Depois de mais de três décadas reunindo carros, eletrodomésticos, bombas de gasolina e objetos descartados, Ted transforma seu acervo em uma rua americana inteira construída dentro de um galpão.

Durante mais de 30 anos, carros antigos, bombas de gasolina, eletrodomésticos, placas, manequins e produtos encontrados em antiquários, ferros-velhos e objetos descartados foram se acumulando com um objetivo pouco convencional. Em vez de simplesmente formar uma coleção, essas peças seriam usadas para construir a Ghost Town, uma cidade americana em escala real inspirada nos anos 1950.
O projeto, recentemente destacado pela Highsnobiety Design, pertence ao colecionador conhecido nas redes como @retroghosttown. Chamado Ted em reportagens anteriores sobre sua coleção, ele define sua trajetória de forma curiosa: seria uma espécie de “acumulação com propósito”.
A ideia é reproduzir uma Main Street completa dentro de um enorme Quonset hut, estrutura metálica semicircular originalmente desenvolvida para construções de montagem rápida.
Ali, os visitantes deverão caminhar por calçadas, observar carros estacionados, entrar em fachadas comerciais e encontrar prateleiras abastecidas com objetos de época.
Não se trata, porém, de criar uma reconstrução perfeita e brilhante dos Estados Unidos dos anos 1950. O conceito é justamente o oposto.
Ted quer que a Ghost Town tenha marcas do tempo.
Uma coleção de mais de 30 anos vira a Ghost Town
O projeto começou muito antes da construção do galpão.
Ted coleciona antiguidades há mais de três décadas. Entre os objetos reunidos estão bombas de gasolina antigas, parquímetros, manequins vintage, máquinas de pinball de madeira, fogões, televisores Predicta e diversos automóveis clássicos.
O interesse pelos objetos do período já aparecia em sua própria casa. Em uma reportagem publicada anos antes da construção da estrutura, seu porão era descrito como uma espécie de pequeno museu de eletrodomésticos vintage.
Na época, ele já explicava que aquelas peças faziam parte de um projeto maior: construir uma cidade retrô completa com vitrines, carros, semáforos, postos de gasolina e um diner.

A coleção, portanto, nunca foi pensada apenas como uma sequência de objetos raros.
Cada item poderia eventualmente ocupar um lugar específico dentro de um cenário.
Uma geladeira antiga deixa de ser apenas uma peça de coleção quando passa a fazer parte de uma loja de eletrodomésticos. Um parquímetro ganha contexto quando colocado ao lado de um Cadillac estacionado. Uma bomba de gasolina se transforma novamente em elemento arquitetônico quando aparece diante de um posto reconstruído.
É justamente essa mudança de contexto que diferencia a proposta.
Uma cidade construída dentro de um galpão
O espaço escolhido para receber a Ghost Town é quase tão curioso quanto o próprio acervo.
Ted optou por um Quonset hut, estrutura formada por grandes arcos metálicos e conhecida pela ausência de pilares internos que interrompam o espaço.
O modelo utilizado no projeto mede aproximadamente 60 pés de largura por 166 pés de comprimento, ou cerca de 18 por 50 metros. A montagem dos arcos da estrutura havia sido concluída no final de 2016.
Essa área aberta permite construir uma rua inteira dentro do edifício.
Em vez de simplesmente posicionar os objetos como em um museu tradicional, o projeto cria fachadas completas.
Entre os planos divulgados estão um diner inspirado nos estabelecimentos Fodero e um posto de gasolina AMOCO dos anos 1950. A estrutura interna também foi planejada para sustentar fachadas, grandes letreiros comerciais e vitrines.
Do lado de fora e ao longo da cenografia, automóveis ajudam a completar a ilusão.

