

A Havaianas lançou um chinelo com salto na Copenhagen Fashion Week, e poucas peças conseguiram dividir tanto o público em tão pouco tempo. A marca brasileira apresentou uma versão kitten heel do seu ícone de borracha, elevando o dedo, literalmente, a um patamar que ninguém imaginava. De um lado, quem viu ali a evolução natural de um clássico; de outro, fãs chocados com a ideia de transformar o chinelo mais democrático do mundo num salto de passarela. É o tipo de reação polarizada que, no fim, costuma ser o melhor termômetro de que uma marca acertou o nervo do momento.
O timing do lançamento não é acaso, e explica boa parte da aposta. O kitten heel de dedo, aquele salto baixo e fino acoplado a uma sandália de tira em Y, é uma das grandes tendências de cinhelos e sandálias de 2026, um resgate declarado da estética dos anos 2000. As novas versões mantêm o formato do chinelo, mas com proporções mais limpas, e o salto baixinho entrega elegância sem apagar a energia de férias que define a peça. Ao trazer essa silhueta para dentro do seu produto mais reconhecível, a Havaianas não está inventando a tendência, e sim reivindicando para si um movimento que já dominava as ruas.
Vale entender por que Copenhague, e não outra capital, virou o palco desse chinelo com salto. Desde 2025, a Havaianas se transformou, contra todas as probabilidades, na it-shoe da Copenhagen Fashion Week, aparecendo nos pés de editoras, influenciadoras e no street style que pauta o resto da indústria. A cidade, quase toda percorrida a pé ou de bicicleta, cultiva um estilo minimalista e funcional em que o chinelo se encaixou perfeitamente. Foi ali, inclusive, que a marca já havia estreado uma colaboração com a OpéraSport, incluindo o primeiro chinelo de dedo impresso em 3D. O kitten heel é o próximo capítulo dessa relação improvável entre a praia brasileira e o inverno escandinavo.


Essa ascensão, no entanto, não veio sem controvérsia, e é justo registrar. Parte do público brasileiro reagiu com irritação ao ver a popularidade da Havaiana ser creditada ao “estilo escandinavo”, como se a sandália não fosse um símbolo nacional há mais de sessenta anos. Criada em 1962, em São Paulo, pela Alpargatas, e inspirada nas sandálias japonesas zori, a Havaianas trocou a palha de arroz pela borracha barata e durável, tornando-se sinônimo de calçado acessível e cotidiano. Ver esse ícone ser tratado como novidade fashion importada, e não como patrimônio brasileiro, mexeu com um ponto sensível de orgulho.
O curioso é que a própria história da marca já provava essa vocação para a moda muito antes de Copenhague. A Havaianas estreou na alta-moda em 1999, na passarela de Jean Paul Gaultier, e desde então colecionou parcerias com nomes como Saint Laurent, Missoni e Dolce & Gabbana, além de ter Gigi Hadid como embaixadora global e diretora criativa de cápsulas recentes. Nesse contexto, um chinelo com salto deixa de ser um capricho isolado e passa a ser coerência de trajetória. Quando a Havaianas lança um kitten heel na Copenhagen Fashion Week, ela apenas leva às últimas consequências o que vem fazendo há décadas: provar que a borracha mais popular do Brasil sempre teve lugar cativo na conversa da moda global, com ou sem salto.








