A marca de Zurique entra na fashion week masculina pela primeira vez em junho, e o motivo dito por Guram Gvasalia explica muita coisa sobre o estado da moda.

A fashion week masculina de Paris vai ser mais movimentada do que o normal em junho. Vetements no calendário oficial da temporada é a notícia que pega quem acompanha o setor com a guarda meio baixa. A marca de Zurique, que historicamente desfilou durante a semana feminina ou na semana de alta-costura, faz a estreia oficial na agenda masculina no dia 26 de junho, às 20h30.
Segundo o calendário provisório da semana masculina de moda de Paris, divulgado pela Fédération de la Haute Couture et de la Mode na sexta-feira passada, são 74 marcas confirmadas para apresentar as coleções de primavera de 2027 entre 23 e 28 de junho. O total inclui 36 desfiles de passarela e 38 apresentações estáticas. Os pilares de sempre seguem cravados na agenda. Louis Vuitton, Dior, Junya Watanabe, Comme des Garçons e Yohji Yamamoto ocupam os horários tradicionais, sem grande reinvenção da estrutura.
O que torna essa edição particularmente densa é o número de estreias e retornos. A Saint Laurent volta ao calendário parisiense logo no primeiro dia, às 17h. A primeira coleção masculina da Celine assinada por Michael Rider acontece no último dia, ao meio-dia. Sarah Burton apresenta a primeira leitura masculina dela para a Givenchy em 25 de junho, ainda em formato de apresentação. E a Hermès, em vez de desfile tradicional, opta por apresentação, antecipando a estreia de Grace Wales Bonner no comando da divisão masculina, prevista para janeiro de 2027.
Mas é a chegada da Vetements que entrega o pano de fundo editorial mais interessante. Em entrevista, Guram Gvasalia, cofundador e diretor criativo da marca, contou que março e setembro, os meses tradicionais das semanas femininas, viraram terreno agressivamente comercial. Para ele, virou uma “batalha entre conglomerados” por exclusividade de modelos, contratos de embaixadores e gasto bruto de marketing.



A semana masculina de moda de Paris, segundo Gvasalia, segue mais conectada à cultura, com clima de bastidor e menos engessada pela lógica corporativa. Vetements no calendário oficial da semana masculina é, na prática, uma escolha contra o ambiente que a moda feminina virou.
A temporada também marca a estreia de Soshiotsuki em Paris, no dia 27 de junho às 19h30. O japonês Soshi Otsuki, que venceu o LVMH Prize 2025, construiu desde 2015 uma identidade que mistura códigos japoneses com a alfaiataria ocidental, e ganhou fama nas ruas de Tóquio pelos ternos oversize que bebem direto do Giorgio Armani dos anos 80. Quem fica de fora também conta a história. A Jacquemus não está na agenda dessa edição e não comunicou os planos para a primavera de 2027. A Loewe segue no formato co-ed e não desfila no calendário masculino. E Walter van Beirendonck preferiu fazer uma celebração de 40 anos da própria marca em Antuérpia, durante a primeira edição do festival local.
Vetements no calendário oficial é o detalhe que costura todo o resto. A semana masculina de moda de Paris dessa temporada se torna um termômetro do que está acontecendo no andar de cima da indústria. Tem a entrada de uma marca que escolheu o calendário menos óbvio. Tem creative-directors estreando em casas grandes. Tem ausências significativas. E tem a leitura, vinda de Gvasalia, de que a fashion week feminina virou ringue corporativo enquanto a masculina ainda permite respirar. Em junho vamos descobrir se essa virada é diagnóstico certo ou só wishful thinking de quem está chegando agora.