Entre os veículos já mencionados no acervo estão um Cadillac Sedan 1955, um Fleetwood 1959, um Dodge Custom Lancer 1953 e um Kaiser Manhattan 1953.
O resultado pretendido é menos exposição e mais experiência.
Entrar nas lojas faz parte do conceito
É justamente nesse ponto que a Ghost Town se aproxima mais de uma instalação imersiva do que de uma coleção convencional.
O visitante não deverá observar uma fachada atrás de uma barreira.
A proposta é poder caminhar pela rua, aproximar-se das vitrines e entrar nos estabelecimentos. Dentro deles, prateleiras poderão ser preenchidas com produtos, embalagens, equipamentos e objetos correspondentes ao período.
O efeito depende da quantidade de detalhes.
Placas comerciais, eletrodomésticos, automóveis, mobiliário, iluminação e embalagens ajudam a eliminar referências visuais contemporâneas.
Quando tudo ocupa novamente um ambiente semelhante àquele para o qual foi originalmente produzido, o objeto deixa momentaneamente de parecer uma antiguidade.
Ele volta a fazer parte de um espaço cotidiano.
NOTA DA REDAÇÃO
Embora a Ghost Town esteja novamente ganhando atenção nas redes em 2026, o projeto não nasceu agora. Ted já descrevia seus planos de criar uma cidade retrô em uma entrevista publicada em 2013. A construção do grande Quonset hut avançou posteriormente e já tinha seus arcos erguidos em 2016. O interesse atual mostra como projetos de longa duração podem ganhar uma nova audiência quando encontram as plataformas de design e cultura visual.
Design imersivo sem aparência de parque temático
Talvez o aspecto mais interessante da Ghost Town seja a recusa de uma nostalgia excessivamente perfeita.
Ted já explicou que não pretende criar um cenário cheio de carros restaurados brilhando ou figuras óbvias da cultura pop dos anos 1950.
Sua referência está mais próxima de uma cidade abandonada.
A intenção é preservar poeira, ferrugem, desgaste e pátina. Em uma descrição anterior, ele comparou a atmosfera desejada menos ao universo alegre de Happy Days e mais a algo que poderia surgir em The Twilight Zone.
Esse detalhe muda completamente a leitura estética do projeto.
Em vez de reconstruir uma década idealizada, a cidade tenta criar a sensação de que aquele lugar realmente existiu e foi simplesmente abandonado.
A deterioração passa a fazer parte do design.
Uma placa oxidada não precisa ser restaurada. A pintura que desapareceu de uma bomba de gasolina pode funcionar melhor do que uma reprodução recém-fabricada. Um automóvel coberto por décadas de marcas ganha mais importância justamente porque carrega o tempo na superfície.
Quando colecionar passa a ser criar espaços
A Ghost Town também representa uma transformação interessante do colecionismo.
Coleções tradicionais costumam organizar objetos por categoria, fabricante, período ou raridade. Aqui, o objetivo é reconstruir relações entre eles.
O carro volta para a rua.
A televisão volta para uma vitrine.
O fogão volta para uma loja de eletrodomésticos.
A bomba de combustível volta para o posto.
Essa lógica aproxima o projeto de práticas encontradas na cenografia cinematográfica, em exposições imersivas e em espaços de experiência.
A diferença é que grande parte dos elementos utilizados não foi fabricada especialmente para reproduzir o passado. São peças que realmente atravessaram esse período ou foram produzidas dentro daquele universo visual.
Isso também explica por que a construção levou décadas.
Um ambiente desse tipo não depende apenas de arquitetura. Ele exige milhares de pequenos elementos capazes de tornar o cenário convincente.
Do descarte para o arquivo cultural
Existe ainda outra camada na história.
Muitos dos objetos foram encontrados em locais nos quais provavelmente seriam descartados ou esquecidos.
Quando reunidos, catalogados informalmente e reinseridos em um cenário, eles passam a funcionar como registros materiais de hábitos de consumo, design industrial e vida cotidiana.
Uma embalagem de supermercado pode revelar tanto sobre determinada época quanto um móvel.
O mesmo vale para a tipografia de uma placa, a forma de uma televisão ou as cores utilizadas em um eletrodoméstico.
A cidade acaba funcionando como uma espécie de arquivo tridimensional.

Não exatamente um museu, porque a experiência pretendida não depende apenas da contemplação. Também não é simplesmente um cenário, porque seus objetos carregam histórias próprias.
É justamente essa zona intermediária que torna o projeto tão particular.
Uma cidade feita de objetos que sobreviveram ao tempo
A Ghost Town mostra como uma coleção pessoal pode ultrapassar a lógica do acervo e se transformar em arquitetura, cenografia e experiência.
Depois de décadas procurando objetos que outras pessoas descartavam, Ted está reunindo cada um deles novamente dentro de um contexto.
O resultado não pretende reconstruir exatamente uma cidade que existiu.
Ele cria uma cidade que poderia ter existido.
E talvez seja justamente por isso que o projeto funcione visualmente tão bem: automóveis, placas, vitrines e eletrodomésticos não aparecem como peças isoladas de um passado distante. Eles voltam a ocupar a rua, as lojas e os espaços para os quais foram originalmente imaginados.
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