“Miró: Mestre das Formas” percorre diferentes fases do artista espanhol com pinturas, esculturas, tapeçarias, filmes e documentos históricos.

A exposição de Joan Miró que chega a São Paulo em agosto reúne um dos maiores conjuntos de obras do artista espanhol apresentados no Brasil. Com mais de 140 trabalhos originais, “Miró: Mestre das Formas” abre ao público em 7 de agosto de 2026, no Museu de Arte Brasileira da FAAP, o MAB FAAP, em Higienópolis.
Pinturas, esculturas, gravuras, tapeçarias, fotografias, filmes e documentos históricos ajudam a reconstruir décadas da produção de Miró. Algumas peças nunca foram apresentadas no Brasil, enquanto outras são anunciadas como inéditas no Hemisfério Sul.
Com curadoria de Jordi J. Clavero, pesquisador dedicado à obra do artista, a mostra ocupa uma área superior a 1.200 metros quadrados. O percurso foi dividido em cinco núcleos temáticos, concebidos para apresentar diferentes momentos, técnicas e experiências da carreira de Miró.
Mais do que reunir imagens reconhecíveis do modernismo europeu, a exposição propõe uma leitura ampla de um artista que testou continuamente os limites da pintura. Miró trabalhou também com desenho, colagem, gravura, cerâmica, escultura e tapeçaria, construindo um vocabulário visual que atravessou praticamente todo o século XX. O MoMA, em Nova York, associa sua produção a campos como abstração, colagem, desenho, pintura e surrealismo.

Exposição de Joan Miró reúne obras de museus e coleções europeias
O conjunto apresentado em São Paulo foi formado a partir de empréstimos de três museus, 14 coleções particulares europeias e do acervo mantido pela família do artista. Entre as instituições citadas estão a Fundació Joan Miró Barcelona e a Fundació Pilar i Joan Miró a Mallorca.
A participação de diferentes coleções permite que a exposição não se concentre apenas nas pinturas mais conhecidas. Tapeçarias, esculturas, fotografias e registros audiovisuais ampliam a compreensão sobre o processo criativo de Miró e sua relação com materiais variados.
Essa abordagem é importante porque o artista nunca restringiu sua pesquisa à tela. A partir do fim da década de 1920, Miró intensificou suas experiências com técnicas e suportes, questionando os próprios limites da pintura e procurando novas formas de expressão.
A mostra também inclui obras de grande formato e materiais ligados aos bastidores de sua produção. Fotografias, filmes e documentos ajudam a aproximar o público do ambiente de trabalho do artista e das decisões que precediam a conclusão de cada peça.
Embora o título destaque o domínio das formas, o percurso deve revelar como Miró criou um sistema visual baseado também em ritmo, cor e repetição. Linhas, estrelas, luas, pássaros e figuras humanas reaparecem de maneiras distintas, como elementos de uma linguagem própria.
Uma trajetória entre movimentos e experimentações
Joan Miró nasceu em Barcelona, em 1893, e desenvolveu sua carreira em contato com diferentes correntes da arte europeia. Sua produção dialogou com o fauvismo, o cubismo, a abstração e o surrealismo, mas não ficou totalmente limitada a uma única classificação.
No início da carreira, o artista conciliou os estudos de arte com uma formação comercial. Depois de enfrentar problemas de saúde, abandonou o trabalho administrativo e passou a se dedicar integralmente à criação artística. Sua primeira exposição individual aconteceu em 1918, nas Galeries Dalmau, em Barcelona.
Durante os anos seguintes, Miró simplificou progressivamente as figuras e criou símbolos que pareciam oscilar entre a realidade, a imaginação e o sonho. Em lugar de representar o mundo de maneira convencional, passou a reorganizá-lo por meio de manchas, sinais, linhas e áreas intensas de cor.
Essa transformação pode ser observada em trabalhos como “O Campo Lavrado”, produzido entre 1923 e 1924, e “O Carnaval do Arlequim”, concluído na década de 1920. Mais tarde, Miró ampliou sua pesquisa para obras tridimensionais e monumentais, incluindo esculturas públicas realizadas nos últimos anos de vida.
A relação com o surrealismo foi decisiva, especialmente por aproximar o artista de métodos ligados ao inconsciente, ao automatismo e à associação inesperada de imagens. Ainda assim, sua trajetória ultrapassou as fronteiras do movimento.
Em diferentes períodos, Miró procurou romper com as fórmulas que ele próprio havia consolidado. Essa inquietação explica a variedade de materiais e escalas presentes em sua produção e também o interesse contínuo de museus e pesquisadores por seu trabalho.
Embora as formas de Miró possam parecer espontâneas ou infantis, sua composição era sustentada por uma pesquisa rigorosa sobre equilíbrio, espaço e movimento. A simplicidade visual não significa ausência de planejamento. Pelo contrário: linhas e áreas de cor eram organizadas para conduzir o olhar e criar tensão dentro da obra.
O que observar durante a visita
A variedade de suportes é um dos principais pontos da exposição de Joan Miró. Em vez de observar apenas a evolução cronológica das pinturas, o visitante poderá comparar como determinados símbolos foram adaptados à gravura, à escultura e à tapeçaria.
Também vale prestar atenção à escala. Uma forma pequena e delicada pode adquirir outra presença quando ampliada em uma escultura ou aplicada em uma tapeçaria de grandes dimensões.
O uso das cores é outro elemento central. Vermelho, azul, amarelo, verde, branco e preto aparecem com frequência, mas não funcionam apenas como preenchimento. Eles ajudam a estabelecer hierarquia, contraste e movimento.
Já os filmes, documentos e fotografias podem oferecer pistas sobre a rotina do artista. Esses registros contextualizam as obras e mostram que a experimentação de Miró estava ligada tanto à imaginação quanto ao domínio técnico dos materiais.
A divisão em cinco núcleos deve facilitar essa leitura. Em vez de apresentar uma sucessão extensa de peças sem conexão, o percurso organiza os trabalhos por aproximações temáticas e momentos da carreira.
Por que a mostra é relevante para São Paulo
Retrospectivas internacionais de grande porte exigem negociações prolongadas, seguros específicos, transporte especializado e acordos entre diferentes coleções. No caso de “Miró: Mestre das Formas”, a realização envolveu anos de conversas e contou com o apoio de Joan Punyet Miró, neto do artista.
A chegada desse conjunto ao Brasil oferece uma oportunidade de observar presencialmente técnicas que perdem parte de sua força quando vistas apenas em reproduções. Textura, proporção e materialidade são elementos fundamentais em pinturas, esculturas e tapeçarias.
A mostra também amplia a programação cultural de São Paulo ao aproximar o público de um dos nomes mais importantes da arte moderna. Miró morreu em 1983, mas sua produção continua presente em exposições, pesquisas e coleções internacionais. O MoMA mantém centenas de obras e registros relacionados ao artista em seu catálogo digital.

