Acervo histórico da Comme des Garçons vai a leilão

O colecionador por trás da lendária loja Dot Comme se desfaz de 265 peças raras de Rei Kawakubo, incluindo itens dos anos 1970 quase impossíveis de encontrar.

Acervo histórico da Comme des Garçons vai a leilão
Foto: Divulgação

Um acervo histórico da Comme des Garçons vai a leilão, e para os fãs de Rei Kawakubo é uma oportunidade rara. A loja de vintage Dot Comme, comandada pelo colecionador australiano Takamasa La Rosa, vai se desfazer de 265 peças da marca japonesa e da label Junya Watanabe num leilão da Kerry Taylor Auctions, em Londres, marcado para 15 de setembro. Não é um acervo qualquer: La Rosa possui hoje cerca de 4.000 peças de Comme des Garçons, e selecionou a dedo os itens mais significativos para a venda. Quando alguém desse calibre abre mão de parte da própria coleção, o mercado inteiro presta atenção.

O que torna esse leilão especial é a profundidade histórica das peças. Entre os 265 lotes estão 18 itens da fase inicial da marca, nos anos 1970, período do qual é notoriamente difícil encontrar qualquer sobrevivente, mesmo em acervos de museu. A Comme des Garçons foi fundada por Rei Kawakubo em Tóquio em 1969, mas só se estabeleceu como empresa em 1973, o que faz de qualquer peça dessa época uma raridade quase mítica. A venda ainda inclui looks seminais da estreia de Kawakubo em Paris, em 1981, o desfile que apresentou ao Ocidente sua estética radical de roupas desconstruídas, bordas cruas e paleta monocromática.

O peso desse material fica evidente quando se olha para os recordes recentes do mercado. Segundo o leiloeiro, a Kerry Taylor Auctions estabeleceu um recorde mundial para uma peça da Comme des Garçons em junho do ano passado, quando um grande museu pagou 65 mil libras por um suéter e uma saia deliberadamente esfarrapados, da coleção “Holes”, do outono de 1982. Não à toa, a expectativa é que os itens mais antigos do acervo de La Rosa atraiam os lances mais acirrados e os preços mais altos. É o tipo de peça que transita entre o guarda-roupa e a peça de museu.

O perfil do colecionador ajuda a entender a importância do conjunto. Nas palavras do leiloeiro, La Rosa compreende a amplitude da marca de um jeito que pouquíssimas pessoas conseguem, o que lhe permitiu montar uma coleção de qualidade museológica, mas ao mesmo tempo academicamente rigorosa em seu escopo. Ele não coleciona por interesse comercial, e sim por paixão genuína pelo assunto, a ponto de ter sido a primeira pessoa na fila quando o Instituto do Traje do Metropolitan Museum, em Nova York, abriu sua retrospectiva de Rei Kawakubo, em 2017. É devoção, não negócio.

Vale notar que esse acervo histórico da Comme des Garçons chega ao mercado num momento de interesse crescente pelo design japonês. O leilão inclui também peças de Junya Watanabe, discípulo de Kawakubo, e o leiloeiro aponta que, mesmo sendo vintage, essas roupas seguem parecendo notavelmente novas para o público. É a prova de que as criações de Kawakubo preservam o gênio original de seu design décadas depois. Para colecionadores, curadores e fãs, o leilão é uma chance rara de levar para casa um pedaço da história de uma das mentes mais revolucionárias da moda, daquelas que raramente reaparecem no mercado.

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