestidos, alfaiataria e partes superiores. Em alguns casos, dois cintos são usados simultaneamente.
Eles também aparecem no busto, inseridos em corpetes de lã dos quais saem saias de cetim.
A referência histórica não vira reprodução de época.
Ombros ficam arredondados, calças ganham volume e tecidos transparentes deixam estrutura, bolsos e partes internas da alfaiataria visíveis.
Transparência de borracha
Um dos materiais mais interessantes aparece em trench coats e vestidos de borracha colorida.
Quando iluminada, a superfície define o corpo justamente nos pontos em que encosta nele.
Nas áreas em que a roupa se afasta da pele, a silhueta fica menos nítida.
É uma forma bastante inteligente de levar o efeito fotográfico da solarização para a construção da roupa.
Há ainda tecidos secos inspirados pelo período de Lee Miller no Egito, couro craquelado com aparência ressecada e aplicações brilhantes ligadas às experiências fotográficas com luz.
Bottega Veneta observa a passagem das estações



Louise Trotter começou sua terceira coleção para a Bottega Veneta com uma ideia simples: como nos vestimos quando uma estação começa a se transformar em outra.
Ela vive atualmente em Milão e comentou sobre a percepção mais clara das quatro estações na cidade.
A coleção começa protegida.
Casacos recebem ombros acolchoados e ligeiramente ampliados. Algumas barras aparecem amarradas para cima, como se a pessoa precisasse atravessar água.
Aos poucos, a roupa começa a se abrir.
Entram cores mais leves, rendas artesanais, crochês de pontos largos e grandes tramas de intrecciato.
O intrecciato cresce e muda de escala
O intrecciato é uma técnica de trançado de tiras de couro desenvolvida pela Bottega Veneta nos anos 1970.
Ela acabou se tornando um dos códigos mais importantes da maison.
Tradicionalmente associada às bolsas, a técnica há muito tempo ultrapassou os acessórios.
Na Spring 2027, Louise Trotter muda novamente sua escala.
Pequenas tiras de couro trançado viram lenços usados ao redor da cintura.
Em outro momento, o intrecciato cresce muito e passa a funcionar quase como uma grande malha.
Essa mudança mostra um ponto importante do trabalho de Trotter.
Ela parece cada vez mais interessada no que os materiais conseguem fazer do que em construir uma narrativa extensa para justificar cada coleção.
O artesanal fica mais leve
Nas duas primeiras temporadas de Louise Trotter, a quantidade de técnicas disponíveis na Bottega às vezes produzia roupas bastante densas.
Agora há mais espaço.
Patchworks de renda branca feita à mão, crochê aberto, franjas de seda e pregas aparecem sem acumular tudo sobre o mesmo look.
Uma camisa azul de ambiente corporativo pode receber um top lilás por cima e calças amarelo-manteiga.
Um vestido vermelho de algodão recebe franzido na cintura e um nó lateral sobre uma saia cheia de pregas.
Até os brincos seguem essa experimentação: alguns parecem moldados em argila; outros são tecidos em couro e usados de maneira desencontrada.
Giorgio Armani: Silvana começa a reorganizar a casa



A Giorgio Armani Spring 2027 tem um contexto completamente diferente das outras quatro coleções.
É a segunda coleção feminina assinada por Silvana Armani desde que assumiu a principal linha da maison após a morte de Giorgio Armani.
O próprio convite já sugeria mudança: um pequeno cubo de Rubik inteiramente branco.
A passarela também era branca, com uma grande bola de discoteca sobre os modelos.
A referência visual levou a coleção para um ambiente noturno.
Silhuetas pretas e precisas, tuxedo dresses, vestidos em seda líquida e bustiers construídos com tiras de resina metálica aparecem ao longo da apresentação.
Grace Jones entra na pesquisa
A coleção também recupera uma imagem importante na relação entre Giorgio Armani e cultura pop.
Em 1981, Grace Jones apareceu na capa do álbum Nightclubbing usando um blazer preto Giorgio Armani.
A fotografia de Jean-Paul Goude ajudou a construir uma das imagens mais conhecidas da cantora: ombros definidos, corte preciso e uma aparência quase gráfica.
Silvana trabalha uma atmosfera semelhante na Spring 2027.
Preto, branco, metal, alfaiataria e noite sustentam boa parte da coleção.
A referência não aparece como reprodução daquele look.
Está mais próxima de uma ideia de Armani depois que escurece.
O que muda com Silvana Armani?
Silvana passou décadas trabalhando dentro da empresa ao lado do tio.
Isso torna sua posição bastante diferente de um diretor criativo contratado externamente para reinterpretar uma maison.
Ela conhece o sistema por dentro.
Na Spring 2027, a alfaiataria permanece limpa e controlada.
Bermudas de cintura marcada, calças amplas, blazers ajustados e decotes retos convivem com materiais mais brilhantes e superfícies que começam a mostrar outra personalidade.
Há também borboletas.
Elas aparecem bordadas com paetês em tops e vestidos e construídas em delicadas malhas metálicas.
A imagem funciona dentro de uma coleção apresentada num momento evidente de transformação para o grupo.
Giorgio Armani continua presente
A coleção contém referências bastante pessoais ao fundador.
Um dos looks recria o traje usado por Giorgio Armani em sua Primeira Comunhão.
Outro traz um retrato conhecido do designer aplicado a uma jaqueta coberta por cristais.
São gestos diretos dentro de uma coleção que precisa lidar simultaneamente com continuidade e mudança.
A estrutura da empresa também está mudando.
Silvana Armani permanece responsável pela principal coleção feminina Giorgio Armani, enquanto Leo Dell’Orco segue ligado ao masculino. Dario Vitale assumirá a direção criativa da Emporio Armani e dos acessórios Giorgio Armani a partir da próxima temporada.
Cinco formas de trabalhar identidade em Milão
Essas cinco coleções ajudam a explicar por que identidade voltou a ser uma palavra importante nesta temporada.
The Attico trabalha uma década de códigos próprios através de personagens.
Dolce & Gabbana mistura roupas e décadas como um guarda-roupa familiar siciliano.
Ferragamo encontra inovação dentro de uma invenção criada pelo fundador há quase 80 anos.
Bottega Veneta deixa suas técnicas artesanais ocuparem o centro da roupa com mais leveza.
E Giorgio Armani atravessa uma mudança histórica tentando preservar a precisão que tornou a marca reconhecível.
Não existe uma única direção estética comum entre elas.
Existe uma atenção maior àquilo que cada casa sabe fazer.
Milão termina olhando para dentro
A Milan Fashion Week 2027 apresentou várias casas trabalhando sobre códigos que já existiam antes desta temporada.
O interesse está na maneira como cada uma escolheu utilizá-los.
Na The Attico, um robe antigo pode voltar dentro de uma história sobre identidade secreta. Na Ferragamo, um sapato de 1947 abre uma pesquisa sobre fotografia. Na Bottega, uma técnica histórica muda completamente de escala.
Dolce & Gabbana assume a familiaridade de sua própria imagem, enquanto Silvana Armani começa a decidir quais elementos permanecem e quais podem ganhar outra direção.
Para marcas com identidades tão fortes, a discussão desta temporada passa menos por parecer completamente diferente e mais por descobrir quanto ainda existe dentro do que já foi construído.
Fotos: Vogue Runway
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