Serviço
Exposição: Miró: Mestre das Formas
Artista: Joan Miró
Curadoria: Jordi J. Clavero
Período: de 7 de agosto a 12 de outubro de 2026
Dias: de terça-feira a domingo; fechada às segundas-feiras, exceto em feriados indicados pela organização
Horário: das 9h às 20h
Última entrada: às 19h
Duração estimada: aproximadamente 60 minutos
Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP — MAB FAAP
Endereço: Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo
Classificação: livre para todas as idades
Ingressos: entrada com horário marcado; os preços ainda não haviam sido divulgados no momento da apuração
Acessibilidade: espaço adaptado para pessoas com mobilidade reduzida e audiodescrição para pessoas com baixa visão ou deficiência visual
Orientação: a organização recomenda chegar com 15 minutos de antecedência. Fotografias são permitidas sem flash.
Miró além das imagens mais conhecidas
“Miró: Mestre das Formas” oferece uma oportunidade de enxergar o artista para além das pinturas coloridas que se tornaram amplamente reproduzidas.
Ao reunir mais de 140 obras, a exposição de Joan Miró evidencia uma produção marcada pela mudança constante de técnicas, escalas e materiais. O percurso entre pinturas, esculturas, tapeçarias e documentos revela que sua linguagem não surgiu como uma fórmula pronta, mas como resultado de décadas de investigação.
A mostra também reforça a importância de observar obras de arte presencialmente. Dimensão, textura e disposição no espaço modificam a experiência e ajudam a compreender por que o trabalho de Miró permanece relevante mais de quatro décadas após sua morte.
Se você curte conteúdo sobre moda e lifestyle, acesse o nosso canal do Youtube com a Fabíola Kassin.









