Na segunda fase da collab, a lógica se inverte: agora é a linguagem da marca carioca que entra em diálogo com a arte e a arquitetura da Avenida Paulista.


Zerezes e MASP lançaram a segunda fase da sua colaboração, e o mais interessante não são os quatro novos óculos em si, mas a inversão que eles representam. Se em 2025 a primeira coleção aproximou a marca do universo do Museu de Arte de São Paulo, em 2026 o movimento vai no sentido contrário: é a linguagem da Zerezes, seu olhar de design e seus códigos visuais, que entra em diálogo com a arte e a arquitetura do museu. A marca deixou de ser convidada e virou coautora, e isso muda completamente o peso da parceria.
Os quatro novos óculos deixam essa maturidade evidente. Bo e Pape retornam em novas proporções, ajustadas a partir da escuta da comunidade da marca, enquanto Haru e Lena entram como novidades, ampliando a linha sem romper com a linguagem construída na primeira edição. As referências ao museu aparecem de forma sutil, quase discreta: transparências, contrastes, estruturas aparentes e cores aplicadas aos modelos clássicos evocam o edifício suspenso da Avenida Paulista sem transformá-lo em citação literal. É o oposto da collab preguiçosa que estampa a fachada do prédio na haste e chama de homenagem.
Rodrigo Latini, CEO e sócio-fundador da Zerezes, explica bem essa diferença de intenção. Segundo ele, a primeira coleção foi sobre fortalecer laços com uma das instituições de arte mais importantes do Brasil, enquanto esta segunda trata de permanência e autoria, de uma parceria que não começa e termina num lançamento, mas se aprofunda a cada coleção. Ele resume a tese da marca numa frase que sintetiza o projeto: design é cultura, e cultura é o que se vive no dia a dia, em quem você escolhe ser. Do lado do museu, Carolina Rossetti, diretora de Relações Institucionais, lembra que a collab foi uma das primeiras coleções desenvolvidas pelo MASP após a inauguração do Edifício Pietro e virou sucesso entre os visitantes.


O contexto institucional torna o encontro ainda mais coerente. Em 2026, o MASP dedica sua programação às histórias latino-americanas, ampliando discussões sobre pertencimento, território e produção cultural contemporânea. São temas que atravessam diretamente o trabalho da Zerezes, uma marca que sempre tratou o design como forma de pensamento e não apenas como acabamento estético. Quando as duas linguagens se encontram, o resultado é menos um produto licenciado e mais uma conversa entre repertórios que já compartilhavam a mesma sensibilidade.
Vale notar o que isso diz sobre o momento da moda brasileira. A leitura de marca como formadora de repertório, comportamento e identidade, e não apenas como vendedora de produto, é o que sustenta parcerias assim. Ao lançar novos óculos ao lado do MASP, a Zerezes consolida a posição de quem ocupa a cultura brasileira como parceira de construção, não como visitante. Para uma marca de eyewear nacional dividir crédito criativo com uma das instituições mais respeitadas do país, é um lugar que poucas conseguiram alcançar.









